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terça-feira, junho 06, 2006 

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As casas da encosta por detrás da minha, não têm vivalma, tal como as que ficam aqui defronte e que sobraram da fúria dos jovens sôfregos de fogo. Na noite escura, apenas o ladrar dos cães corta o silêncio do bairro.
Numa entrevista à RTTL (Rádio e Televisão de Timor-Leste), o padre José António incentivava a população a regressar para suas casas, ao mesmo tempo que dizia entender o motivo por que o não faziam. Dizia ele que devia ser duro encontrar o bairro vazio, sem nenhum dos vizinhos, silencioso e, quase de certeza, vandalizado. No entanto, acrescentava que era necessário “fiar ida ida nia an rasik”,ou seja, ser auto-confiante, acreditar em si próprio e enfrentar a realidade.
A propósito desta pequena conversa, lembrei-me da Lurdes.
É uma mulher ainda nova. O marido desapareceu em Setembro de 1999, logo a seguir ao referendo de 30 de Agosto. A Lurdes já aceitou que ele morreu. Tem seis filhos, o mais velho dos quais é bastante doente. Ela trabalha duramente para conseguir sustentá-los, pagar a escola, a luz, a água.
Desde 28 de Abril passado que a Lurdes tem o quintal cheio de refugiados, quase setenta, dos quais a maior parte veio de Comoro e de Rai Kotuk, que fica próximo de Taci Tolu.
O que comem? Arroz, quando há. Se não há, talvez recorram a um copo de água. É que, como dizia outra senhora, a água também mata a fome…
A ajuda oficial ainda não chegou, mas os vizinhos, acrescentou Lurdes, vão ajudando.
A Lurdes não se queixa da sorte. Nem mesmo quando diz que deixou de ter “pulsa” na electricidade que é o mesmo que dizer que ficou sem energia eléctrica. E como a energia é pré-paga e ela não trabalha há quase um mês...
O problema é que os refugiados não têm para onde regressar. Em Comoro, continua o desvario e a piromania - e em Rai Kotuk, onde as casas foram incendiadas nos tumultos de Abril, não houve tempo para a sua reconstrução.
Aos refugiados não lhes sobra ânimo para “fiar sira nia an”, acreditar neles próprios.
Mas contam com a Lurdes que não perdeu nem o dinamismo, nem a auto confiança e menos ainda a vontade de ajudar quem precisa, partilhando o pouco que tem. O pouco que se esvai por entre os dedos de tão pouco quase parece ser nada!