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sábado, agosto 26, 2006 

Amor sem barreiras (Continuação)

Da casa dos pais de Namadi exalava um bom cheirinho a café de lako acabadinho de fazer. Num lantém, algumas batatas doces e mandiocas cozidas e assadas, um doce manuten frito em óleo de coco completavam o lanche que a Mãe preparara. Servido o café, Foho sentiu-se logo mais à vontade e disse de sua justiça:
- Peço a vossa permissão para me casar com a Namadi. Farei da vossa filha a princesa mais amada e mais rica das redondezas. Prometo que a farei muito feliz. Vamos sentar-nos e combinar o dote. Serei generoso convosco. Mas se ela não puder casar por impedimento paterno, Gleno ficará submersa sob o reino das águas do reino de FohoRai e passará a ficar sob minha alçada! Voltarei dentro de uma semana para saber a vossa resposta! – falou o príncipe.
O pai e a mãe entreolharam-se. A decisão era difícil e havia necessidade de pensar calmamente na resposta pelo que assentiram que o melhor era dar a ansiada resposta alguns dias mais tarde.
A história tinha tal inverosimilhança que precisava de ser bem escalpelizada. Os pais e os irmãos de Namadi cogitaram profundamente sobre o assunto. Reuniu-se de novo o Conselho dos Velhos e dos Sábios, foram chamados os matan-dok de Gleno, mediram-se os prós e os contras.
Mas, uma jibóia dentro de água?
Seria mesmo jibóia ou tratar-se-ia de uma milenar enguia? Mas se o jovem dizia que o seu reino estava submerso, talvez ele tivesse um poder sobrenatural! Pois se ele também podia tomar a forma de um homem!
Lançaram-se as sortes, abriu-se um frango vivo com uma catana bem afiada e o Matan Dok mais experimentado espreitou atentamente as vísceras do animal. Tinha umas protuberâncias esquisitas e foi necessário abrir outro frango. O fígado desse, sim, estava limpo! Bem, olhando melhor, sempre aparentava um pequeno sinal diferente. Uma pequena saliência bem no meio do fígado. O coração não tinha qualquer problema. Vermelho vivo, o sangue ainda escorria do coração do frango para as mãos do Matan Dok quando este o levantou e o mostrou aos presentes, dando sinal de que estava tudo bem.
O destino de Namadi estava traçado. Afinal, os pais não tinham que se queixar. Eles não esperavam tanto! O Amor é um sentimento muito forte e ultrapassa todas as barreiras e um príncipe é sempre um príncipe e um reino, mesmo sob as águas, não deve ser desprezado! Por outro lado, não valia a pena correr o risco de ver Gleno sob as águas porque nem todos sabiam nadar e nem todos queriam submeter-se a nova regras, aderindo a um novo reino!
José - disse o pai ao emissário - vai dizer a Foho que venha cá saber a resposta. Ele que venha no domingo almoçar connosco!
O emissário partiu correndo para estava deitado preguiçosamente junto à nascente. José assustou-se um bocado com o tamanho imponente do príncipe –jibóia. Acordou-o cuidadosamente. A jibóia abriu a boca e José adivinhou-lhe um sorriso de satisfação!
E no domingo aprazado, lá foi Foho, na sua forma de gente, vestido com uma camisa branca e com um tais de cores garridas, perfumado com perfume de flores campestres esmagadas no momento.
- Foho – disse o pai de Namadi – nós aceitamos o teu pedido. Podes casar com ela. Mas pomos uma condição: queremos que o casamento seja abençoado por um religioso! Para além disso, pedimos-te que nos tragas a nossa filha de vez em quando para matarmos saudades dela!
O mais velho distribuiu tabaco e betel e todos cumpriram o ritual mascando e fumando e bebendo um tua sabu fresquinho. Sentados numa larga esteira, na qual também estavam presentes os conselheiros e os familiares mais velhos de Namadi, acertaram-se os pormenores do casamento. Foho, o príncipe-jibóia, Rai Na´in da ribeira Ponilala, retomou a sua forma original e deslizou veloz e silencioso por entre os arbustos, em direcção à nascente, prometendo voltar no domingo seguinte, ao fim da tarde. Antes, no seu jeito tímido, pedira ainda alguma discrição. Mas os pais espalharam a história aos quatro ventos.
Em menos de um ai, já toda a gente da aldeia sabia que, depois do casamento, FohoRai se transformaria em jibóia e deixaria a sua forma humana e que Namadi acompanharia o príncipe das águas para as profundezas de uma das nascentes onde se consumaria o acto de amor.
O povo discutiu acaloradamente as vantagens de Namadi optar pela forma de jibóia ou de manter a forma humana, apostando todos na felicidade da bela jovem de cabelos negros e lisos que se apaixonara pela jibóia imponente e dona das nascentes de Ermera!
Mataram-se alguns cabritos, porcos e uma vaca. Houve o cuidado de colocar numa pequena gaiola umas galinhas bem nutridas para satisfazer outro tipo de apetite do príncipe–jibóia. Dançava-se de manhã à noite. Os tambores não paravam de rufar , o tebedai juntava homens e mulheres.
No domingo aprazado, a aldeia fervilhava de gente. As meninas suspiravam de inveja pela sorte da sua amiga Namadi!
Perfumada com essência de flor de café, Namadi estava vestida com um tais azul-esverdeado. Os ulsukos da sua avó materna brilhavam entre o negrume dos seus cabelos artisticamente penteados.
De faixa branca em volta da cintura, com penas de galo nos tornozelos, vestido com um tais em tons acobreados e empunhando uma belíssima espada, Foho não enganava ninguém que era um liurai! Tinha um porte altivo e o kaibauk que trazia na cabeça fazia-o ainda mais bonito, apesar do ar sisudo ao aperceber-se de que não haveria privacidade nenhuma no seu casamento!
Ambos se sentaram defronte dos anciãos da aldeia e o casamento realizou-se testemunhado por imensa população jornalistas e por um religioso, num dia de chuva torrencial. Abriram-se as cataratas do céu e a água caiu durante duas horas, acompanhada de muito vento, relâmpagos e trovões.
Foi o castigo do príncipe-jibóia que, farto da publicidade feita à sua volta e da curiosidade dos terráqueos vulgares que andam por este Mundo a estragar uma bela história de amor, resolveu punir a curiosidade de quem quisera à viva força presenciar o seu casamento.
Também Namadi decidiu trocar as voltas aos curiosos resolvendo não responder a nada que fosse dito em português ou em inglês, remetendo-se ao silêncio, sorrindo apenas timidamente.
São vozes do povo mas diz-se que, enquanto chovia, o príncipe–jibóia e Namadi, a metamorfoseada princesa-jibóia das águas de Ponilala foram curtir a sua história de amor nas profundezas das nascentes, propositadamente com as águas revoltas e deixadas cheias de lama para que ninguém os seguisse.
Depois, quando o sol voltou a aparecer por alguns minutos antes de cair a noite, voltaram calmamente para casa sob a forma humana, montados num belíssimo cavalo branco em que o jeep branco se transformara, consumando o acto do casamento desta vez sob a forma humana e em terra seca.
No dia seguinte, manhã bem cedo, ainda mal o sol raiara, após uma bela noite de Amor consumada sob a forma humana e da louca aventura no mais profundo das águas da nascente, no reino de FohoRai, o principe-jibóia, Rai-Na´in de Ponilala, despediu-se da sua amada princesa, com destino a um reino distante, diz-se que em direcção a LoroMonu, ou Ocidente, ali onde o sol se põe e mais longe ainda que a nascente dos seus amores.
Em noites de luar, ouve-se um estranho marulhar provindo da nascente. Ninguém conseguiu ainda ver nada, mas há quem diga que os dois jovens continuam a encontrar-se discretamente nas profundezas das águas e que o príncipe de Ponilala visita a sua amada no mais completo segredo dos deuses.

Ainda que mal comparado, cara Ângela, as lendas do povo a que pertences, onde o animal gibóia sempre tem um lugar forte no imaginário dos autóctones da ilha, faz-me recuar ao tempo de menina, em que eu passava uns dias de férias no Algarve. Estava-se nos anos cinquenta, as mulheres algarvias, as do povo, quero eu dizer, entretinham os miúdos, contando-lhes lendas que invariavelemente incluiam uma moura encantada. No fundo tudo se resume sempre a uma bela história de amor. E não é o Amor o sentimento que está na nossa origem?
Gosto da tua maneira de contar, Ângela!

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