sexta-feira, junho 30, 2006 

Quando teremos paz?

Vivemos há dois meses em situação de conflito grave; o país está praticamente paralisado à espera de uma saída da qual possa resultar o retorno à tranquilidade. E já quase ninguém se lembra da razão inicial desta crise.
Reinado, Salsinha, distribuição de armamento, crise militar, tudo isso são imagens enevoadas na vida do comum da população timorense. Perdeu-se a rotina de uma vida simples, no ramerrão casa, trabalho, missa dominical, convívio familiar, mercado, luta de galo. Deitar cedo e cedo erguer. Perdeu-se o sossego. Ganhou-se medo, insegurança.
Embora as forças internacionais patrulhem a cidade de ponta a ponta, os distúrbios continuam a marcar o quotidiano da capital.
É certo que não se verificam muitos incidentes nas ruas principais, mais rasgadas, melhor delineadas. Aí, é mais fácil aos veículos militares circular.
O problema reside nos emaranhados bairros populares, de construção indonésia, com casas encostadas umas às outras e com ruas tão estreitas que é necessário recuar se surgir um carro em sentido contrário. Mas o rebuliço também está presente nos bairros cujas casas surgem do nada, isoladas, perdidas entre os extensos campos de bananas ou de outro tipo de denso arvoredo à mercê de desordeiros que aí se escondem quando passa a patrulha militar.
A maior parte dos habitantes desses bairros encontra-se refugiada nos campos de acolhimento. As suas casas desabitadas são alvo fácil para o saque e posterior incêndio.
Há quem confesse ter medo mas se recuse a deixar para trás os seus bens.
Não querem perder pela terceira vez – recordam os anos de 1975, 1999 e, agora, em 2006 - o que foram sacrificadamente construindo uma vez após outra. Estão cansados de fugir, de recomeçar.
S., uma professora viúva natural de Lospalos, está refugiada na Catedral. Em curta mensagem, S. dá conta do ocorrido. Primeiro roubaram-lhe os móveis, hoje terminaram a obra incendiando-lhe a habitação.
N., natural de Same, está muito assustado mas nega-se a sair de casa; tem uma família numerosa à qual se acrescentam inúmeros afilhados vindos da sua região, a quem N. paga os estudos. A sua casa situa-se entre outras de habitantes de Lorosae. E vai dizendo “Se saio, incendeiam-me a casa. Para onde levo a minha família? Só que eu moro numa zona complicada…”
M. é de Díli. Vive numa zona onde se cruzam tiros esporádicos e pedradas atiradas vezes sem conta por grupos rivais. Resolveu refugiar-se na Catedral. Entrou em depressão. E vai desabafando que “roubem o que quiserem mas não queimem. Custa muito reconstruir tudo de novo…”
B. é natural da ilha de Ataúro. Refugiou-se no porto e, quando achou que a situação estava controlada, voltou com a família para casa. Com a repetição de cenas diárias de tumultos, gritos, pedradas, correrias, B. sofreu um ataque cardíaco. Está internado há mais de uma semana no hospital nacional.
D., de Tíbar, a quem assaltaram e esvaziaram a casa pobre, suspira num desabafo: até o cão me levaram!
Muitos contraíram empréstimo bancário para o arranjo das suas casas.
Todos têm famílias extensas a seu cargo. São os filhos, os genros, noras, netos, afilhados, os avós… gente simples, gente sofrida. Passaram pelos conflitos de 1975 e de 1999. Todos comungavam da esperança de que a paz e a estabilidade se tornariam uma certeza duradoura no Timor independente pelo qual lutaram com coragem. Hoje, estão assustados, descrentes e desiludidos. Nenhum deles quer a discórdia. Todos apostam na paz. Só que já ninguém se atreve a vaticinar uma data para o retorno à paz ansiada…

quinta-feira, junho 29, 2006 

Do lado de cá de Comoro

Deste lado da cidade parecia que não iria haver nenhum incidente. Contudo, a meio da tarde, o bairro sobressaltou-se com o tiro para o ar das tropas malaias e australianas.
Junto ao antigo depósito da água, as tropas malaias têm um excelente posto de observação de onde devem ter enxergado alguma movimentação inusitada. Desceram a colina ao mesmo tempo que, mais abaixo, próximo da rotunda do aeroporto o tal movimento estranho alertou os jovens guardas do bairro 30 de Agosto que saíram todos à rua mal escutaram a sineta, sinal de perigo. Aproximavam-se forasteiros e era necessário abortar a sua acção destruidora.
Dizem os populares que o grupo forasteiro se dirigia ao Colégio D. Bosco onde continuam refugiados alguns milhares de pessoas, pronto para apedrejar, roubar, incendiar. Em suma, para semear o terror.
Lançado o gás lacrimogéneo, os ânimos serenaram na zona do Colégio D. Bosco.
Mas a área que se situa junto à colina ficou algum tempo desguarnecida. E, claro, os amigos do alheio fizeram a sua aparição, entraram no quintal de um dos poucos habitantes que não abandonou a casa. E lá se apropriaram de mais um porco que serviu certamente para melhorar algumas refeições…
Desta vez, a parte central do bairro foi poupada, o que infelizmente não tem acontecido na área mais próxima da ponte de Comoro e em Be Bono, um bairro bem populoso que se situa junto ao mar e contíguo ao aeroporto, próximo da Academia da Polícia.
Por Be Bono chega-se a uma praia paradisíaca e pouco frequentada. Ali, ainda se podem ver erguendo-se elegantes akadiros, palmeiras das quais se retiram a tuaka e o tuasabu, bebidas alcoólicas muito do agrado dos timorenses. A tuaka, mais adocicada, bebe-se fresquinha e dizem os apreciadores que é deliciosa. O tuasabu é uma aguardente fortíssima!
Toda a área de Comoro era, no tempo português, um vastíssimo campo de akadiros, de coqueiros, tamarindeiros, mangueiras e gondoeiros. No meio da vegetação densa, havia porcos bravos, búfalos, codornizes, galinholas…Etambém algumas jibóias, cobras verdes entre tantas outras, lafaek rai maran (1). Apenas permaneceram como memória de tudo isso, o lafaek rai maran. Dizem que a sua mordedura é fatal. Aqui no quintal já vi alguns que vão dando cabo das cobras que por aqui tenham a veleidade de se aventurar. E o toké , um lagarto feiíssimo, repelente. É útil em casa, dá cabo de moscas e mosquitos, é verde azulado, acastanhado, acinzentado – dizem que torradinho e reduzido a pó cura a asma! - e emite o som toké umas, cinco, seis, sete vezes... Quantos mais tokés, mais rouco, mais gutural, mais velho é o toké…
O primeiro espaço a sofrer total transformação ainda no tempo português foi Madohi, onde hoje se situa o aeroporto. Mas, foi durante a ocupação indonésia que a vegetação foi quase totalmente devastada para dar lugar aos bairros populares onde, à falta de plano de urbanização, cresceram como cogumelos autênticas casas de bonecas, todas coladas umas às outras, com ruelas estreitas e deficiente saneamento.
Ao longe, vê-se o Ataúro. À beira da praia, de areia preta, os coqueiros protegem do sol as peles mais sensíveis e, quando a sede aperta, sempre se pode beber água de coco, possuidora de magia que prende a esta ilha quem a experimente.
Manhã cedo, ainda antes do nascer do sol, este era um dos meus destinos preferidos.
Dois dedos de conversa com os pescadores que se faziam ao mar nos seus típicos beiros(2), alguma atenção dispensada aos labarik (3) apreciadores de Ronaldo brincando à bola, um banho nas águas cálidas e o dia estava ganho!
Praia quase deserta, mar calmo, pouco batido, águas transparentes, peixinhos de várias cores que se vêem a olho nu, - uma praia igual a tantas outras espalhadas por todo o Timor - alguém poderá desejar que isso faça parte do passado deste país?

(1) Lagarto. Traduzido à letra quer dizer jacaré de terra seca

(2) barco

(3) criança

quarta-feira, junho 28, 2006 

Apelo à paz em Timor-Leste


Há dias escrevi que Timor-Leste continua a suscitar muitas paixões.
Não sei se será correcto dizer que há paixões boas e más, umas oportunas, outras despropositadas. Mas tenho a certeza de que posso afirmar que algumas paixões de tão serôdias passaram o prazo de validade! Sem questões de Leste-Oeste, sem Muro de Berlim, em plena era da tão propalada globalização, deixou de fazer qualquer sentido a colocação num ou noutro lado da barricada capitalista, imperialista ou comunista! Chega!
Em Timor-Leste vivem-se dias problemáticos. Está a ser complicado, quase impossível, segurar quem se manifesta a favor e contra o Governo.
Os timorenses têm perfeita consciência de que se aproximam tempos difíceis e, recordando palavras do Primeiro-Ministro demissionário proferidas há dias a um jornal português, estamos perante a iminência de uma guerra civil.
Recuso-me a acreditar que haja um timorense interessado que timorenses matem outros timorenses em nome de paixões partidárias, de interesses individuais ou de, simplesmente, de irreflectida tomada de posições.
Se houver guerra, ela não aproveitará a ninguém.
Não podemos consentir que Timor-Leste acabe como país e passe a território desertificado de seres humanos, timorenses, apenas porque há um vencedor; quando um grupo vencer outro nesta luta estúpida e desnecessária, poderá não haver ninguém para contar. Não vai haver vencedor. Seremos todos um país vencido pelo ódio, dizimado e, sem povo, passaremos a nação inexistente.
Ninguém ignora que os timorenses são excessivos em todos os seus actos. Todos temos consciência de que nos empenhamos para defender apaixonadamente - e por vezes de forma ilógica - aquilo em que acreditamos. Está a ser difícil gerir as nossas paixões. Todos nós, timorenses, temos a percepção de que se está a perder o controlo sobre os milhares de manifestantes que, de um e de outro lado, não estão dispostos a ceder.
Sou timorense. Não quero uma guerra. Não quero o fim de Timor-leste. Não defendo que o meu país se resuma a um protectorado de uma qualquer potência estrangeira, seja ele país ou organização. Não, eu defendo Timor-Leste, nação, país, onde haja democracia, paz, segurança, tolerância. E respeito! E timorenses, vivos!
Ao mesmo tempo que nos debatemos com a premência de refrear os ânimos de populações que, de uma ou de outra forma, foram já vítimas do conflito, desenrolam-se, em paralelo, outros debates em instâncias mais sofisticadas nas quais se dão voz às paixões exacerbadas pelas facções em conflito. Esgrimem-se as virtudes e os defeitos dos timorenses, dos partidos, de outras forças em presença. Faz-se descarada apologia do que momentaneamente serve determinados interesses grupais, com total desrespeito pelo povo timorense em nome de quem todos dizem falar. De forma paternalista, de quem vem do Mundo civilizado, opinam, insultam e invectivam, contribuindo, ainda que de forma indirecta, para a radicalização de posições.
E os timorenses ouvem, lêem, vêem. Não seremos muito “inteligentes”, seremos talvez um pouco “burros”, como, aliás, alguns já disseram. Somos do Terceiro Mundo. Depauperados, dependentes, impreparados. Mas estamos atentos e somos bons observadores.
Tudo nos faz recordar o ano de 1975, quando um grupo estrangeiro decidiu tomar partido em Timor contra outra corrente partidária. O resultado foi o que se viu. Uma guerra civil, uma invasão e posterior ocupação estrangeira, 24 anos de sofrimento. Milhares de mortos. Estrangeiros? Não! Timorenses, porque os estrangeiros findos os ensinamentos, regressaram sãos e salvos ao seu país.
Culpados? Os timorenses, pois claro, pela inexperiência, pela imaturidade, pela impreparação…
Hoje, assistimos a discussões apaixonadas de apaixonados delirantes de alguns estrangeiros de diversos países. Os timorenses são a bola atirada ora para um lado, ora para o outro. Uns e outros estrangeiros, convém que se diga, defendem as cores dos seus interesses, embora o façam sempre em nome de Timor-leste!
Uns estão cá de motu próprio. Outros assessoram o governo de Timor-Leste, e, se bem me parece, esses assessores estrangeiros podem e devem aconselhá-lo. Outros ainda vêm em regime de cooperação. No âmbito puramente institucional devem aconselhar, opinar. Mas impõe-se que, fora do seu trabalho, todos o façam em círculo restrito, entre amigos.
Adivinho possíveis reacções desagradadas de estrangeiros sobre o direito que lhes assiste de emitir opinião. Esclareço que este desabafo, obviamente, apenas se dirige a quem escusadamente se imiscui na vida política de Timor-Leste nas questões internas deste país.
Não sou xenófoba nem racista. Nem faria sentido que assim fosse, porque assumo convictamente a minha dupla nacionalidade luso-timorense e de mestiça, filha de pai português do Algarve e de mãe firaku, de Venilale, no distrito de Baucau, em Lorosae. Acrescento que nasci no distrito de Liquiçá, no que hoje se designa por um dos dez distritos de Loromonu.
É justamente em nome da minha cidadania timorense que faço nesta página um apelo aos estrangeiros que, aqui se encontrando temporariamente, aqui trabalhando, vão debitando opiniões de índole diversa sobre o nosso destino enquanto país.
A situação é crítica. Enquanto timorenses temos a obrigação de envidar todos os esforços e canalizarmos as nossas paixões para o bem comum, que abranja todo o povo de Timor-Leste.
Agradecemos a presença de estrangeiros em Timor-Leste para nos transmitirem os seus conhecimentos, know how, do qual o país – deixado ao abandono pelo poder colonial, saqueado e humilhado pela potência ocupante -obviamente beneficiará!
Mas dispensamos que, em nosso nome, venham deitar mais achas para a fogueira!
Deixem-nos, por amor de Deus, com a tranquilidade possível, resolver o intrincado problema com que nos debatemos! Deixem-nos limar as arestas e apartar o que nos desune! Guardem as vossas paixões. Guardem as vossas energias para as lutas partidárias nos vossos países de origem onde há paz e estabilidade!
Aqui perdemos a paz! Não temos estabilidade. Corremos o risco de perder definitivamente a nossa soberania. Não contribuam para mais divisionismo! A hora é de contenção.
Dispensa-se o desfraldar de bandeiras!
É hora de vos dizer basta!
Pela unidade. Pela independência. Pela Vida. Pela paz. Pelo futuro de Timor-Leste! E esse tem de nos pertencer por inteiro!

 

O que há aqui é uma grande falta de educação

Ontem no telejornal da televisão timorense (RTTL) mostraram uma reportagem em que Mari Alkatiri, Lu-Olo e José Reis apareciam a dirigir-se a uma multidão de milhares de apoiantes do leste que se preparavam para vir manifestar-se em Díli. Imediatamente a seguir a esta reportagem começaram os distúrbios no meu bairro, que até aqui tinha andado mais ou menos sossegado, se compararmos com o que tem acontecido pelo resto da capital. Aqui, ontem à noite, um monte de jovens resolveu destruir duas ou três casas de gente do leste, seus vizinhos, uma das quais encostada à minha, enquanto gritavam “Lorosa’e komunista! Bá imi-nia rain!” (“Os orientais são comunistas! Vão para a vossa terra!”). Chamei a Task Force, como sei que fizeram outras pessoas do bairro, os malaios que são responsáveis por este sector acabaram por aparecer, passou aqui por cima um helicóptero umas quantas vezes, a situação acabou por acalmar, mas não sem que no intervalo entre as passagens da patrulha malaia os rapazes voltassem a ir partir mais alguma coisa que a sua fúria imbecil não tinha destruído ainda. Duvido que os malaios tenham prendido alguém aqui, os vândalos estavam ao pé das suas casas, não lhes era difícil esconderem-se, e, mesmo que no entusiasmo da orgia de destruição não ouvissem os carros blindados da patrulha, a aproximação destes é prontamente assinalada por códigos de assobios e ferros a bater um no outro, que servem também para chamar os jovens para a defesa do bairro, para rechaçar um ataque do exterior, ou para reunir as forças para desfazer as casas de vizinhos cujo único crime é terem nascido na parte errada do país.
As imagens que apareciam ontem na televisão faziam-nos pensar que o que ali estava, mais do que uma manifestação de apoiantes de Mari e da Fretilin, era uma manifestação de pessoas a quem queimaram as casas, a si ou aos seus familiares, em Díli, antes de os escorraçarem como refugiados para as suas zonas de origem. Não se viam mulheres nas imagens dos manifestantes, nem crianças, nem velhos.
Não há tradição de guerras entre o leste e o ocidente da parte oriental da ilha de Timor, as guerras de antigamente eram habitualmente entre reinos vizinhos. A última grande revolta contra o domínio português, a de Manufahi, no início do séc. XX, foi esmagada devido à aliança entre as autoridades coloniais e nobres timorenses que consideravam naquele momento que os interesses dos seus reinos ficavam melhor salvaguardados apoiando os portugueses. Os revoltosos comandados por D. Boaventura foram derrotados por arraiais (grandes conjuntos de guerreiros) vindos de lugares como o Suro-Ainaro e Manatuto, ambos dentro da área do que se chama neste momento Loromonu, tal como Manufahi. No entanto as tradições inventam-se e enraízam-se depressa. Como o Ruanda demonstrou, um povo analfabeto e ignorante é facilmente conduzido para o caos por líderes políticos ou religiosos com as suas próprias agendas. A divisão entre ocidente (loromomu) e oriente (lorosa’e) em Timor-Leste é uma distinção geográfica e não étnica. Os bandos de jovens de ambas as partes que deambulavam pela cidade de catana na mão há algumas semanas atrás identificavam os seus “inimigos” pelo sotaque ao falar tétum ou pelas línguas que falavam entre si (mas há uma área de falantes de tétum rural “clássico” em loromonu, na zona da fronteira de Suai a Balibó, e outra em lorosa’e, na região de Luka-Viqueque!). Para ter ideia do absurdo de tudo isto imagine-se um conflito em Portugal entre o Norte e o Sul, com os “mouros” de Lisboa a procurarem nas ruas indivíduos que trocassem os “vês” pelos “bês” para os espancarem! E depois há as pessoas do distrito de Manatuto, muitos dos quais sempre pensaram em si como sendo de lorosa’e, mas que desde que as fronteiras do conflito foram estabelecidas com base na divisão administrativa começaram a ser considerados de loromonu, e às vezes acabam a levar porrada dos dois lados.
Enquanto os jovens delinquentes do meu bairro andavam a destruir as casas, o que estariam a fazer os seus pais? Será essa a educação que lhes dão em casa? Infelizmente creio que sim. Há dias apareceram num dos principais jornais diários timorenses declarações de um antigo comandante das Falintil a condenar os jovens que roubam os pertences das casas de pessoas de leste, acrescentando depois que queimar ou partir tudo está correcto por ser uma forma de demonstrar ao governo que o povo não concorda com as suas políticas! Dizia ele que quando isso acontece o erro não é do povo, mas de Mari! Portanto, para o tal senhor, roubar é errado, queimar ou destruir casas de pessoas do povo que nasceram no oriente está certo! O jornal transcrevia apenas as declarações do homem sem nenhum comentário do jornalista ou de alguma entidade que pudesse demonstrar a barbaridade do que estava ali dito. Há demasiadas pessoas em Timor-Leste que fazem a apologia da intolerância política, religiosa, para com as minorias, para com os que se atrevem a ter comportamentos ou posturas alternativas... É necessário denunciar essa visão mesquinha do mundo, nas escolas, na televisão, nos jornais! O que é preciso para mudar este país é boa educação. Houve jovens no meu bairro que não participaram na destruição, que ficaram em casa quietos à espera que acabasse a violência, infelizes, como eu, pelo sentimento de impotência. Há muita gente boa e cansada de ver sangue e ruínas que espera ansiosamente que esta situação acabe. E quando acabar é preciso agarrar de uma vez com firmeza nas tarefas da educação. E ensinar que a responsabilidade pelos actos de cada um, bons ou maus, é individual. Há que abalar o poder dos grupos de pertença (escola de artes marciais, família, bairro, aldeia, metade do país em que nasceu, etc) e promover a consciência moral e ética do indivíduo. Ensinar o Bem contra o Mal, sendo Mal tudo o que provoca sofrimento, dor, morte, destruição.
Na casa vizinha à minha, a que foi destruída esta noite, não havia ninguém, felizmente. Os donos vinham a casa durante o dia, mas iam dormir a um campo de refugiados à noite. Há quem diga por aí da boca para fora que os timorenses gostam de viver de esmolas em campos de deslocados onde há distribuição gratuita de arroz. Não acredito.

terça-feira, junho 27, 2006 

Chuva da manga

Em épocas normais, por esta altura, tendo já passado o período das chuvas e quando o tempo está mais fresco e mais ajustado à época seca, a chuva de Junho tem uma razão de ser. Chama-se-lhe a chuva da manga. A Mãe Natureza lava e prepara as flores da mangueira para que a árvore possa frutificar convenientemente.
Tenho as minhas dúvidas de que hoje alguém se tenha lembrado disto quando, a meio da tarde e de imprevisto, a chuva caiu torrencialmente.
A cidade está parada há dois meses. O resto do país, com a vinda de milhares de manifestantes de Timor Lorosae e de Timor Loromonu, logicamente também paralisou. Para além de que quase toda a administração pública mal funciona.
Somos um país pobre mas permitimo-nos ao luxo de estarmos em crise há dois meses. Com o estado de emergência por mais trinta dias, tudo se tornará mais gritante. Adivinham-se tempos difíceis!
Hoje, o director do hospital nacional, via televisão, pedia encarecidamente aos enfermeiros que regressassem ao hospital, apelando para o carácter generoso e responsável do seu trabalho em prol do próximo. Mas, quem estará preocupado com o seu próximo, quando o a insegurança, o medo, o perigo, tomaram conta de cada pessoa?
Esta noite, aqui em Comoro já arderam três casas. No bairro Pité, outras tantas. Recomeçaram as provocações Lorosae, Loromonu. Surrealista é que o emblemático Maubere de 1975 – nome próprio vulgar na zona Loromonu, apenas na zona dos caladis-tocodede-mambai mas inexistente na ponta leste, tenha sido hoje transposto para os manifestantes firakus de Lorosae…
Sente-se alguma leviandade em tudo. Já ninguém se preocupa com a sua horta, os seus animais, com o seu trabalho e, noutra dimensão bem maior, quase ninguém se preocupa com o país. Somos um país à toa, sem norte. Empenhámos o futuro. Prefiro, contudo, acreditar que somos um país adiado e não um país falhado.
Estamos todos à espera. Que a crise passe, que os nai ulun* decidam o melhor.
Talvez por tudo isso, a acreditar que tudo tem uma razão de ser neste país mesmo quando o improviso e o imprevisto marcam o destino da terra; talvez porque os manifestantes queiram mostrar que a razão está do seu lado fazendo-o ruidosa e aparatosamente, talvez, diria eu, seja conveniente acreditarmos que a chuva que desabou fortemente sobre a cidade não serviu desta vez apenas para lavar as mangueiras e preparar a sua frutificação mas, sim, para refrescar os ânimos, arrefecer os ímpetos. De cabeça fria, pensa-se melhor! E, já agora, talvez possamos acreditar que, lavada e ultrapassada a desordem em que nos encontramos, floresça a paz e a estabilidade em Timor-leste!

* líderes

 

Díli, destino-aventura

Vieram dos dez distritos do Loromonu (1) de Timor-Leste, as milhares de pessoas que se têm manifestado defronte do palácio do governo.
Pois bem, ontem os de Loromonu, encheram a cidade, que passou a ser destino-aventura!
Na ponte de Comoro, a fila chega quase ao aeroporto. Os militares malaios demoram algum tempo a revistar as viaturas, em particular as camionetas, táxis e autocarros.
A meio caminho, há quem decida fazer meia volta e ir pela ribeira. É menos confortável, o caminho é mais poeirento mas, pelo menos, é um bocado mais rápido…até ao bairro Pité onde recomeça a agitação.
As bermas das ruas enchem-se de pessoas curiosas a ver passar a manifestação barulhenta e munida de cartazes sugestivos e alusivos à crise.
Nos cruzamentos de Díli, são as tropas australianas que controlam o trânsito, com os blindados atravessados bem no meio das ruas. E quem quiser passar para o outro lado da cidade, em direcção a Bidau ou à Areia Branca, terá de dar um volta incrivelmente longa. O calor da tarde aperta e é fácil perder-se a paciência com a lentidão do trânsito, num anda-pára cansativo.
Dizia-se que vinham de Baucau, lá para os lados de Lorosae (2), outros tantos manifestantes dar o seu apoio ao Primeiro-Ministro demissionário. Consta que não chegaram a Díli porque alguém os reteve em Metinaro, como medida preventiva de um hipotético conflito entre os dois grupos com interesses opostos.

Entretanto, voltámos a viver sob um verdadeiro estado policial, com os olhos de uns literalmente postos no movimento de outros. Se, por um lado, há quem controle quem vai à manifestação, por outro há também os que evitam a saída de alguns titulares de cargos públicos mais ou menos importantes: como hoje, de manhã, por exemplo, quando um responsável administrativo de um distrito de Lorosae que pretendia apanhar o avião para Bali se viu impedido de viajar. O senhor bem tentou explicar a razão da sua ida, que ia em trabalho, mas não teve sorte nenhuma e ficou em terra.
Ou como a demissão da assessora do primeiro-ministro Mari Alkatiri para a Promoção da Igualdade. Ao explicar os motivos da sua saída, de entre outros pontos, Micató – nome por que é conhecida Maria Domingas Alves - apontou o facto de ter tomado parte na manifestação incluída na Rede das Mulheres de que faz parte. E, obviamente, de ter sido vista…

Isto faz lembrar os tempos sob ocupação indonésia em que as pessoas tinham receio de trocar dois dedos de conversa em público com alguém “esquisito”, porque havia sempre um “Intel” por perto.
Aqui e agora, os novos “Intel” têm outras caras e outros modos de actuação e ainda não ficámos em silêncio, mas já começámos a baixar o tom de voz… Fala-se muito mais em surdina! E os que falam alto, sabem que ficam marcados!
A sensação com que se fica, é que virámos polícias uns dos outros. Que entrámos todos na paranóia colectiva de saber quem se associa a quem, quem está do lado de quem; daqui se conclui que, efectivamente, a democratização de Timor-Leste está bem longe de ser uma realidade interiorizada. Parece que ninguém está interessado em saber que a sua liberdade termina onde começa a liberdade do vizinho…
Valha-nos ao menos o civismo com que têm decorrido as manifestações! Sem as imagens de santos e de Nossa Senhora (ai, Timor-Leste e o respeito pelo mistério, pelo inexplicável, pelas forças do além!) usadas no ano passado na manifestação da Igreja e cuja utilização se pode interpretar como forma de limitar e até evitar qualquer desvio na ordem estabelecida, ao menos que, este ano, seja o bom senso a evitar que a situação resvale para a violência…

(1), (2) - A utilização das palavras Lorosae e Loromonu foi hoje propositadamente usada porque passaram a politicamente incorrectas, havendo já quem prefira já o leste e o oeste, dos que fogem da designação que mais não era senão um marco geográfico provocando que, um dia destes estes sejam banidas definitivamente do léxico timorense. Há que relativizar a questão e reduzir o problema à sua real dimensão

domingo, junho 25, 2006 

Mas, as crianças, Senhor...

No dia em que o Comité Central da FRETILIN se reuniu para decidir sobre a continuação, ou não, de Mari Alkatiri no Governo.
No dia em que Ramos Horta se demitiu dos cargos de Ministro dos Negócios Estrangeiros e Cooperação e da Defesa, no que foi seguido pelo ministro das Comunicações e Transportes, Ovídeo de Jesus Amaral.
No dia em que afluíram à cidade de Díli milhares de manifestantes contra o Governo de Mari Alkatiri e em que a RTTL transmitiu um concerto musical pela paz, apelando à unidade nacional e a um Timor novo.
Nesse mesmo dia, realizava-se uma outra cerimónia, mais discreta, menos participada, que não teve honras de televisão e primou pela ausência notada de entidades oficiais timorenses.
Justamente há um mês, um militar abriu fogo sobre uma coluna formada por 80 agentes da PNTL, a Polícia Nacional, que se dirigia desarmada e a pé para as instalações das Nações Unidas.
De imediato, morreram sete agentes e 16 ficaram feridos, dos quais três viriam a morrer no hospital nacional Guido Valadares.
Não vale a pena dizer que “poderia” ter sido um massacre. Para os familiares, amigos e colegas foi, realmente, um massacre.
Hoje, em sua memória, houve missa no local onde tombaram. Quem assistiu, refere o ambiente de indescritível tristeza e dor em que decorreu a cerimónia religiosa, com o pranto incontido dos familiares e das criancinhas que traziam nas suas mãos as fotografias dos pais desaparecidos.
Ao ouvir a descrição desta triste história a somar a tantas outras ocorridas neste dois meses de conflito, recordei-me de um grupo coral constituído por criancinhas órfãs, se não me falha a memória, de Oécussi. Os pais haviam sucumbido à fúria assassina das milícias pró-indonésias.
Um rapazinho talvez de uns cinco anos, magrito, com umas pernitas a perderem-se nos calções largos que lhe chegavam quase ao tornozelo, de olhos bem escuros e tristes fixos no tecto alto do Ginásio repleto de delegados ao Congresso do CNRT realizado em Díli em Agosto de 2000, cantava com voz choramingada, amargurada, sobre a dor de não ter pais.
Esse era bem o tempo das nossas esperanças! Na altura, confiei que a independência de Timor iria acabar com todas as injustiças e, por isso mesmo, aquelas criancinhas iriam finalmente conseguir ultrapassar a dor de se sentirem sós. Acreditei – dir-se-á que ingenuamente - que o Estado iria torná-las felizes. Sê-lo-ão? Onde estão e o que fazem essas criancinhas?
Passaram seis anos. É curta a nossa história como país independente. E dela vivemos hoje, porventura, o momento mais complexo, mais grave e de consequências totalmente imprevisíveis.
As crianças de Timor-Leste, apesar de tudo e embora esteja longe o cumprimento dos seus direitos, conseguem sorrir, brincar. Mas, entre as que sorriem e brincam, não estão incluídas as criancinhas órfãs daqueles dez agentes que a morte surpreendeu! Mortes escusadas de timorenses às mãos de outros timorenses! E em nome de quê, senhores?
Passados quatro anos sobre a nossa celebrada independência, porque não perguntar, gritar em voz magoada “mas, as crianças, Senhor, porque lhes dais tanta dor?”

sábado, junho 24, 2006 

Que vai ser de Timor-Leste?

Timor sempre suscitou muitas paixões, inúmeras discussões muito acaloradas. É o que acontece agora. Em tempos idos como hoje, quando se fala desta crise, ( a palavra da moda) é inevitável apontar-se mais do que um responsável por ela, a crise.

Antigamente, também havia os bons e os maus. Mas havia, apesar de tudo, menos subdivisões nos temas em discussão. Talvez não houvesse tanta imaginação, ou escasseassem os intervenientes empenhados…

Mas, certamente que os intervenientes empenhados eram-no, efectivamente empenhados na causa de Timor…

Hoje, há muito mais diversidade e Timor desdobra-se, enche-se de mil caras, todas diferentes.

Talvez porque a “situação” (outra palavra que serve para ilustrar tudo quanto se passa no país) tenha evoluído. Os tempos também são outros… também aqui, “situação” pode ser “situasi”.

Já não há “os do mato” nem militares indonésios. Hoje há timorenses. Em vez da palavra secreta e em surdina dos “do mato” , os insurrectos falam abertamente e bem alto. Descem à cidade. Descansam em pousadas, onde o clima é mais ameno...Não sei se tocam piano, não sei se falam francês, mas sei que falam inglês e têm telemóvel!

Se os do mato lutavam quase sem armas, ao menos agora, as armas são sofisticadas, modernas e diziam uns que até estavam em boas mãos.

Se “os do mato” não tinham fardas, hoje abundam as fardas novas, com cintos e botas a condizer… Os tempos são outros… Não há rupias. Há dólares!

Se naquele tempo, a luta era pela liberdade hoje assistimos à luta pelo Poder.

Hoje ninguém quer ser clandestino. Não aos bastidores! Todos exigem as luzes da ribalta! Todos querem o papel principal!

Perduram os bons e os maus. Os heróis e os bandidos. Os da FRETILIN e os outros. E juntaram-se-lhes os esquadrões armados e os peticionários. Os civis e os militares. Os malais e os timorenses. Xanana e Mari. Os Lorosae e os Loromonu. Os portugueses e os australianos. As boas armas e as más armas. Unidade, desunião. A mentira e a verdade. Outra paz, outra guerra. Uns vivos, outros mortos.

O Povo é que não mudou. Ainda é povo timorense. O povo é que continua pobre. O povo é que se sente perseguido. São os seus parcos haveres que continuam a ser roubados, incendiados. “Povo maka terus nafatin”*.

Adia-se o futuro. Timor-Leste está paralisado. Sem acção. Em desnorte total, perdido. Fugindo de si próprio. De alma moribunda.

Mas continuamos distraídos, discutindo entre os bons e os maus, os heróis e os bandidos, muito pouco sobre a paz, quase sempre sobre a guerra…

Que vai ser de Timor-Leste?


*Povo maka terus nafatin - O povo é que continua a sofrer

sexta-feira, junho 23, 2006 

Decepções


Quando em Timor-Leste a situação está ao rubro, com o país suspenso das decisões do Presidente e do Primeiro-Ministro com vista a que se chegue a uma solução pacífica que nos tire desta crise grave, o que menos interessa agora é ouvir críticas aos timorenses quando estas se afiguram inoportunas, demasiado ligeiras, para não dizer levianas.
Quero com isto dizer que não caiu bem a afirmação do secretário-geral das Nações Unidas, Kofi Annan, quando disse em Genebra onde assistiu à abertura das sessões do novo Conselho dos Direitos Humanos e a uma reunião da Conferência do Desarmamento que "o que se passou em Timor-Leste foi uma grande decepção para todos".
Um dia escrevi que não se pretende desculpabilizar os timorenses pela má condução do problema político-militar de que resultou a crise grave que assola o país. Menos ainda pela condução da política interna do país e até mesmo pelo recurso à violência como meio de resolução de qualquer tipo de adversidade.
Mas os timorenses têm algumas desculpas: herdaram um país saído de um conflito violento, não tinham experiência de governação e nunca viveram em democracia, nem no tempo da colonização portuguesa nem durante a ocupação indonésia.
Kofi Annan disse que "A ONU ajudou a criar uma nova Nação". Pois foi, ajudou, mas fê-lo de forma insuficiente e superficial; ajudou pouco pois esteve dois anos em Timor-Leste e apressou-se a sair mal surgiu a hipótese de se tornar presente noutro teatro de crise.
Timor-Leste deixou muito rapidamente de ser um país a “ajudar”. As razões, só mesmo a ONU poderá explicar.
Mas sempre se pode perguntar se Kofi Annan acha que dois anos era o tempo suficiente para apagar todas as consequências nefastas resultantes da ocupação violenta a que Timor-Leste esteve sujeito durante mais de duas décadas. Também se pode perguntar se em dois anos é possível democratizar um país que viveu sempre sobre dominação estrangeira de países onde a democracia era considerada o pior dos males.
A aprendizagem da Democracia não é fácil e até nos países com anos de experiência democrática, bem interiorizada, há problemas, quanto mais num país construído literalmente a partir das cinzas!
O secretário-geral da ONU considerou ter "havido uma má gestão, incluindo da polícia, e um choque de personalidades".
É verdade tudo isso.
Mas, se a ONU tivesse apostado mais na construção da Nação que ajudou a criar, talvez não tivéssemos chegado a este ponto.
E não apostou mais e melhor porque também geriu mal a administração e a construção da Nação da qual foi poder transitório, ficando-se pela má e atabalhoada reorganização física do país e descurando totalmente a reestruturação psicológica da sociedade que passava, necessariamente, pela conciliação, pelo entrosamento de personalidades para evitar os tais “choques” entre as diversas sensibilidades.
E isto é suficiente para que se diga que também nós, timorenses, ficámos muito decepcionados com a atitude administrativa da ONU em Timor-Leste.

 

Discurso de Xanana Gusmão ao Povo Amado e Sofredor e aos Líderes e Membros da FRETILIN

Discurso de Xanana Gusmão aos timorenses no dia 22 de Junho de 2006. Um discurso histórico, explosivo e decisivo para a compreensão do que se está a passar em Timor e que aqui publicamos na integra. Na ausência de uma tradução oficial, o PÚBLICO recorreu a uma tradução do escritor e professor de tétum Luís Cardoso a quem agradece. (Foto António Dasiparu/EPA)






Mensagem de S.E. o Presidente da República

Povo Amado e Sofredor aos
Líderes e Membros da FRETILIN

Eu peço licença aos companheiros para tecer algumas palavras acerca da FRETILIN, porque conheço a FRETILIN melhor do que alguns delegados ou todos aqueles que estiveram no congresso há pouco realizado, sabendo apenas levantar a mão porque receiam perder o emprego, para alimentar a mulher e os filhos, porque recebem dinheiro por trás (eu sei de uma pessoa que recebeu cem mil dólares para comprar todos os Delegados, não se sabe se distribuiu bem ou … deu cinco mil, cinco mil para os delegados, e meteu esse dinheiro no seu bolso). Porém não importa, não se sabe até onde pode enriquecer, isto é um assunto privado, por isso não é um problema do povo, porque esse dinheiro é do partido.

Queridos

Antigamente eu era membro do Comité Central da FRETILIN, até à minha saída em 1986. Se não fosse a crise e a violência que surgiram depois do Congresso da FRETILIN, na qualidade de Presidente da República, eu tenho que velar para a vida das instituições democráticas, eu tenho que criticar duramente o Congresso que decorreu nos dias 17 a 19 de Maio passado. Este Congresso viola a alínea c), do artigo 18º, Lei nº 3/2004, acerca dos Partidos Políticos, que diz o seguinte: os titulares (aqueles que desempenham funções), dos órgãos directivos (dos partidos), todos, têm de ser eleitos, por voto directo e secreto pelos militantes para que sejam representativos dos militantes. O artigo 46º da Constituição da RDTL, no seu nº 3, afirma o seguinte: “a constituição e a organização dos partidos políticos são reguladas por lei”. Essa lei é a Lei nº 3/2004.

Nenhuma lei que surja no nosso País, pode violar a constituição. Todas as organizações são reguladas pela lei, não podem violar esta lei. Isto é um princípio elementar do Direito, e o Governo que tem muitos doutores e doutoras que fizeram a lei, depois violam a lei de acordo com os seus interesses.

Como eles é que sabem tudo, neste cantinho da terra toda a gente é ‘supermi’, o Congresso da FRETLIN, realizado há pouco tempo, pode violar a lei que eles próprios fizeram, com a maioria no Parlamento e com os intelectuais todos no Governo que escreveram esta lei, para anular o sistema de voto secreto, para o voto de braço no ar, levando todo o povo a rir e a ficar triste, para a comédia que o grande e histórico partido fez para registar na nossa história futura. (Porque se é para ficar registada na história, eu também baptizo GMT- Gedung Matahari Terbit [Casa do nascer do Sol] para GAT- Geddung Angkat Tangan [Edifício do Braço no Ar], para que não exista mais nenhum partido na nossa terra, para brincar com o povo, para violar aquelas leis que os políticos escreveram e aprovaram).

Queridos

A FRETILIN, é um partido histórico como todos nós sabemos. No dia 20 de Maio de 1974, surgiu a ASDT (Associação Social-Democrática de Timor), com a influência de alguns estudantes universitários timorenses que estavam a estudar em Portugal nessa altura, onde se inclui Abílio Araújo, e criaram no dia 11 de Setembro daquele ano a ASDT/FRETILIN, mais tarde transformado em FRETILIN. Esses jovens universitários introduziram uma orientação revolucionária, que aprenderam no tempo colonial fascista de Salazar e Marcelo Caetano.

E todos nós podemos constatar: FRETILIN, significa Frente Revolucionária. Em Maio de 1977, em Laline, na reunião do Comité Central de FRETILIN, foi adoptada a ideologia marxista-leninista. Eu também participei como membro do Comité Central. Alguns companheiros que ainda estão vivos também participaram como membros do Comité Central, como Abel Ximenes Larisina, Filomeno Paixão, Feliciano de Fátima e Ma Huno.

Porém eu quero dizer-vos que em 1975, Timor era muito atrasado mas a tecnologia sofreu grandes avanços nos últimos tempos, tornando o mundo mais pequeno. Eu acredito plenamente que se Nicolau Lobato, Sahe, Carvarino, Hamis Bassarewa, César Mau-Laka, Hélio Pina e Inácio Fonseca e outros, tivessem sobrevivido até 2006, até à era pós-guerra fria, era da globalização, era da tecnologia, todos eles concluiriam que para o Timor que tanto amavam, dando as suas vidas, a antiga ideologia não serve.

Hoje, um pequeno grupo, vindo do exterior, quer repetir os comportamentos que nós tivemos de 1975 até 1978.

De acordo com o que todos nós sabemos, em Agosto de 1975, a UDT fez o golpe para expulsar os comunistas da nossa terra, iniciando a guerra entre os timorenses. Em 2006, a FRETILIN quer fazer um golpe para matar a democracia que eles próprios escreveram na Constituição. O problema da distribuição das armas não tem a ver com a situação que estamos a viver, já estava nos seus planos, distribuíram para as eleições de 2007. Por isso é que estamos sempre a ouvir eles dizerem: só a FRETILIN pode criar a estabilidade ou a instabilidade.

Quando as bases de apoio se desintegraram em 1978, os companheiros da Ponta Leste e com este servo, tentaram organizar-se para procurar os companheiros dos outros sectores para encontrarem-se com os companheiros de Bazartete e Liquiça, Same e Ainaro. Se não acreditarem, perguntem aos companheiros veteranos que estão na F-FDTL, para não dizerem que eu inventei, para minha vaidade pessoal como algumas pessoas que eu conheço que entraram na FRETILIN, que nos olham de lado, como se fossem eles os únicos a fazerem a guerra.

Queridos companheiros
Membros da FRETILIN

Em Março de 1981, na Conferência de Laline, reorganizou-se a resistência, e conforme nós costumamos dizer, passou-se para a fase da guerrilha. Tal como a crise que estamos agora a viver, no Conselho de Estado ficou decidido definir os problemas prioritários, uma vez que não temos força para resolver todas as coisas de uma só vez; assim, em 1981, a nossa primeira prioridade foi a reorganização.

Por isso, nós também, em 1981, agarrámos novamente na orientação “ideológica” que recebemos dos nossos intelectuais e chefes. Em 1983, durante o período de cessar-fogo com o “TNI”, de Março até Agosto, começámos a falar sobre democracia. Por isso, em 1984, para corrigir os erros do EMG-FALINTIL, na região central, apareceu o “CC Hudi Laran” que não quis aceitar a mudança política que nós vimos ser a melhor para o nosso processo de resistência. Acerca disso, muitos companheiros que ainda estão vivos podem contar melhor com floreados, senão podem pensar que eu é que quero mostrar-me como se eu fosse o único a escrever a nossa história.

Eu comecei a enviar cartas para o exterior para a DFSE (Delegação da FRETILIN em Serviço no Exterior) – podem perguntar ao Sr. Abílio Araújo que nós escolhemos em Março de 1981 como Presidente da FRETILIN e, de acordo com os estatutos do partido, Presidente da RDTL.

Eu também disse para o exterior que no interior do território a Unidade Nacional já estava segura desde Tutuala até à fronteira passando por Oecussi e Jaco, que a igreja também se juntou, que as pessoas dos outros partidos também participavam na resistência. Por isso, eu escrevi aos companheiros no exterior para se sentarem com a UDT para se reconciliarem.

No exterior, em Portugal, em Moçambique e também na Austrália, talvez a “INTEL” também vigiava os timorenses lá fora, não se mexiam como se os espias os seguissem, como se fossem as suas sombras e por causa disso demoraram tanto tempo para erguerem a “Convergência Nacionalista” onde surgiram vários problemas – podem perguntar aos elementos da FRETILIN no exterior, ao Sr. João Carrascalão e ao Sr. Vicente Guterres. Eu cito o nome deles só para dizer que, se pensam que eu minto, peçam-lhes para vos informar.

Porém que o vento leve estas palavras até aos irmãos que estão lá fora, que os Gadapaski [Jovens Guardas em Defesa da Integração] estão no nosso território, castigam os jovens até ficarem bem moídos. Assim, em Moçambique, Rogério tentou adquirir pengalaman [experiência] para se matarem uns aos outros e Ramos-Horta ficou preso. Naquele tempo, o Presidente Chissano, ainda como Ministro dos Negócios Estrangeiros, é que foi libertá-lo. Se acharem que estou a mentir, perguntem-lhes porque eles é que estavam em paz para estudarem, para serem doutores, durante 24 anos em Moçambique.

Feita a Convergência Nacionalista em Lisboa, no mato eu estava muito feliz, pelos passos dados em frente. Em Dezembro de 1986, eu criei o Conselho Nacional da Resistência Maubere, deixei a FRETILIN, porque sendo comandante das FALINTI ASWAIN eu tinha que pôr as FALINTIL fora do Partido.

Assim as FALINTIL como força de libertação de todo o povo, de todos os partidos, de toda a população, Loromuno, Lorosae, Tacifeto, Tacimane, prolongando Ramelau até Matebian.

Eu disse para os que estavam no exterior, que como comandante das FALINTIL, eu é que comandava a luta. Também continuava a ter o meu respeito pela FRETILIN, com os membros do Comité Central, que estavam comigo no mato integrados no CNRM.

Lu-Olo, disse que durante os 24 anos, transportava a bandeira da FRETILIN no seu saco; talvez fosse verdade, porém eu nunca vi. Quando eu andava como membro do Comité Central da FRETILIN, fui até o centro do país para organizar de novo a resistência, eu lembro-me que ele, Lu-Olo, estava escondido em Builó. Talvez estivesse a tecer o saco para guardar a bandeira da FRETILIN. Lu-Olo diz também que quem abandonou a FRETILIN é traidor e não tem história. Palavras ocas sem sentido, porque se é traidor, eu sou o primeiro traidor, eu sou o maior traidor deste povo e desta terra. Deixei a FRETILIN para libertar a nossa terra e todo o nosso povo. Porque eu não matei a FRETILIN e continuo a respeitar a FRETILIN, assim Lu-Olo pode ser Presidente para ser o sábio que levanta primeiro o cartão no Parlamento Nacional, para a maioria seguir, votando contra ou a favor. Se eu me sentisse como traidor sem história, para regressar à FRETILIN, Lu-Olo nunca chegaria a ser Presidente da FRETILIN alguma vez.

Companheiros
Membros da FRETILIN

Como eu disse atrás houve um grande protesto vindo do exterior, dizendo que eu estava a matar a FRETILIN. Abílio Araújo escreveu aos companheiros da FRETILIN para se reorganizarem. Nós reunimo-nos. Ma Huno, Mau Hodu, Konis Santana, como membros do Comité Central da FRETILIN e eu, decidimos despromover o Abílio Araújo, porque durante a guerra, nós não podíamos receber ordens do exterior, porque no exterior eles é que tinham que seguir orientações do interior.

Porque no mato, recebíamos jornais de Portugal, diversas informações, também ouvíamos rádio e sabíamos que eles no exterior, no seio da própria FRETILIN, não se davam bem, não estavam unidos. Perguntem ao José Luís Guterres, Ramos-Horta e Abílio Araújo, se estas coisas que eu digo são verdadeiras.

Nós vemos que em vez de colocar os seus pensamentos no sofrimento do povo, eles comiam-se uns aos outros para se apoderar da cadeira do Presidente da FRETILIN e depois tentar comandar a luta do exterior. Porque no mato não havia ninguém em busca de cadeiras, apenas procuravam servir para levar a luta para frente, eles os três disseram-me que nenhum deles queria ser Presidente da FRETILIN. Assim, nós decidimos criar a CDF (Comissão Directiva da FRETILIN) para evitar que os intelectuais, no exterior, entrassem em conflito para serem Presidente da FRETILIN. Se os companheiros não acreditarem, perguntem ao Lu-Olo, naquele momento, onde estava ele? Se ele estava naquela reunião ele pode confirmar se eu estou a mentir, que estas coisas estão a ser inventadas por mim, porque não estão correctas.

Perguntem ao Lu-Olo, porque é que mais tarde, tomou ele sozinho a Comissão Directiva da FRETILIN no mato. Não é porque Ma Huno e Mau Hodu foram capturados e Konis morreu? Neste mundo, algumas pessoas esquecem rapidamente os mortos que lutaram pela independência, pior do que isso, cospem para cima das suas campas.

No mato nós também lemos as acusações vindas da Amnistia Internacional e de organizações de direitos humanos, de que a FRETILIN também cometeu crimes. Eu mandei uma mensagem para o exterior, reconhecendo que FRETILIN matou pessoas, devido a problemas ideológicos, estava arrependida por isso. No exterior, todos ficaram zangados comigo, Abílio Araújo declarou de imediato que não, e que as coisas que eu disse eram mentira.

A partir daí, eu também cortei as relações com eles porque era através desses relatórios e informações que eu lhes enviava, que eles falavam para o mundo. Até 1989, eu enviei as informações e relatórios para a CDPM (Comissão para os Direitos do Povo Maubere) para utilização dos amigos portugueses.

Companheiros
Companheiros membros da FRETILIN

Em 1989, eu estava em Ainaro, recebi uma carta do Rogério Lobato acusando os outros no exterior, de que não faziam nada, dizendo que a luta estava acabada, e que todos tinham de se submeter à justiça popular. Rogério informou-me nessa carta, que Mari Alkatiri criava coelhos e galos em Maputo.

Eu recebi, em 1990, uma carta de José Ramos-Horta oferecendo-se para ser meu Representante Especial lá fora. Eu estava escondido em Becora e escrevi-lhe dizendo que concordava, mas tinha de seguir os princípios e as orientações políticas do CNRM, também seguindo as minhas palavras. Ele respondeu-me, dizendo que também saiu da FRETILIN para servir a luta. Se os companheiros não acreditarem, perguntem ao Ramos-Horta.

Em 1991, em Novembro, em Santa Cruz, alguns companheiros puxavam mais pela FRETILIN. Eu respeito o vosso sofrimento mas não podem atirar o pensamento e as acções dos outros para a lama. Assim, nós não temos honestidade política. Não podemos nomear apenas a bandeira da FRETILIN, porque eu também dei orientações para levarem as bandeiras da UDT e de Portugal, seguindo a resolução da ONU, Portugal continuava a ser a “potência administrante”.

A manifestação era para pedir a solução pacífica, sob a égide das Nações Unidas e a participação de Portugal e dos partidos políticos. Pedi com veemência que não podiam dizer que era uma iniciativa da FRETILIN, que não era, porque havia um comando da luta, do CNRM.

Em finais 1998, dei poderes ao Manuel Tilman, Padre Francisco Fernandes, Padre Domingos Maubere e o Padre Filomeno Jacob para irem a Portugal e ajudarem Ramos-Horta, a FRETILIN e a UDT, a organizar a conferência para alterar CNRM para CNRT, para reunir todos os timorenses no seu seio. Porque a UDT não aceitava a palavra Maubere e queria ‘T’ de timorense. Se não acreditarem, perguntem ao Sr. João Carrascalão e aos outros que estavam no exterior.

Queridos
Companheiros membros da FRETILIN

Em 1998, se eu não me engano, no período da Reformasi na Indonésia, eu mandei Mau Hodu a Sydney e escrevi à FRETILIN para se organizar como partido, para mostrarem a sua orientação político-ideológica. Foi sob o chapéu do CNRM e do CNRT que o Povo ganhou em Agosto de 1999. Isto é história, história da resistência, história do sofrimento, história de sangue. Hoje em dia, nós ouvimos que só a FRETILIN é que fez a luta. Não importa, vocês é que são os donos da luta, aceitamos, não deitem areia para os olhos do povo porque é todo o povo que vota e não apenas a FRETILIN.

Em Maio de 2000, a FRETILIN convidou-me a falar na sua Conferência, no GMT [Ginásio], neste momento rebaptizado GAT. Pedi três coisas à FRETILIN:

- primeiro, rever, reavaliar o caso de Xavier do Amaral, porque ele não é um traidor na nossa terra, apenas porque não aceitou a ideologia adoptada pelo Comité Central, em Laline, em Maio de 1977.

- segundo, para limparem o nome de todos os que a FRETILIN assassinou porque os considerava traidores, mas que não eram traidores, apenas não aceitavam a ideologia marxista-leninista, e para que as suas famílias possam estar descansadas.

- terceiro, que a FRETILIN pedisse desculpa ao Povo, sobretudo aos familiares das vítimas.

Naquela Conferência eu disse isto: “Como membro do Comité Central da FRETILIN, desde o início até meados da guerra, todas as coisas boas que a FRETILIN fez, eu também fiz parte, as coisas más que a FRETILIN, porventura, tenha feito, eu também tenho a minha responsabilidade. Não é por eu ter deixado a FRETILIN que lavo as minhas mãos.

Eu também pedi, caso a FRETILIN tomasse uma decisão política acerca destes pedidos, que eu próprio iria ter com o povo e pedir desculpa e explicar as razões e pedir às famílias para compreenderem os erros cometidos no passado.

Passados estes dias, convidaram-me para ir à festa da FRETILIN, dia 20 de Maio de 2000, no Estádio e, depois do discurso de Lu-Olo, eu perguntei-lhe e ao Mari acerca dos pedidos que fiz na Conferência. Eles responderam que tinham constituído uma comissão para tratar desses assuntos.

Em Agosto de 2000, no Congresso do CNRT, a FRETILIN isolou-se, saindo do CNRT. Nós permanecemos calmos, continuámos a trabalhar seguindo o processo político que a UNTAET delineava, até Junho de 2001, data em que foi dissolvido o CNRT, porque terminara a sua missão.

Em Janeiro de 2000, Ramos-Horta fez-me saber que era melhor falar com o Mari. Eu respondi que foi a FRETILIN que abriu a porta do CNRT para sair e que ninguém a fechou, pelo que se quiserem voltar que o fizessem. Mari veio falar comigo à sede do CNRT em Balide.

Ele disse-me que saíram porque estavam zangados comigo, porque eu deixei algumas pessoas falarem no Congresso rebaixando o nome da FRETILIN. Estas pessoas eram vítimas da violência política da FRETILIN no mato.

Eu respondi-lhe um pouco zangado: “Você esqueceu-se das três coisas que pedi na vossa Conferência em Maio. Limpar o nome das vítimas ou pedir desculpa ao Povo, não é rebaixar a FRETILIN mas concertar ou limpar o nome da FRETILIN”.

Eu disse-lhe também: “Você não tem razão para temer, porque o Sr. pode dizer ao Povo o seguinte: Eu, Mari, não tenho nenhuma razão para estar contente por causa das razões erradas que aconteceram dentro de Timor. Eu, Mari, em Maputo, sofrendo durante 14 anos, lavo as minhas mãos todos os dias com sabão. Eu, Mari, tenho as mãos limpas, se quiserem pedir, vão pedir a Xanana, as mãos dele é que estão sujas, as mãos dele é que estão ensanguentadas.”

Eu continuei a dizer: “Se o Sr. continuar a falar assim, eu aceito, e eu irei pedir desculpa ao Povo quando a FRETILIN tomar a decisão política acerca disso”.

No “Lapangan Pramuka”, agora designado “Campo da Democracia” todos os partidos políticos assinaram que iriam constituir um Governo de Unidade Nacional. Quando a FRETILIN ganhou afastou-se do compromisso político que aceitara. Se não queria aceitar, não necessitava de lá ir assinar, em vez de ir assinar e, no fim, virar as costas às palavras que tinham assumido.

Isto é tal e qual como na Constituição que eles fizeram, as leis que eles fizeram. Eles fizeram, viraram as costas, não cumpriram.

Povo que eu respeito
Membros da FRETILIN

Todos sabemos e reconhecemos que a Fretilin saiu vitoriosa em Agosto de 2001. Se falarmos como deve ser, com o devido respeito pelos Partidos da oposição, a maioria FRETILIN foi quem fez a Constituição da RDTL, definindo o Estado de Direito Democrático.

Num Estado de Direito Democrático, de acordo com a Constituição, as Forças Armadas e a Polícia devem ser apartidárias, não devem defender nenhum partido. Mas, o que testemunhámos até hoje, é que a Policia está sob o controlo do Governo, e para dar de comer a mulher e filhos, não tem coragem para dizer ‘não’, quando recebe ordens do Ministro do Interior, e algumas vezes do próprio Primeiro-Ministro.

No passado dia 2 de Junho, antes da reunião do Conselho Superior de Defesa e Segurança, o Brigadeiro Taur falou comigo e disse: “Presidente, eu disse ao Dr. Roque Rodrigues, o vosso maior erro foi tentarem submeter as F-FDTL à FRETILIN.” Naquele momento fiquei muito contente porque reencontrei-me com o meu Irmão que eu tinha perdido.

Os Serviços de Informação ou Inteligência, que se tornou na Inteligência do Partido, para escutarem a conversa do Presidente em Lospalos, e enviar ‘sms’ imediatamente ao Primeiro-Ministro, monitorarem as actividades dos Partidos da oposição e também enviarem ‘sms’ para o Primeiro-Ministro. Alguns jovens no Farol também viram algumas coisas. Enviaram ‘sms’ para o Primeiro- Ministro. Hoje em dia, porque não há trabalho, todos nós procuramos sobreviver. Se tivermos dinheiro, aproximamo-nos deles.

Toda a gente vê que isso está a acontecer no nosso país.

Há pouco tempo, numa reunião em Baucau, algumas pessoas diziam assim: “Xanana, ‘assim mesmo’, na guerra dividiu-nos. Finda a guerra continua a dividir-nos”. Compreendo o sentido da palavra “fahe” [dividir]. O seu sentido, para os políticos e os intelectuais, correctamente, todo o Povo tem de entrar para a FRETILIN, Polícia, FDTL, funcionários, ‘bisnis’ [negócio], suco, aldeia, búfalos, formigas, árvores, ervas, todas as coisas têm de entrar para a FRETILIN. Timor-Leste é a FRETILIN, FRETILIN é Timor-Leste. Não pode existir outra coisa, não podem existir outras pessoas. É isso que explica ‘Xanana divide Timor’, por isso, ‘Xanana tem que sair’. Como se dissesse que eu quero governar nos próximos 50 anos.

Encontrei-me com alguns, em 1991, em Díli, que me deram os parabéns porque defini uma estratégia política correcta em 1986, com a criação do CNRM. Hoje, encontraram uma cadeira no Governo, esperando ser amanhã, ou depois, ministro, e dizendo novamente que eu divido o Povo.

Querido Povo martirizado

Por isso mesmo, depois do Congresso da Fretilin, no passado mês de Maio, muitos ou alguns delegados receberam armas. Os Administradores de Distrito e subdistrito também ouviram dizer que alguns receberam armas. Por isso mesmo, vemos na televisão, ouvimos na rádio, lemos nos jornais, os políticos e os sábios que detêm o controlo desde a ponta do ‘kuda talin’ [as rédeas do cavalo], dizerem repetidamente que: ‘Se Mari sair, haverá derramamento de sangue!’, ‘Se Mari sair, Timor explode’, ‘Se Mari sair, haverá guerra!’.

Talvez o Comandante seja Rogério. Os Membros do Comité Central viram-se Conselheiros Políticos, para a ideologia de ‘Ran Nakfakar’ [derramamento de sangue] e para a ideologia de ‘Timor rahun’ [Timor vai explodir]. O Vice-Presidente do Parlamento também já gosta de falar de ‘guerra’. Já tem muito dinheiro então tem de falar de ‘guerra’.

A História continua a evoluir, continua em movimento, e são os actos de todos nós que escrevem a história. Eurico Guterres, que todo o mundo conhece, acusado de ser assassino e outras acusações, ficou preso, nós todos pronunciamos o nome dele e todos nós o acusamos porque em Timor-Leste somos todos santos, somos todos heróis da Libertação, somos todos políticos governantes. Com efeito, é muito interessante !!!

Enquanto Eurico Guterres, no dia 26 de Maio passado, enviou um ‘sms’ pedindo aos nossos governantes para não fazer este povo sofrer tanto, os nossos governantes, alegremente, falam de ‘ran sei nakfakar’ [haverá derramamento de sangue], ‘Timor sei rahun’ [Timor há-de explodir], ‘ita sei funu’ [nós vamos à guerra].

A História avança, silenciosamente, continua em movimento, registando os nossos actos, os bons e os maus, os limpos e os sujos.

Ninguém poderá inventar a história, somos nós mesmos que estamos a fazer a nossa história, uma história triste que nos envergonha, e faz com que o povo sofra.

Eles talvez continuem a contar com as Falintil-FDTL. Mas com a prática deles, sujaram também o bom nome das F-FDTL. E eu acredito que as Falintil-FDTL, hoje, aguardam por mim, para nós podermos conversar. As Falintil-FDTL também erraram, mas erraram porque deram ouvidos a pessoas mal intencionadas, deram ouvidos a pessoas que não amam o povo, deram ouvidos a pessoas que tentam comprar a alma do povo. Durante os tempos da guerra de resistência nós dizíamos sempre: se as balas não matarem, o arroz e o supermi podem matar, as balas só podem matar o corpo, mas as rupias, o arroz e o supermi matam até a própria alma.

Hei-de vestir a farda de novo para de novo erguer o bom nome das Falintil-FDTL. Hei-de caminhar de novo com as Falintil, porque é Aswain do Povo [é o brio do Povo], mas que hoje chora, estão arrependidos, por não quererem escutar o seu Irmão mais velho, e escutaram só os que têm sede de sangue. Em 2000 eu saí das FALINTIL porque reconheci que as FALINTIL já haviam cumprido a sua missão sagrada de libertar a Pátria, e todos os seus membros já são crescidos, o que me permite deixá-los sozinhos para continuar a sua própria caminhada. Tal como no CNRT, em 2001, decidimos dissolver, para que cada um procure o seu lugar nesta nova caminhada de nação independente.

Mas eu estou pronto para caminhar de novo com todos eles e pedir desculpa ao Povo. Depois disso, todas as F-FDTL, desde o Brigadeiro General até aos novos soldados, farão Juramento ao Povo, dizendo que, enquanto militares, curvam-se perante a Constituição, respeitam as Leis, e nunca dependerão de um Partido, e darão garantias de liberdade e segurança à população, e respeitarão a Ordem Constitucional.

Os que têm sede de sangue e tentaram dividir a PNTL e atiçá-los uns contra outros, também farão Juramento ao Povo, que só se submeterão à Constituição, que defenderão a legalidade democrática e darão garantias de segurança interna para todo o povo e não se submeterão a um partido.

No dia 11 de Maio, Mari disse-me que desconfiava que o Rogério estivesse por detrás do 28 de Abril, porque não cumpriu a ordem do Mari para enviar a UIR de imediato para impedir os manifestantes.

Duas semanas depois, Rogério foi a Caicoli falar comigo. Eu disse-lhe: “Rogério, para citar o nome de Nicolau Lobato, devo dizer-te que eu estive juntamente com Nicolau nalguns dos momentos mais difíceis da guerra. As pessoas acusam-te de distribuir armas. Acredita ao menos em mim. Pensa bem, porque na guerra eu não perdi nenhum membro da minha família, tu perdeste a tua família toda. Nicolau com todos os teus irmãos, estão a olhar para nós, estão a chorar por causa das coisas que estão a acontecer. Eu sei que eles não querem isto”.

Companheiros

A grande História dos que têm sede de sangue ainda é uma longa história. Porque, em todos os lugares, aparecerem pequenos comandantes espalhados por todo o Timor, fazendo barulho, para aterrorizar as pessoas. Algumas pessoas, talvez do Departamento de Comunicação do Comité Central, enviaram ‘sms’ para os delegados, para os administradores.

Mas, com a ânsia, marcaram mal o número e todos receberam o ‘sms’ pedindo para levar “10.000 pessoas desse distrito, 5.000 de outro distrito, para apoiar o camarada Lu-Olo e camarada Mari”.

Hoje, se queres ser funcionário, ou ministro, tens de te preparar para matar a tua própria alma, porque o dólar despiu os princípios que, porventura, ainda pudesse ter, nós não sabemos.

Vemos muito bem, estas pessoas brincam com o sofrimento do povo, usam o povo para defender a sua cadeira, o seu nome e o seu bolso.

No Relatório da CAVR pede-se o FIM DA VIOLÊNCIA POLÍTICA, para que o povo não sofra uma vez mais. Ainda recentemente, em Janeiro passado, fui entregar este Relatório ao Secretário-Geral da ONU. Ainda mal se completaram seis meses, disparos de armas, incêndios, pessoas mortas em Dili.

Um jovem em Lospalos, chamou-me traidor, porque não defendo um tribunal internacional. Hoje, ele não está sossegado, está todo envaidecido em Lospalos acreditando que a FRETILIN tem armas para fazer a guerra.

Eu fui a Lospalos no ano passado e falei com eles, e disse que a FRETILIN tem de pedir desculpa. Enviaram de imediato um ‘sms’ ao Mari. No meio de uma reunião, Mari mostrou-me esse ‘sms’ e parecia contente porque a sua rede de informações do partido está espalhada por todo o Timor para informar sobre as conversas do Presidente ou as actividades da oposição.

Pude dizer a este jovem, que eu, agora, não quero ser mais um traidor do Povo. Porquê? Quando o Tribunal iniciou os julgamentos de crimes que estão a ser cometidos pedi aos Tribunais para considerarem se podiam esvaziar as Prisões de Becora, Baucau e Ermera para receber os novos hóspedes. Neste momento, todos aqueles apenas cometeram crimes menores comparando com o que está a acontecer agora. Crime contra o estado de Direito Democrático, crime contra o Povo que já sofreu durante a guerra, durante 24 anos. Becora, Baucau e Ermera hão-de receber diversos hóspedes, muitos corruptos que hão-de lá ir e têm de ir para lá.

A Comissão Internacional de Investigação irá chegar, para nos ajudar a todos, para avaliar esta violência política que assolou o nosso país. Tudo quanto a CAVR fez e transmitiu, para escutar o choro do povo, o que o povo pede, as exigências do povo, para os políticos não fazerem sofrer mais o povo, para evitar a violência política, tudo isso, a liderança da FRETILIN não quis ouvir, ignorou. A liderança da FRETILIN demonstrou que, este choro, não lhes diz respeito, este chorar, não é problema deles, mesmo que o povo sofra não é problema deles, nem que o povo morra, não é problema deles. O grande problema para eles é como manter-se no Governo. A liderança da FRETILIN, por causa da sua arrogância, só sabe é acusar outras pessoas e não são capazes de reconhecer que também erram. Para eles, não há erros, porque o que fazem tem um objectivo: governar.

Só devem pensar em guerra para governar, porque governar dá-lhes tudo, dinheiro, boa casa noutro país, negócios que lhes dão dinheiro e ao partido também, mas o partido para eles é o pequeno grupo que está a governar. O Povo está a sofrer em Dili, não foram ainda ver o Povo, nem foram ainda falar com o Povo. Só se preocupam é em mobilizar pessoas do interior, para demonstrar que toda a FRETILIN curva-se perante eles, para lhes beijar as mãos e os pés. O Povo que se mobiliza para os apoiar, coitado, talvez andem de carro sem pagar, para gritar ‘Viva este, Viva aquele’, e depois de serem alimentados regressam às suas casas, continuam a cavar a terra, querem mandar os filhos para a escola mas não têm meios, sem dinheiro, em casa continuam com fome.

Na mensagem de Fim do Ano de 2005, eu apelei aos jovens e a todo o povo, para não darem ouvidos aos políticos que clamam pela ‘violência’, que os empurram para a violência. Nós não queremos ouvir-nos uns aos outros, todos confiamos que todos os sábios desta terra que, com as suas atitudes, podem dar-lhes dinheiro, para sujar a imagem da Fretilin, e para matar o nome e a história da FRETILIN.

Eu sei, que Nicolau Lobato está triste. Nicolau Lobato não pede que o seu nome seja colocado em todos os lugares. Ele não precisa. O que ele pede é apenas isto: que respeitem a sua luta para libertar esta Terra e este Povo, que respeitem apenas o seu sangue.

Espíritos e Antepassados, levantem-se para olhar por este povo! Ossos que estão espalhados por todos os cantos, ponham-se de pé, Sangue que foi vertido por todos os cantos, juntem-se de novo para ver aqueles que querem estragar o povo, que querem ver o povo sempre a sofrer, que querem ver o povo sempre a morrer.

Mostrem-se, mostrem a vossa força! O vosso filho está aqui, que vos implora, para olharem por este Povo, para libertar este Povo do jugo dos sedentos de sangue.

Povo sofredor
Membros da FRETILIN

Em política, quando nós erramos, mesmo sendo um pequeno erro, mas se não reconhecermos que é um erro, voltaremos a cometer muitos e maiores erros. Porque não se reconhece que entre 1975 e 1978, a FRETILIN matou membros da própria FRETILIN e outros que não aceitavam a sua ideologia, hoje em dia, para a liderança da FRETILIN, matar não é problema. Matar, para eles, uma pessoas ou duas, ou dez, ou centenas, ou milhares, é matar. O importante para eles é que o partido seja forte, para que governem sempre.

Um Partido assim, é um Partido que não quer a democracia, um partido que quer impor a sua vontade a todos nós.

Eu respeito a FRETILIN porque a FRETILIN me ensinou a amar a Terra e a servir o Povo.

Todo o Povo respeita a FRETILIN, porque a FRETILIN faz parte da História de Timor-Leste. Mas, o Povo tem de desprezar as pessoas que querem acabar com este Partido, para fazer todo o Povo sofrer.

Estas pessoas não merecem estar na FRETILIN. Penso que outros Partidos não os hão-de receber, porque estas pessoas querem sugar o sangue do Povo, querem ver o sofrimento do Povo, para poderem governar sempre, para estarem bem. O Partido que os acolher, o Povo tem de ter cuidado, porque este Partido talvez mais tarde tenha sede e peça o sangue do Povo.

Rogério deixou de ser ministro, Mari promoveu-o a Vice-Presidente da FRETILIN. Faz-nos sentir vergonha por esta política suja. Rogério foi ao Quartel da Polícia pedir combustível para o carro que ainda tem. O Responsável pela Logística da PNTL disse-lhe: o Sr. já não é Ministro do Interior, não pode receber combustível da PNTL. Rogério respondeu insultando-o: Macaco, eu agora sou mais do que Ministro, tu sabes ou não?

No dia 28 de Novembro de 2002, pedi para que ele fosse demitido, porque todas as informações diziam que, em vez de fazer o seu trabalho, organizava o povo, para cortar a lenha, para ele vender, plantar mandioca, para ele vender, fazer o vinho, que ele há-de vender, pescar, que ele há-de vender. Eu falei com o Mari, como Primeiro-Ministro e com o Ministro Horta, na minha casa, antes de 28 de Novembro de 2002, sobre o Rogério. Mais tarde, porque pedi para ele ser demitido, eu é que errei e quando aconteceu o 4 de Dezembro, apontaram-me o dedo.

Todos sabem sobre os buracos que foram cavados em Tibar, também noutros locais, porque Rogério andava à procura de ouro/tesouro, que ele ouviu dizer que os japoneses haviam enterrado. Nós não nos devemos admirar com as atitudes que o Rogério toma. Enquanto estávamos em guerra e sofríamos na nossa Terra, Rogério, enquanto ministro da Defesa, viveu em Angola e aproveitou para traficar diamantes até ser detido numa prisão. E a FRETILIN, por causa do seu nome Lobato, ou porque algumas pessoas se sentiram afectadas, elegeram-no como Vice-Presidente da FRETILIN.

Na tomada de posse do Ministro do Interior, apertei-lhe a mão e disse-lhe: “Rogério, não esperes que eu te respeite, só por teres o nome Lobato. Nicolau também era Lobato, mas era Nicolau, tu chamas-te Rogério. Respeitar-te-ei, se a tua atitude me revelar que mereces respeito, mas não é por seres Lobato”. Alguns investidores procuram encontrar-se comigo e disseram: “Presidente, o vosso sistema é muito diferente, para investir no vosso país, há duas vias: uma, temos de contactar a Agência de Investimento sob a tutela do Ministro Rogério, ou, a segunda, através de langsung (taxa indirecta) paga às altas entidades.

Empresários timorenses disseram com tristeza: Presidente, já tenho a licença para a minha empresa mas sofremos pressão para fazer entrar algum dinheiro na FRETILIN. Eu perguntei-lhe “querem que eu fale?”, e eles responderam “Irmão, nós esperamos muitos anos, perdemos muito dinheiro, deixa-nos recuperar o nosso dinheiro”.

Companheiros membros da FRETILIN
Querido Povo sofredor

Por isso, como Presidente da República, que não aceitou o resultado do Congresso realizado de 17 a 19 de Maio passado, exijo à Comissão Política Nacional da FRETILIN, que organize imediatamente um Congresso Extraordinário para, em conformidade com a Lei nº 3/2004, sobre os Partidos Políticos, eleger uma nova Direcção do Partido. Quando digo, em conformidade com a Lei, isso significa alterar a ‘votação de braço no ar’ dos Estatutos da FRETILIN, para que a eleição da nova Direcção, seja por voto directo e secreto. Dou um prazo de uma semana, para que este Congresso Extraordinário seja feito, porque a actual Direcção da FRETILIN é ilegítima.

O Presidente da FRETILIN, Lu-Olo, Vice-Presidente da FRETILIN, Rogério Lobato e o Secretário-Geral da FRETILIN, Dr. Mari Alkatiri, todos eles, de acordo a Lei dos Partidos Políticos, são ilegítimos.

Não se pode dizer que a FRETILIN não tem dinheiro, porque a FRETILIN tem muito dinheiro.

Até o dinheiro que sobrou do Congresso, Rogério comprou dois carros para o Grupo de Rai Lós.

Eu posso discutir a Crise com a Nova Direcção, mas cabe ao Estado decidir. Porque não é a FRETILIN que errou mas sim os que têm olhos grandes para o dinheiro e a enorme ambição para cavalgar sobre as costas do povo.

O que é o Estado de Direito democrático? O artigo 1º da Constituição afirma: “A República Democrática de Timor-Leste é um Estado de direito democrático ... baseado no respeito pela dignidade da pessoa humana”. Hoje em dia, nós falamos de ‘guerra’, de ‘derramamento de sangue’, e esquecemos a tolerância política. Os governantes demonstram que não têm respeito pela dignidade de cada pessoa, consentindo a violência e a destruição, causando mortes e perdas de bens.

O artigo 6º da Constituição afirma: “O Estado tem como objectivo fundamental: b) Garantir e promover os direitos e liberdades fundamentais dos cidadãos e o respeito pelos princípios do Estado de direito democrático; alínea c) defender e garantir a democracia política”. Nesta crise, só ouvimos ameaças de toda a ordem. Os governantes vão contribuindo para a violação destes objectivos do próprio Estado.

No artigo 29º da Constituição, afirma-se que: “nº 1 – A vida humana é inviolável; nº 2 – O Estado reconhece e garante o direito à vida”.

O que é que constatamos? Permite-se que as pessoas disparem umas contra as outras, pessoas são mortas, o povo sofre. Os governantes ajudam a violar a obrigação do Estado, não cumprem o seu dever de garantir a cada cidadão o direito à vida.

É a conjugação de tudo isto que dá sentido ao ‘Estado de direito democrático’.

O Povo agora enfrenta um problema muito sério: há armas nas mãos dos civis, há disparos de armas em muitos lugares. E também quero informar que as Forças de Intervenção apreenderam já muitas armas que não são da PNTL nem das F-FDTL.

O Estado não pode consentir isto, este sofrimento para o Povo. Algumas pessoas reclamam que ‘estamos a perder a nossa soberania’. Não é porque as Forças Internacionais tenham entrado na nossa terra, mas perdemos a nossa soberania porque nós é que fizemos o pedido e sobretudo porque nós é que demonstramos não ter capacidade para resolver os problemas surgidos, criando problemas ainda maiores.

O Estado de direito democrático não é só os órgãos de soberania estarem juntos, rirem-se uns com os outros, aparecerem na TV, dizerem aos jornais que nós estamos juntos. A Unidade Nacional não é encostarmo-nos uns aos outros para mostrar os nossos dentes ao povo. A Unidade Nacional, para ser consistente, tem de passar pelos nossos pensamentos e as nossas acções, tem de passar por ouvir a voz do nosso povo e ouvir os seus lamentos. Nós, os governantes, esquecemos sempre que: o povo pode sofrer, nós estamos bem, temos carros do Estado, temos casa do Estado, o povo sofre, continuamos a receber dinheiro, o povo passa fome, nós convidamo-nos uns aos outros para comer bem, beber vinho, o povo teme os tiros e nós andamos com uma forte segurança.

Por isso, não costumamos ouvir o lamento do povo porque estamos afastados de vós. O Povo está a sofrer, alguns têm a coragem de dizer “Guerra!”. Em vez de nós, os governantes, termos vergonha, mostramos que o sofrimento do povo não toca a nossa pele.

O Estado não pode consentir isto. O Estado não pode consentir que haja armas ilegais no nosso país. Acredito que a FRETILIN também não pode consentir todas estas coisas. Se a FRETILIN consentir, a FRETILIN quer fazer uma nova história neste querido país.

De quem é a responsabilidade? A justiça há-de determinar de quem é a responsabilidade! Todas estas coisas são muito graves! E é isso que hoje preocupa o Povo! E a própria FRETILIN tem de se preocupar com isso.

Por isso, APELO a todos que hoje ainda empunham armas, que as entreguem às Forças Internacionais e informem quem as distribuiu. Vocês não têm culpa, porque foram enganados por outras pessoas para se enterrarem. Se não entregarem essas armas, se as Forças Internacionais as encontrarem, isso significa que vocês querem guardar essas armas para matarem pessoas. Melhor, todos aqueles que receberam armas, vão entregar de imediato às Forças Internacionais. Não se esqueçam, têm de dizer quem as entregou a vós e para quê.

Já foi iniciado o Inquérito sobre a distribuição de armas a civis, assim como para saber que armas ilegais existem, de onde vieram e para quem, quem as pediu, quem as recebeu, quem na Alfândega as deixou sair. Todos os vossos nomes hão-de ser divulgados.

Aqueles que controlam a FRETILIN, ultimamente, gostam de gritar assim: vigilância máxima.

Agora, chegou o momento de eu pedir ao povo para fazer vigilância séria nos Distritos e Subdistritos, sobre aqueles que têm armas e distribuíram armas aos delegados ou a outras pessoas. Se sabem ou vêm pessoas com armas, mas que já as esconderam, informem as Forças Internacionais para eles as apreenderem, se estas pessoas não quiserem entregá-las. Se entregarem imediatamente, podem regressar a casa. Se forem teimosas, se escondem ou enterram as armas, hão-de responder perante o Tribunal, acerca da missão para a qual receberam a arma, e o motivo por que a esconderam, para matar quem.

Companheiros
Querido Povo sofredor

Acredito mesmo que nós todos já percebemos que temos de pensar no sofrimento do povo em primeiro lugar. Enquanto Presidente da República, quando me desloco ao estrangeiro, falo sempre da mesma forma: Timor, é mesmo um caso de sucesso, porém esse sucesso só durou até 20 de Maio de 2002.

O processo de governação do nosso país é que mostra se ainda temos sucesso ou ainda não.

Acredito que esta grande crise, não dá garantias de sobrevivência ao Estado de direito democrático, nós ainda vamos atravessar esta ribeira suja para erguer algo de novo no nosso país, para fazer florescer os direitos humanos, a democracia, o amor e a paz.

Membros da FRETILIN
Querido Povo sofredor

Pergunto ao Primeiro-Ministro se ele tem conhecimento sobre a distribuição de armas a alguns delegados da FRETILIN, e ele responde que não sabe. Mas, mais tarde, ele soube, e mandou o Rogério para desarmar. E o Rogério enviou um ‘sms’ para Rai Lós, para barrar o caminho dos manifestantes que estavam contra o Governo, para queimarem os carros à noite, fazerem as ‘operações comando’ e esconderem-se durante o dia.

Nas reuniões que tive com ele, o Primeiro-Ministro falou sobre os grupos armados, dizendo que têm de ser desarmados e nunca me foi dito que, pelo menos, o grupo de Rai Lós fora armado pelo Rogério.

O Primeiro-Ministro informou-me que, depois do tiroteio em Tasi Tolo, no dia 24 de Maio, no qual a FDTL capturou 4 armas da polícia, Rogério fez-lhe saber que as armas e as pessoas que morreram eram do grupo Rai Lós, lá colocado pelo próprio Rogério.

Na verdade, o Primeiro-Ministro informou o Brigadeiro Taur Matan Ruak acerca disto, que as armas da polícia não foram distribuídas pelo comando da polícia mas sim pelo Rogério. Eu penso que se o Primeiro-Ministro informou o Brigadeiro Taur, o Brigadeiro talvez não tenha chamado os civis para levarem as armas para Díli, com a FDTL, para procurar a polícia e matá-la.

Eu perguntei a ele, Primeiro-Ministro, se tinha conhecimento sobre armas ilegais que tivessem entrado no nosso país e ele respondeu que não sabia.

Todos os problemas que apareceram não são da sua responsabilidade. A conversa deles é a de empurrar sempre para os outros. Antes de ir a Portugal, pedi para resolverem o problema dos peticionários, dentro da própria instituição, isto é, dentro do quartel, para evitar que ‘lorosae loromonu’ explodisse para fora e estragasse a estabilidade e unidade nacionais.

Ele disse mesmo que o problema é um problema político e prometeu que ia fazer todos os possíveis para a sua resolução. Quando cheguei de Portugal, na internet foi divulgado que o Primeiro-Ministro afirmou que ‘não pode resolver, porque a petição não foi dirigida a ele’, para apoiar uma decisão para a saída dos peticionários.

Porém, no dia em que começou a manifestação dos peticionários, Antoninho Bianco leu um comunicado: ‘agora, o Primeiro-Ministro já pode resolver porque, pela primeira vez, oficialmente, recebeu a petição’.

Todos os problemas que apareceram, que outras pessoas provocaram, que outras pessoas queriam, são para estragar a sua imagem, para baixar a [votação da] FRETILIN nas eleições de 2007.

Como os governantes, nos órgãos de soberania sentem e mostram que os problemas que surgiram não são da sua responsabilidade, eu digo a todo Povo e à FRETILIN

Todos temem que, se Mari sair, a guerra regressa e há derramamento de sangue novamente.

Muitos estão preocupados que, se Mari cair, o Governo não funcione, as pessoas não recebam dinheiro e outras coisas. Também, se Mari cair, toda a bancada da maioria demite-se e o Parlamento deixa de funcionar.

Alguns dizem-me que temos de mostrar à Comunidade Internacional que existe uma normalidade institucional ou constitucional, senão é uma grande vergonha, se o trabalho das instituições for interrompido.

O Povo é que me escolheu. Como fui eleito, tenho de prestar contas ao Povo. Antes, de procurar satisfazer a comunidade internacional, eu tenho de curvar-me perante o Povo, sofredor, que me escolheu. O Povo pergunta-me, enquanto Presidente da República, onde está a minha responsabilidade quanto ao ‘garante da Unidade Nacional’ que se fragmentou, ‘garante da estabilidade’ que se desintegrou e ‘garante do funcionamento normal das instituições democráticas’ que paralisaram.

Como Presidente da República eleito pelo Povo, não pelo braço no ar mas por voto directo e secreto, eu tenho mesmo vergonha, porque eu não agarrei bem a minha responsabilidade. Por isso, estou pronto para assumir esta responsabilidade.

O Presidente da República é um órgão de soberania. Uma só pessoa, eu sozinho, sou o Órgão de Soberania.

Em conformidade com a Constituição, se o Presidente da República se demitir, o Presidente do Parlamento, Lu-Olo, assume o cargo de Presidente da República, promulga as leis para melhor as poder violar.

Tudo pode continuar a funcionar. O Governo continua a governar para tapar todos os buracos na cidade de Díli e também o Parlamento pode continuar a levantar o braço, para alimentar a mulher e os filhos. No Parlamento, não existem problemas: Jacob Fernandes não há-de pensar em guerra porque passa a ser o Presidente do Parlamento.

Uma coisa muito importante: este servo nunca há-de dizer que se for destituído, o povo há-de sofrer e que Timor fica arrasado. Por isso, a estabilidade continua forte e eu acredito que se os órgãos de soberania estiverem unidos, Timor avançará.

Assim, a FRETILIN é que escolhe. Não é a Direcção da FRETILIN, que é ilegítima porque viola a Lei e a Constituição.

Ou pedem responsabilidade ao vosso camarada Mari Alkatiri sobre esta grande Crise, sobre a sobrevivência do Estado de direito democrático ou, amanhã, eu próprio envio uma carta ao Parlamento nacional a informar que me demito de presidente da República porque tenho vergonha pelo que o Estado está a fazer ao povo e eu não tenho coragem para enfrentar o povo.

Finalmente, apelo à calma de todos porque neste momento difícil temos de reflectir profundamente para que esta violência e destruição não se repita no nosso país!