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quinta-feira, junho 15, 2006 

Os novos dias de Díli

Díli continua a ser uma cidade sem ordem e parece estar a ser difícil sair do caos.
Na ponte de Comoro estão as forças da Malásia inspeccionando cuidadosamente os veículos que se dirigem para a cidade. Passam revista, perguntam se transportam armas e, às vezes, até pedem os documentos do carro. O esforço é louvável e, se não houvesse quem fugisse da bicha formada pela pertinente actuação dos malaios e atravessasse a ribeira, talvez pudéssemos acrescentar eficiência e eficácia a essa diligência. Assim fica-se com a impressão de que estamos perante uma tarefa incompleta.
As ruas da cidade são relativamente estreitas, pelo que em várias delas havia apenas sentido obrigatório para tornar o trânsito mais fluído. Com a confusão, “acabaram-se” os sentidos proibidos que foram simplesmente “esquecidos”, o que obriga a um esforço suplementar de atenção do condutor. Também se poderia pensar que são apenas os “indisciplinados” dos timorenses a virar tudo do avesso. Mas a verdade é que muitos estrangeiros, alguns dos quais em carros oficiais, fazem precisamente o mesmo, desrespeitando e ignorando os sinais de trânsito.
Já que a situação está a normalizar-se e a cidade está pejada de homens a pé ou transportando-se de jeep, de camiões e de tanques, não seria altura de se contribuir para a normalização? É que, ainda por cima, essa tarefa não exige dureza, apenas determinação!
O mercado de Comoro foi completamente vandalizado. Os sinais da razia estão lá para quem queira ver.
Mas, porque a vida continua e é necessário recomeçá-la, multiplicaram-se pequenos bazares de rua um pouco por toda a cidade, em particular nas zonas com maior segurança, embora à multiplicação não corresponda nenhum aumento de compradores. O dinheiro escasseia…
A população refugiada continua assustada. A somar à perda de suas casas, como ainda hoje alguém contava, os prevaricadores depois da obra feita fizeram-se refugiados e introduziram-se nos vários campos da cidade, o que, logicamente, não deixa ninguém descansado.
Ao desassossego que acompanha uma qualquer conversa, surgiu um dado novo a reter. É que aqueles que se sentiram perseguidos por serem de uma ou de outra zona geográfica do país, começam a pensar que o melhor é regressarem aos seus distritos, contribuindo com o seu trabalho para o desenvolvimento local.
Contam-se muitas histórias. Talvez que a cada conto se acrescente um ponto. De qualquer forma, hoje, tal como em 1999, os ingredientes das histórias são os mesmos. Desgraça, morte, fome, doença, intriga, vingança, roubos e destruição são pontos repetidos em todas as histórias. Para além de muita vergonha a que se junta a raiva por se ter desbaratado o capital conseguido durante os longos anos de resistência que fizeram dos timorenses um povo respeitado e admirado em todo o Mundo.
A diferença é que, se em 1999 a luta era para se ganhar a independência, hoje existe o sentimento comum do receio da perda de soberania.

É realmente uma pena um país que tanto lutou para ter independência, sofreu tanto e depois para cair num caos como este. Só espero que a Austrália não se aproveite da situação para não sair mais de lá. Isso é que é importante.

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