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sábado, junho 10, 2006 

Ritos timorenses

A crise instalou-se . A vida afigura-se cada dia mais difícil.
Dos que vivem fora de suas casas, provavelmente a maior parte deixou de a ter. Não se atrevem a regressar.
Ninguém sabe o dia de amanhã. Sabem que estão vivos e, apesar de todos os contratempos, mantêm-se fiéis aos seus costumes.

A vida…

Embala o filhinho recém-nascido de quem não despega o olhar embevecido e vive na rua desde que começaram os conflitos.
No quintal onde se amontoam outros refugiados, ainda havia lugar.
Só que ela queria privacidade. Queria deleitar-se com o seu bebé!
Faz sentido, porque a crise era exterior, não residia no seu coração e todo o tempo é pouco para gozar o encantamento que o seu bebé ainda sem nome lhe trouxe.
E, por isso, deixou-se ficar do lado de fora do muro.
E arranjou uma lona que faz de telhado, uma caminha improvisada a que não falta um mosquiteiro (que os mosquitos são muitos!), duas tábuas de triplex que fazem as vezes de parede.
E alimenta-se o melhor que pode para dar de mamar ao seu bebé. É que o leite tem mesmo de ser forte porque, com tanto mosquito, o bebé ainda sem nome tem de ser suficientemente robusto para afastar o perigo da malária.
Apesar das circunstâncias adversas, - ao fim de uma semana de vida como, aliás, mandam as regras - o bebé ainda sem nome teve direito a uma pequena cerimónia de boas vindas, simples, porque os tempos estão difíceis e não havia dinheiro para se fazer uma festa, como merece um recém nascido!
Arranjou-se uma bacia de água, onde se deitaram moedas de diferente valor, reuniram-se a família, os amigos e deu-se início ao rito de “fase matan”. Todos, menos o bebé ainda sem nome, lavaram a cara, em especial os olhos.
Os maus espíritos ficaram na água suja. Abriu-se o caminho do futuro, para uma vida livre de escolhos que todos querem para o bebé ainda sem nome!

…e a morte

Odete, uma jovem que vivia numa das zonas mais complexas da cidade, estava gravemente doente há muito tempo e foi a enterrar quase sem acompanhamento porque o êxodo, a insegurança e o medo reduziram ao máximo a presença de familiares, de amigos e de colegas.
Praticamente sem cortejo, sem flores, sem ladainha nem choro colectivo de quem sente a partida de alguém querido, demasiado simples, assim foi o seu enterro.
Mas, se faltou a refeição de agradecimento oferecida pela família a quem assistiu ao enterramento e acompanhou os familiares na dor, apesar de tudo, não faltou a bacia de água defronte da sua casa, onde aqueles que a acompanharam à sua última morada lavaram as mãos, aspergiram a cabeça, deitando algumas gotas de água para trás das costas, gesto necessário para deixar a doença e a morte bem longe de si e da casa.
De alma lavada, renova-se a Vida!
Não houve aifunan moruk (1) , mas a família espera que a situação melhore, porque tem de haver aifunan midar (2). Para que a alma de Odete fique em descanso e tome conhecimento de que, mesmo depois de morta, não foi esquecida.
(1) aifunan moruk – Flores amargas – deposição de flores ao 7º dia da morte
(2) aifunan midar – Flores doces – deposição de flores ao 30º dia da morte

Anda ai mãozinha australiana, não tenho duvidas.

Gostei da sua análise.

Peço-lhe um favor grande:
Gostaria de contactar com o João Severino, que foi jornalista em Macau, mas perdi-lhe o rasto.
Meu mail: gilbertoborges@mail.telepac.pt

O João Severino vive presentemente na Austrália (suponho que em Darwin) com a família, depois de ter abandonado Macau em 2002 após acusações de abuso de liberdade de imprensa. A última vez que ouvi falar dele foi em Janeiro, aquando da morte do seu pai, o "parodiante" Rui Andrade. http://jn.sapo.pt/2006/01/25/cultura/morreu_o_ultimo_parodiantes.html

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