« Página inicial | Campo de Refugiados no Hospital Nacional » | Quem tudo quer… tudo perde! » | Novo Primeiro-Ministro, novo estilo » | Discurso de Ramos-Horta na tomada de posse como Pr... » | E, todavia, tudo voltou ao normal… » | Música e poesia nos campos de refugiados » | Cultura urbana? » | Domingos, vendedor de tangerinas » | Bandeiras » | Webikas ou o milagre das águas » 

sexta-feira, julho 14, 2006 

Somos de Lorosa´e! Silêncio!

As ruas da cidade estão mais coloridas. Da avenida do Aeroporto indo pela marginal até Lecidere, sucedem-se os cartazes de cores vivas com símbolos que fazem parte da alma timorense, como o kaibauk* ou o crocodilo.
Os cartazes expostos podem sugerir um esforço menor na busca de soluções para esta crise. Talvez também sugiram algum folclore. Talvez tudo pareça muito provinciano, básico, primário, primitivo, suburbano; mas os timorenses apreciam estas coisas. Porque para interiorizar uma verdade, há que vê-la, sentindo-a também pela alacridade das cores, por uma mensagem que lhes toque o coração. E porque identidade também é isto. Não vale a pena disfarçar.
Em tétum, apela-se à paz, à serenidade e à unidade; lê-se que é tempo de aprofundar a amizade, de nos reconciliarmos porque somos todos timorenses, somos um só país, de “Taci Feto a Taci Mane. Por isso, é urgente parar com a violência e deixar de incendiar, até porque todos juntos vamos ganhar a luta pelo desenvolvimento e, porque, obviamente, um país não se constrói com sangue mas sim com inteligência.
Admito que me tenha escapado, mas não vi nada referente a Lorosa´e e a Loromonu. Não compreendo porque se faz disso tabu. Parece-me importante e urgente relativizar atribuindo a estas expressões apenas a importância que têm enquanto divisão geográfica. Apenas isso.

A Benigna é uma jovem de Waitalibu, uma aldeia de Venilale, no distrito de Baucau e vive em Díli, na zona de Fatu Meta, onde o conflito pode surgir do nada, sem razão nem hora marcada. Perguntei-lhe como estava o clima no bairro. Respondeu-me num tom de voz sereno.
- Ontem, apedrejaram-nos a casa. Um grupo de rapazes muito jovens provocavam-nos e gritavam, queriam que lhes disséssemos de onde éramos. Queriam um pretexto para nos incendiarem a casa. Mas nós não lhes demos esse pretexto. Mantivemo-nos em silêncio. Desistiram. Porque não nos ouviram falar.
De repente, despertei para o sotaque da Benigna que fala de uma forma cantada, como só fazem os habitantes de Leste. Uma conversa cantada que me trouxe à memória o sotaque da minha mãe, também ela de Waitalibu, ali em Venilale.
A minha mãe era uma mulher discreta, contida. Tal como a Benigna, também ela falava, entoando a palavra num canto sereno, tranquilo… mas não me lembro nada de que a discrição, a contenção, a sobrevivência, a vida da minha mãe tenha ficado alguma vez sujeita ao silêncio!

Fantástica atitude!
A minha avó dizia-me muitas vezes: "Quando não tens nada de bom para dizer usa a linguagem do silêncio". Saudades!... dela e de Mahatma Gandhi.


O PODER DA NÃO-VIOLÊNCIA

“As futuras gerações dificilmente acreditarão que passou pela Terra um homem como ele.”

Esta frase de Albert Einstein refere-se ao líder indiano Mohandas Gandhi (1869-1948) conhecido mundialmente por Mahatma Gandhi. Mahatma significa “grande alma” e quem lhe deu este nome foi um dos maiores poetas e escritores da Índia, Rabindranath Tagore seu contemporâneo e Prémio Nobel da Literatura em 1913.
E quando analisamos a maneira absolutamente incrível como libertou a Índia do domínio Inglês, percebemos a admiração do grande físico. Só um homem com a espiritualidade de Gandhi poderia mobilizar o povo para o mais espantoso movimento de libertação de que há memória: a desobediência civil com princípios rigorosos de NÃO-VIOLÊNCIA baseando-se em quatro pontos de actuação:

Violência física – não os agredir
Violência verbal – não falar mal deles
Violência mental – não pensar mal deles
Violência emocional – não os odiar

Liderado por Gandhi o povo parava comboios, desobedecia à lei, desobedecia às regras e estimulava as greves… PACIFICAMENTE as pessoas deixavam-se prender e torturar sem guardar ódio nem ressentimento…
… e os ingleses acabaram por reconhecer que a única saída era deixarem a sua “Jóia da Coroa”, porque não podiam continuar indefinidamente a agredirem e a prenderem as multidões que corajosamente desobedeciam às suas leis e que obstinadamente se recusavam a reagir às suas agressões.

Gandhi dizia que “a não-violência é a lei da espécie humana, assim como a violência é a lei dos animais. O espírito permanece adormecido no irracional que não conhece outra lei que não seja a da força. A dignidade do homem exige-lhe que obedeça a uma lei superior: a do poder do espírito”

Foi assim que ele libertou o seu povo e quando um dia um jornalista lhe perguntou se já tinha perdoado aos seus inimigos ele simplesmente respondeu:
“Nunca perdoei ninguém.”
_ Como é possível?... então o senhor líder espiritual do povo indiano contrário a todo e qualquer sentimento de animosidade, não perdoa aos seus inimigos?
“Não é preciso, nunca me senti ofendido…”

Temos que acreditar! As imensas atrocidades cometidas contra o Povo de Timor Leste exigem-no! Falem dos Lorosa´e e dos Loromonu para que eles sintam e apliquem os quatro princípios de Gandhi.
Será que alguém no seu perfeito juízo ainda pensa que é com a violência das armas que se conquista a paz de um POVO?

Cristina Brandão Lavender
14 de Julho de 2006

Este comentário foi removido por um administrador do blogue.

As faixas afixadas nas ruas da cidade são muito bonitas, misturando símbolos tradicionais com composições artísticas originais, tudo apelando à paz e à unidade, e alegrando as ruas com cores vivas. O que é pena é que as quatro ou cinco faixas que estiveram atadas aos postes da ponte de Comoro já lá não estejam, ficaram só uns pedacitos dos fios que as seguravam.
Talvez alguns delinquentes não se tenham deixado comover pelas mensagens de concórdia...

9:09 AM

Enviar um comentário