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segunda-feira, julho 10, 2006 

Novo Primeiro-Ministro, novo estilo

Um olhar de relance ao discurso da tomada de posse neste dia do “Ano de Cristo” chega para se perceber que o Dr. José Ramos Horta quer marcar a diferença do anterior titular no cargo de Primeiro Ministro.
O Dr. Ramos Horta privilegiou tudo quanto o Dr. Mari Alkatiri e o seu Governo consideraram supérfluo, talvez ultrapassado, retrógrado, provavelmente inadequado para os dias de hoje e, por isso mesmo, marginalizaram, menosprezaram, escarneceram, esqueceram.
Se tivesse de seleccionar algumas ideias de Ramos Horta que ilustrassem as diferenças, destacaria a aproximação à Igreja Católica no convite para “assumir um papel maior na educação e formação do povo”, - há alguém que tenha esquecido as motivações das manifestações de Maio de 2005? - a atenção especial à juventude, o apoio e a promessa de “restaurar a dignidade e o poder moral e secular dos Liurais”.
Para “dignificar a pessoa humana”, o Dr. Ramos Horta quer “um governo para os pobres”, pretende que este seja “arrojado na luta contra a pobreza”; quer “dar-lhe esperança, de comer, vestir e um tecto”.
O Dr. Ramos Horta falou para o timorense simples porque sabe que o povo preza quem lhe dá importância – especialmente se essa consideração lhe é dispensada por um nai-ulun -e, sendo o timorense um “povo profundamente espiritual cujo dia a dia é inspirado e influenciado pelos espíritos do passado e por crenças sobrenaturais que se confundem nas crenças cristãs”, aprecia quem enaltece o Divino. Por isso se dirigiu tantas vezes a “Deus Nosso Senhor”, pedindo a esse mesmo Deus que o guie de molde a não “trair a confiança e as manifestações de amizade e apoio de gente muito simples deste nosso grande Povo”.
Também por isso não se estranhe que o novo Primeiro-Ministro entenda que “Não podemos importar ou impor modelos modernos... e assim perturbar essa simbiose animista-cristã timorense”. Nem sequer que o Dr. Ramos Horta tenha declarado não poder “infelizmente” dizer “que aprendeu muito com o seu “velho amigo e combatente de luta, o Dr. Mari Alkatiri
durante os quatro anos de governação”, mesmo considerando que o Governo por ele dirigido foi “sempre pautado pela prudência e lealdade ao povo que ele realmente ama…”.
Ouvi depois a sua entrevista à RTTL. Ramos Horta aposta no diálogo; afirma que as portas do Palácio do Governo estarão sempre abertas para todos, sem exclusão de ninguém; realça uma vez mais os pobres, os jovens, os desempregados.
As expectativas são elevadas, os tempos estão difíceis, o povo timorense não esquece as promessas e o Dr. Ramos Horta tem para já, de mostrar que não tem nada a ver com o estilo de governação inacessível destes quatro anos e tem apenas nove meses para cumprir os seus propósitos e não defraudar a confiança dos timorenses, dessa “gente muito simples”.
Não é tarefa fácil!

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Como gostaria de entreggar estes 3 pensamentos ao Novo Primeiro Ministro de Timor Lorosa'e - "Um Grande Homem numa Grande Alma".

“ Da escuridão à claridade há uma infinidade de tonalidades. Do mal ao bem acontece o mesmo. Cabe-nos a sua conquista. Precisamos, no entanto, de reconhecer as dificuldades sem as temer.”

“O retorno ao passado só é útil quando ele nos ensinar a melhorar o futuro. Os erros que cometemos são o primeiro sinal dos acertos que se lhes seguem.”


“Quem tudo quer, tudo perde mas quem nada quer – também!”

Julho de 2006
Cristina Brandão Lavender

We're in the "wait-and-see" now.

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Há uma frase célebre de um discurso de Amílcar Cabral que se refere à inutilidade de aprender muitas coisas em países mais adiantados se o líder não for capaz depois de partir da realidade concreta da sua terra e do seu povo. O progresso é em Timor muito necessário, mas não se pode construir no vazio, em relatórios e instrumentos teóricos, nem pode ser simplesmente transplantado de outro lugar. Isto é um erro frequente em quem vem do estrangeiro, ou passou muito tempo no estrangeiro, e acaba por produzir relatórios de sucesso aparente, mas com pouco progresso real para a vida das pessoas (as agências de cooperação e ONU fazem este erro com frequência). Horta é um homem que tem a consciência disso e que tem uma postura dialogante. As referências frequentes dele a Deus e à Igreja (e referiu-se também às comunidades muçulmana e protestante) não devem ser vistas como hipocrisia (muitos malais acusam-no disso cá por Díli), mas como o discurso de um homem que conhece bem a alma do seu povo, e que tem muito cuidado para não alienar, e mais, trazer para o seu lado, a que é talvez a única instituição em Timor-Leste com capacidade de manobra actualmente para um trabalho que dê frutos na reconciliação nacional.
E é de reconciliação, e tolerância, e civismo, que Timor-Leste precisa neste momento para que os refugiados internos possam voltar para as suas casas. As pessoas não estão a dormir no chão e a ver os seus filhos ficarem doentes por medo dos militares e polícias e ex-militares e ex-polícias (essa fase já passou e andam aí as tropas malais para assegurar a paz), estão nos campos por terem medo dos vizinhos e dos bandos de jovens delinquentes que os amedrontam e lhes queimaram as casas.

Poder e Autoridade

O poder impõe-se, a autoridade conquista-se pelas acções que se validam na conduta.
É no trabalho, em casa ou na rua, com familiares, com amigos ou desconhecidos, minuto a minuto, dia a dia, ano após ano que vamos revelando o nosso verdadeiro eu e fazemos com que os nossos irmãos nos respeitem, compreendam e se for caso disso, nos sigam, pelo amor que reconhecem nas suas acções.
Aqueles que agem com coragem mas com doçura no coração, que apontam o caminho sem se engrandecer, que oferecem sem humilhar, que distribuem sem cobrar têm todas as condições reunidas para serem respeitados e para que lhes reconheçam autoridade, porque, antes de tudo, eles fazem, eles dão o exemplo, eles mostram o caminho, fazendo o caminho. Não precisam de apregoar as leis de justiça no papel – mas são tão necessárias - eles as escrevem na cena da vida. Não precisa de dizer “eu sei”, eles mostram-no com o “eu faço” no silêncio da atitude que age com a mesma simplicidade pondo-se, sempre, perante a vida, em posição de aprendiz humilde – abrindo o coração ao mundo e tentando ser feliz.
Cabe a cada um de nós esta postura na vida. Acredito que quem a tem presente não precisa de conquistar o PODER pois já conquistou toda a AUTORIDADE!
11 de Julho de 2006
Cristina Brandão Lavender

Pedi uma favor para inserir ultima mensagem do Peresidente Repubica (versão Tetum e Português). BR

Se tivesse de seleccionar algumas ideias de Ramos Horta que ilustrassem as diferenças, destacaria a aproximação à Igreja Católica no convite para “assumir um papel maior na educação e formação do povo”, - há alguém que tenha esquecido as motivações das manifestações de Maio de 2005? - a atenção especial à juventude, o apoio e a promessa de “restaurar a dignidade e o poder moral e secular dos Liurais”.

Pois é afinal os pecados do 1º Ministro Alkatiri foram 2,não sei qual deles levou à golpada a que assistimos.
Se o de querer um Timor-Leste com separação de poderes Igreja-Estado(como acontece em qualquer país civilizado),se o facto de não aceitar ser Timor uma marioneta dos interesses Australianos.
Aos pouco lendo comentários como os da Angela Carrascalão, vamos todos entendendo o que de facto levou a demitirem um governo democraticamente eleito e com maioria parlamentar.
Quem sabe quando quiseremos demitir um 1º ministro, passe a ser aceitavel instalar o caos. Queimar casas, paralizar uma cidade, aterrorizar e desalojar milhares de pessoas.
Aii Timor

APENAS o ESSENCIAL:GOD BLESS MARI ALKATIRI

VIVA MARI

O NOVO ESTILO

A pesar de ter afirmado no início do mês que o novo Governo timorense não deveria ter mais do que 20 membros, contra os 43 que compunham o de Mari Alkatiri, Ramos-Horta lidera agora o II Governo Constitucional, que tomou ontem posse, e que é formado por... 40 elementos.

Cuidado com as expectativas!!!

Espero que o novo governo, liderado pelo Dr. Ramos Horta ,não crie nas pessoas ilusões de que tudo é possível, sem esforço, trabalho, persistência.
Dr. Ramos Horta, é uma pessoa muito capaz, inteligente, um homem de diálogo, mas atenção às promessas. As pessoas estão dispostas a aceitar realidades duras, mas é preciso que lhes com a verdade.
Boa SORTE para o novo governo!

Horrorizo-me por saber que o povo de Timor-Leste está tão dividido, mas tenho esperança que o novo PM saiba lidar convenientemente com a situação. Melhor que Xanana, que foi simplesmente desastrado e que como PR deixou muito a desejar. Esperemos que saiba corrigir os erros que cometeu até aqui e saiba comportar-se de acordo com o lugar para que foi eleito. Alkatiri também tem de aprender com os erros, corrigi-los, patrocinar eleições legais dentro da FRETILIN. Estou convencido que voltará a ser o mais votado.

Angela,

Deixo para reflexão um recente texto do Português Professor Boaventura de Sousa Santos, (publicado a 05.07.2006 em "Biblioteca - Textos Conjuntura Internacional - MST - Brasil" - http://www.mst.org.br/biblioteca/textos/
internacional/timorboaventura.htm ):

"Timor, Timor!

A crise política em Timor, para além de ter colhido de surpresa a maior parte dos observadores, provoca algumas perplexidades e exige, por isso, uma análise menos trivial do que aquela que tem vindo a ser veiculada pela comunicação social (divisões entre o Presidente da República e o Primeiro Ministro, divisões no seio do Governo, clivagens étnicas, etc.). Como é que um país, que ainda no final do ano passado teve eleições municipais, consideradas por todos os observadores internacionais como livres, pacíficas e justas, pode estar mergulhado numa crise de governabilidade? Como é que um país, que há dois meses foi objecto de um elogioso relatório do Banco Mundial, que considerou um êxito a política económica do Governo, pode agora ser visto por alguns como um Estado falhado? Não será estranho que se reclame a demissão de um Primeiro Ministro, até agora tido como um governante com elevado sentido de Estado, que levou o seu partido, a Fretilin, a vitórias eleitorais sucessivas e ainda há semanas saiu vitorioso do Congresso deste partido com 97% dos votos?

Os factos que sustentam estas perplexidades levam-me a pensar que, quaisquer que tenham sido os erros de governação que levaram a esta situação, há forças externas que estão interessadas em desestabilizar Timor Lorosae e, eventualmente, em criar uma situação que inviabilize uma nova vitória da actual liderança da Fretilin nas próximas eleições gerais de 2007. Divergências entre governantes (os portugueses sabem-no bem) são frequentes mas não conduzem, por si, a situações de caos social. A integração na vida civil dos veteranos das FALINTIL não terá sido conduzida da melhor maneira, dando azo a descontentamentos susceptíveis de serem aproveitados politicamente. Nada disto, porém, pode explicar a situação grave que se vive em Timor. Em meu entender, ela deve-se em grande medida às pretensões neo-coloniais da Austrália, a quem desagrada a política autónoma e soberana que o Governo de Mari Alkatiri tem seguido.

O petróleo e o gás natural têm sido a desgraça dos países pobres (que o digam a Bolívia, o Iraque, a Nigéria ou Angola). O governo australiano tem tentado obter o controlo desses recursos, retirando a Timor o que lhe compete pelo direito internacional. E o David timorense tem ousado resistir ao Golias australiano, subindo de 20% para 50% a parte que cabe a Timor dos rendimentos dos recursos naturais existentes no estreito, procurando transformar e comercializar o gás natural a partir de Timor e não da Austrália, concedendo direitos de exploração a uma empresa chinesa nos campos de petróleo e gás sob o controlo de Dili. Tudo isto suscita a ira da Austrália e, com ela, a hostilidade dos EUA. Assim se explica que tenham sido estes os dois países que se opuseram ao prolongamento da missão da ONU, inicialmente proposta por Kofi Annan. É preciso provocar a ingovernabilidade de Timor Leste, de modo a criar as condições para a imposição de um governo pró-australiano. E é possível que Ramos Horta, que sempre foi o homem dos australianos e dos norte-americanos, e que sabe não ter hoje o apoio do resto da região para a sua candidatura a Secretário-Geral da ONU, se preste a este triste papel.

A diplomacia portuguesa, que tem vindo a assumir posições muito corajosas que muito nos honram, entendeu com lucidez que colocar as forças da GNR sob o comando das tropas australianas seria legitimar a ocupação de um país independente por uma força estrangeira. Defender nesta crise a soberania do Estado de Timor Lorosae é defender a independência deste jovem país, a qual, para ser irreversível, necessita da nossa solidariedade".

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