« Página inicial | Quem tudo quer… tudo perde! » | Novo Primeiro-Ministro, novo estilo » | Discurso de Ramos-Horta na tomada de posse como Pr... » | E, todavia, tudo voltou ao normal… » | Música e poesia nos campos de refugiados » | Cultura urbana? » | Domingos, vendedor de tangerinas » | Bandeiras » | Webikas ou o milagre das águas » | Boa educação » 

quinta-feira, julho 13, 2006 

Campo de Refugiados no Hospital Nacional


Os jardins do Hospital Nacional Guido Valadares, logo no início da era da independência, eram um vasto campo de erva altíssima. Um perfeito viveiro de mosquitos.
No início, os vidros estavam partidos, as camas eram quase inexistentes, os lençóis rareavam, as casas de banho eram cubículos imundos e o chão não era limpo. As consultas externas faziam-se sem ordem. E os doentes preferiam curar-se ou morrer em casa…
Inevitavelmente, comparo este Hospital Nacional com o de Bucareste, que visitei em 1995. Recordo que aí me fez muita impressão olhar para as batas sujas de sangue usadas pelos médicos e para as encardidas e imundas que as enfermeiras envergavam. Isto, sem falar da sujidade impregnada nas paredes, nos tectos, no chão… Não, apesar de tudo, o de Díli estava uns pontos mais acima daquele!
Passou algum tempo. E com o tempo, antes da crise, os jardins de erva ruim transformaram-se em espaços verdes de bem cuidada e aparada relva.
A reconhecida dedicação e envolvimento dos profissionais de saúde, de que se realçam os enfermeiros formados no tempo português, e o aumento gradual de médicos internacionais vindos de vários cantos do Mundo – com especial destaque para as mais de uma centena de médicos cubanos – provocaram, obviamente, uma mudança qualitativa. Tudo melhorou e, se não tínhamos uma unidade de primeira classe, também é verdade que não se podia considerar o hospital nacional uma espelunca. Pelo menos, não nos envergonhava!
Agora, o panorama é completamente diferente.. O cheiro a éter, a desinfectante, desapareceu e deu lugar a um cheiro desagradável que nos entra pelas narinas, fruto das más condições sanitárias em que vivem os deslocados no imenso campo de acolhimento em que se transformou o hospital. Mistura-se com o cheiro do fumo das largas dezenas fogueiras espalhadas por todo o espaço deixado vago pelos novos moradores.
As tendas brancas enchem todos os espaços relvados disponíveis entre os diversos pavilhões térreos que acomodam os muitos departamentos do hospital.
Mas não só tendas: as varandas estão pejadas de colchões, de mosquiteiros, de gente. De imensa gente. Homens e mulheres de todas as idades; e crianças, muitas crianças!
Vêem-se muitos médicos, poucos enfermeiros, pouco pessoal auxiliar, poucos profissionais de limpeza. A ala das consultas externas está às moscas.
Não se destrinçam doentes e refugiados.
Os corredores são percorridos por uma mole de gente de mãos vazias ou carregada de sacos de plástico, de legumes trazidos do mercado da rua em frente e que num vaivém incessante dificulta o trabalho dos profissionais de saúde.
Uma dona de casa diligente cozinha a refeição da família num espaço exíguo do pedaço do chão que lhe coube em sorte para cozinha. A lenha amontoa-se noutro cantinho e a panela está colocada sobre três pedras que fazem as vezes de fogão. As crianças brincam por ali perto e remexem despreocupadamente nos caixotes de lixo do hospital. A roupa estende-se sobre os arbustos.
Há vários mini-muito-mini quiosques, melhor dizendo, há muitas caixas de papelão colocadas em cima de uma mesa de plástico a fazer de balcão de loja. Aí se vende, entre outras coisas, água, fruta, cigarros, supermin (massa chinesa instantânea que deu origem ao epíteto sarjana supermin utilizado pelo ex-Primeiro-Ministro para ilustrar os licenciados no tempo da Indonésia).
Enquanto estava na fila para me aviarem uma receita médica, vi a tal dona de casa diligente vender três cigarros a um segurança. Recebida e colocada a moeda de valor superior numa lata vazia de leite em pó, é o momento da troca com a saída de outra moeda inferior entregue carinhosamente ao mais velho e menos esquelético dos dois filhinhos que brincavam, saltando sobre o colchão estendido na varanda. Alegre, rindo-se, o garoto correu em direcção ao papelão seguinte com rebuçados, tangerinas e chocolates. Ali estava outra diligente dona de casa sentada de cócoras enquanto metia na panela alguns legumes para o almoço. Braço esticado, recebida a moeda, mini-chocolate entregue ao rapazito que retorna e divide a guloseima com o irmão.
Por todo o lado, se vêem mulheres lavando os utensílios da cozinha e a roupa em qualquer canto onde há água que também é recolhida em garrafões de plástico depois levados para aárea interna dos seus abrigos.
Cá fora, a confusão não é menor. De um lado, estão as tendas de campanha dos militares australianos. Do outro, estão os tanques de guerra.
As duas entradas e saídas do hospital ficaram confinadas a um só portão onde apertada segurança pede a identificação a todos quantos entram no hospital. É estreita a via e daí resulta o caos no trânsito a que se acrescentam as apitadelas dos impacientes. Na rua, em bancas improvisadas, espalha-se o mercado. Os táxis e as microletes param onde lhes dá mais jeito. E as pessoas andam no meio da via. Como em 1999.
Perguntei a um profissional de saúde como é que eles podiam trabalhar no meio daquela balbúrdia. Sorriu e não proferiu nenhuma palavra; preferiu antes soltar um longo suspiro!
Reparo, então: laboriosamente, num canto ainda desocupado, um jardineiro continua a aparar a relva…
Ai, Timor Lorosa´e!

Este comentário foi removido por um administrador do blogue.

Ângela, este texto causa profunda impressão física e moral. Gostei da atitude do jardineiro – antes tivéssemos todos a mesma postura. Que fazer pelo futuro?

FUTURO

O futuro a Deus pertence
Diz o povo e com razão
Mas é cada um que sente
O responsável pela acção.

Construir o amanhã,
Projectar nossos anseios
Com a certeza não vã
De colher o que semeia.

E na ignorância e incerteza
Que reinam sobre o vindouro
Pode-se escrever com clareza,

Com letras gravadas a ouro
Que o futuro traz o seu saldo
A receber ou a ser pago.

14 de Julho de 2006
Cristina Brandão Lavender

Parabéns Nuta pelos teus artigos, pois ao lê-los fazem-me passear pelos cantos de Dili mesmo a milhares de kms de distância.
Bem haja pela tua escrita
savarika

Enviar um comentário