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terça-feira, junho 27, 2006 

Díli, destino-aventura

Vieram dos dez distritos do Loromonu (1) de Timor-Leste, as milhares de pessoas que se têm manifestado defronte do palácio do governo.
Pois bem, ontem os de Loromonu, encheram a cidade, que passou a ser destino-aventura!
Na ponte de Comoro, a fila chega quase ao aeroporto. Os militares malaios demoram algum tempo a revistar as viaturas, em particular as camionetas, táxis e autocarros.
A meio caminho, há quem decida fazer meia volta e ir pela ribeira. É menos confortável, o caminho é mais poeirento mas, pelo menos, é um bocado mais rápido…até ao bairro Pité onde recomeça a agitação.
As bermas das ruas enchem-se de pessoas curiosas a ver passar a manifestação barulhenta e munida de cartazes sugestivos e alusivos à crise.
Nos cruzamentos de Díli, são as tropas australianas que controlam o trânsito, com os blindados atravessados bem no meio das ruas. E quem quiser passar para o outro lado da cidade, em direcção a Bidau ou à Areia Branca, terá de dar um volta incrivelmente longa. O calor da tarde aperta e é fácil perder-se a paciência com a lentidão do trânsito, num anda-pára cansativo.
Dizia-se que vinham de Baucau, lá para os lados de Lorosae (2), outros tantos manifestantes dar o seu apoio ao Primeiro-Ministro demissionário. Consta que não chegaram a Díli porque alguém os reteve em Metinaro, como medida preventiva de um hipotético conflito entre os dois grupos com interesses opostos.

Entretanto, voltámos a viver sob um verdadeiro estado policial, com os olhos de uns literalmente postos no movimento de outros. Se, por um lado, há quem controle quem vai à manifestação, por outro há também os que evitam a saída de alguns titulares de cargos públicos mais ou menos importantes: como hoje, de manhã, por exemplo, quando um responsável administrativo de um distrito de Lorosae que pretendia apanhar o avião para Bali se viu impedido de viajar. O senhor bem tentou explicar a razão da sua ida, que ia em trabalho, mas não teve sorte nenhuma e ficou em terra.
Ou como a demissão da assessora do primeiro-ministro Mari Alkatiri para a Promoção da Igualdade. Ao explicar os motivos da sua saída, de entre outros pontos, Micató – nome por que é conhecida Maria Domingas Alves - apontou o facto de ter tomado parte na manifestação incluída na Rede das Mulheres de que faz parte. E, obviamente, de ter sido vista…

Isto faz lembrar os tempos sob ocupação indonésia em que as pessoas tinham receio de trocar dois dedos de conversa em público com alguém “esquisito”, porque havia sempre um “Intel” por perto.
Aqui e agora, os novos “Intel” têm outras caras e outros modos de actuação e ainda não ficámos em silêncio, mas já começámos a baixar o tom de voz… Fala-se muito mais em surdina! E os que falam alto, sabem que ficam marcados!
A sensação com que se fica, é que virámos polícias uns dos outros. Que entrámos todos na paranóia colectiva de saber quem se associa a quem, quem está do lado de quem; daqui se conclui que, efectivamente, a democratização de Timor-Leste está bem longe de ser uma realidade interiorizada. Parece que ninguém está interessado em saber que a sua liberdade termina onde começa a liberdade do vizinho…
Valha-nos ao menos o civismo com que têm decorrido as manifestações! Sem as imagens de santos e de Nossa Senhora (ai, Timor-Leste e o respeito pelo mistério, pelo inexplicável, pelas forças do além!) usadas no ano passado na manifestação da Igreja e cuja utilização se pode interpretar como forma de limitar e até evitar qualquer desvio na ordem estabelecida, ao menos que, este ano, seja o bom senso a evitar que a situação resvale para a violência…

(1), (2) - A utilização das palavras Lorosae e Loromonu foi hoje propositadamente usada porque passaram a politicamente incorrectas, havendo já quem prefira já o leste e o oeste, dos que fogem da designação que mais não era senão um marco geográfico provocando que, um dia destes estes sejam banidas definitivamente do léxico timorense. Há que relativizar a questão e reduzir o problema à sua real dimensão

Angela,

2002-2006 Timor, e a demissão de Mari Alkatiri: «...car il fallait bien un coupable». (?) (Mesa Selimovic, em "Le Derviche et la mort")

Este texto é sem dúvida uma magnifica metáfora para o que se passa e vive em Timor-Leste. Ou seja um verdadeiro caos...

Está bem patente as incertezas as duvidas e a anarquia reinante, bem como a encruzilhada em que esse povo se encontra sem saber para onde se dirigir.

Como já referi num outro post anterior não estou muito optimista quanto ao futuro do País e parece-me que este artigo e esta metáfora demonstram bem isso. Os timorenses não sabem para onde querem ir, os condutores andam de cabeça perdida e os "policias sinaleiros" vão impondo as suas regras e colocando obstáculos para não se avançar demasiadamente depressa e sem segurança.

As divisões estão bem patentes e isso nota-se em tudo que refere e nas reacções de todos os dirigentes e sobretudo no povo. A única excepção é a Igreja que continua calada e unida em torno dos seus Bispos.

Tal como aconteceu noutras alturas em Timor-Leste é muito fácil resvelar tudo isto para a violência e para o ressurgir de ódios antigos e criarem-se outros novos.

Parece-me que os tempos de incerteza de dúvidas e de medos, ainda irão perdurar durante mais alguns anos.

Henrique Oliveira

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