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quinta-feira, junho 08, 2006 

Oh, gente da minha terra!


O Hermenegildo tem os olhos raiados de sangue. Está cansado. Há duas semanas que mal dorme. Faz parte do grupo de vigilância de bairro de Bidau Massau e, para não faltar ao trabalho, ficou com o turno da noite.
Entre adultos e crianças são onze pessoas em casa. Há que guardá-la. O Hermenegildo vela pela família inteira e como é o único que tem emprego, tem de assegurar o sustento da mulher, do filho, dos pais e dos irmãos mais novos.
José é porteiro de um hotel. Já não é novo. Mas, desde que a crise começou, envelheceu visivelmente. Está preocupado com a família. Mora em Aimutin. Esteve deslocado. Despois, voltou para casa. Até agora, ainda nada aconteceu aos seus, mas os rapazes continuam a desestabilizar o bairro, diz, não se escusando de comentar logo de seguida que os “na´i ulun (1) têm de se entender, porque se não, somos nós, povo kiik(2) que sofremos”.
Maria, empregada de um supermercado, vive em Fatuhada. Vai dizendo que não aguenta mais a pressão. Está exausta. “Não durmo”, diz, porque “Na primeira semana, foram os tiros. Agora, todas as noites os oiço na rua, numa louca correria, amedrontando-nos, à espreita de um momento de distracção para queimar e roubar”.
O pequeno vendedor de tangerinas sorri, satisfeito por realizar, finalmente, algum dinheiro. E desabafa que perdeu a mercadoria toda que havia trazido de Lekidoi na primeira semana dos conflitos!
O Silvino não perdeu nada, conta, mas sente-se envergonhado pelo que está a acontecer. “Somos nós que estamos a matar-nos uns aos outros! Somos nós que queimamos, que roubamos! Quem irá, agora, acreditar em nós?”
O jardim à frente do porto alberga sob a sombra das suas árvores muitos deslocados. Muitas crianças adoeceram por dormirem ao relento. Mas sorriem, apesar de tudo! Ali, no jardim, tal como na Igreja de Motael, o gradeamento transformou-se num imenso estendal de roupa.
De repente, fica-se com a impressão de que se não se pode lavar a dor e a vergonha pelo desvario de outros timorenses, pelo menos, lava-se a roupa!
Díli é uma cidade diferente, mais suja, quase deserta, desordenada cheia de homens de camuflado, bem armados, fazendo a segurança a pé ou nos tanques de guerra.
Tudo isto intimida e entristece. E recorda-nos, a cada momento, que a sensação de sermos perseguidos na nossa terra, pela nossa gente não é apenas impressão. É a dura realidade.
O porteiro tem razão! É bom que os na´i ulun se entendam!

(1) na´i ulun –líder, liderança
(2) kiik – pequeno