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domingo, junho 11, 2006 

As mágoas de Anito Matos


A situação faz lembrar 1999. Se bem que a Clotilde entenda que “o que está a acontecer agora é muito pior do que foi nesse ano, porque, naquele tempo, sabíamos quem era o inimigo. As milícias actuavam obedecendo aos indonésios. Hoje, é diferente. Não sabemos quem são os nossos inimigos, onde estão e quem manda nos que fazem estas asneiras. Só sabemos que são timorenses, como nós. Somos nós a fazer mal a nós próprios.”.
O medo e a insegurança assumem uma dimensão talvez desmesurada mas justificada. Aqui, todos desconfiam de todos. A par da vergonha colectiva
por não se ter conseguido resolver os problemas de forma pacífica, este é o sentimento que manifestamente mais incomoda a população desencantada com o rumo que as coisas tomaram.
E, cada um, tal como em 1999, tem uma história, um drama para contar.
O Anito Matos é das figuras mais populares de Timor-leste. É jornalista, cantor e animador de todo o género de festas
- de casamentos e baptizados a cerimónias oficiais, dirigindo-se à assistência em qualquer uma das quatro línguas utilizadas em Timor-leste, privilegiando o tétum e o português.
Bom comunicador, observador atento, tinha um programa na Rádio FALINTIL onde, todas as manhãs, contava histórias deliciosas, dava a voz aos ouvintes, escutava as suas queixas (criando por isso algumas inimizades) e transmitia palavras de alento. Mais tarde
no jornal Lia Foun* escrevia sobre as “Vidas de um Povo”, dando a conhecer as dificuldades das classes mais desfavorecidas do país.
Até foi a Lisboa, a sua máxima aspiração, a um encontro de jornalistas!
Um dia, o programa acabou, o jornal suspendeu a sua publicação mas o Anito continuou como animador de festas.
Quando percebeu que a situação estava a deteriorar-se, o Anito, que tinha algum dinheiro depositado no banco, entendeu que devia levantar as suas economias e deixá-las em segurança em casa, no bairro de Surik Mas.
Dois dias depois, assaltaram-lhe a casa, roubaram e destruíram tudo. Até os seus fatos de cerimónia! E o Anito conta desolado que ficou sem nada.
O ambiente não está para festas e sem elas, a vida torna-se ainda mais difícil para o Anito que não tem como se virar. A não ser, como diz, socorrer-se da ajuda dos amigos, tão desgraçados, tão pobres e tão perdidos como ele, a viver num dos muitos campos de refugiados de Díli. Ali mesmo, espantam os seus males, cantando ao som da viola e esperando por dias melhores pelos quais todos anseiam mas, desgraçadamente, ninguém acredita que os haja a curto prazo.
Nem as crianças jogando à bola na praia, prenúncio de alguma normalidade na cidade, arrancam um sorriso ao Anito.
Sem ninguém que transmita as suas mágoas a somar a outras tantas mágoas de tantas outras vidas do povo
a que pertence, os olhos de Anito Matos enchem-se de lágrimas. E os meus, também.
De raiva e de impotência.

*Lia Foun – Nova palavra

Todos temos historias de drama para contar, mas o melhor é sempre recordá-las e viver o dia a dia com alegria.
Agora meu marido depois de sofrer muito é animador de festas e adora o seu trabalho.

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