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sábado, julho 22, 2006 

Maldita Crise!




Diz a Lusa que “o primeiro-ministro, José Ramos Horta, ordenou a realização de uma auditoria à administração pública para investigar eventuais casos de desfalque e roubo durante a crise político-militar no país, desencadeada em finais de Abril” e que a auditoria incidirá sobre a utilização indevida de bens do Estado e atrasos no pagamento, ou ausência dele, a funcionários contratados pelo Estado, além do absentismo nos locais de trabalho, a chegada tardia aos locais de trabalho e a baixa produtividade dos funcionários públicos.
Citando a Lusa, diz o Primeiro-ministro que "Se pretendemos servir os pobres deste país e desenvolver a economia da nossa nação, temos de ter uma administração pública que seja capaz de responder às necessidades, eficiente, produtiva e honesta” devendo os casos em que se verifique "comportamento criminoso" ser reportados ao Procurador-Geral.
É também a Lusa que diz que vários departamentos do Estado, incluindo gabinetes ministeriais, tribunais, Ministério Público e armazéns do Estado, foram pilhados, o que resultou no roubo de documentos e bens materiais que nunca até agora foram contabilizados na totalidade.
Esperemos, pois, pelos resultados da auditoria!
Quando se vive num país em vias de desenvolvimento, como é o caso de Timor-Leste, há que estar preparado para todas as contingências originadas por um qualquer agente que surge a destempo, quando menos se espera e, num instante, deita por terra o trabalho realizado. E como ainda vivemos sob o signo do improviso, é certo e sabido que no trabalho realizado não está contido qualquer plano nem programação adequados às situações de emergência ou que se sobreponham à ditadura do improviso.
Nessas alturas, vale mais apelar para toda a paciência do Mundo a que deveremos aliar a fundamental atitude do “deixa andar que tudo se vai resolver pela graça de Deus, procurando cumprir o melhor que pudermos e soubermos o ditame “tudo ao molho e fé em Deus”.
Poupemos o homem, vamos esquecer as falhas humanas, porque disso tratará a tal auditoria! Debrucemo-nos, apontemos o dedo ao medo e a insegurança provocados por uns, sentidos por outros, no período de crise, de instabilidade e de desvario que assolou o país.
Vamos pensar que tudo aconteceu em resultado da crise que transformou numa gigantesca bola de neve os percalços que, efectivamente, sempre foram parte da rotina.
Como parece que os agentes servidores se esfumaram com a crise, a culpa do homem/agente cabe num pequeno parêntesis; diga-se pois que, em situação normal, tudo faz parte do status quo dos dias sempre iguais a fazer jus ao la palissiano “ a um dia segue-se outro”, que abrange a boa vontade e a simpatia dos funcionários, bem entendido, numa perfeita aliança e num total alinhamento do agente servidor ao agente servido. Do desalinhamento dos agentes intervenientes, emergem, obviamente, razões mais do que suficientes, todas elas válidas que explicam as falhas do sistema e o desalento do agente não-servido castigado pelo seu desalinho com o status quo.
Sim, a culpa foi do status quo!
Mas, agora, modificou-se o status quo. O agente da culpa de tudo e uma vez que não há culpa humana – lembremo-nos, os homens esfumaram-se - é da maldita crise.
Sobreveio a crise mas ninguém se lembra que antes dela a qualidade de vida de 99% dos timorenses onde se incluem os refugiados roçava a pobreza extrema.
Se não fosse a crise, haveria mais segurança e o amigo do alheio só se apropriaria do que estivesse visível ou se, por falta de chuva a tempo do plantio, não houvesse alimento na horta.
Se não fosse a crise, haveria batata importada nos supermercados pelo menos nos dois dias seguintes ao da sua chegada antes ainda dos intermediários a comprarem e a revenderem como produto de Maubisse nos mercados locais.
Se não fosse a crise, as escolas estariam todas abertas e os estudantes apresentar-se-iam vestidos e penteados a rigor.
Se não fosse a crise, não faltaria o pão, das padarias aos quiosques dos bairros limítrofes da cidade.
Se não fosse a crise, não teríamos retornado à energia eléctrica racionada nos bairros onde não mora gente ilustre por tempo que varia de uma a quatro horas em diferentes períodos do dia.
Se não fosse a crise, em vez da falta de combustível porque o barco não chega, a energia eléctrica faltaria por causa do mau estado dos geradores ou da falta de manutenção.
Se não fosse a crise, em vez da culpa do barco que não chega a horas de colmatar a falha, estaríamos sujeitos à teia burocrática dos serviços públicos que se dissipa ou se complica em sintonia com o tal alinhamento.
Se não fosse a crise, eu não estaria a escrever contra o tempo porque a bateria do meu portátil não é eterna e eu não devo, agora, quando o sol já brilha lá fora, ligar o gerador e despender gasóleo que tem de ser estimado e querido com um parente ainda mais querido.
Se não fosse a crise, em vez de racionar o gasóleo, esperava-se pelo dia em que o gerador se tornaria objecto de museu, como aliás preconizou o ex-primeiro-ministro.
Se não fosse a crise, o departamento de terras e propriedades não estaria deserto nem teria as portas fechadas por terem desaparecido os computadores dos serviços, nem os documentos entregues depois do fim anunciado da dita crise noutros departamentos iriam desaparecer da secretária dos seus responsáveis.
E se não fosse a crise nunca ninguém iria perceber que os armazéns estavam cheios de equipamentos para um dia mais tarde se recordar como eram bonitos, modernos e… fora de moda.
Por causa da crise, ganham-se novas forças para não se entrar em stress; em tempo de crise, tudo é relativo, tudo é excedentário e apenas a vida conta!
Finalmente, por causa da crise, quando a defesa da vida se sobrepõe necessária e logicamente a tudo, ninguém se sente à vontade sequer para defender as banalidades que fazem parte do quotidiano de um habitante de um país em não-estado-de-crise.
Porque se ainda há quem possa estabelecer as mesmo poucas prioridades para a sua vida, outros há, a maioria, que deixou há muito de saber que tem direito à vida!
Crise, Crise, Crise! Maldita Crise!



Brilhante, D. Ângela Carrascalão!
As minhas saudações respeitosas.

A crise!, refere você, querida Angela,
A crise, sem que dela a responsabilidade comum seja partilhada e assumida por todos os que 2002-2006 tiveram em Timor funções governativas?
A crise, sem rostos que a assumam e nos digam como e porquê, em que contexto interno e externo, com que direito e em nome de quê, tanto desatino consequente.
A crise surgida do nada?
A crise, como justificativa e álibi de um longo (2002-2006) processo de incompetência e de irresponsabilidade política e diplomática, de falta de respeito pelos direitos e dignidade dos Timorenses, de falta de projeto, de falta de decoro e de sentido de Estado por parte dos responsáveis políticos de Timor tantas vezes “gostosamente” ausentes do Timor como se em tudo rolasse bem e o futuro do Povo não contasse para eles, nem Timor, porque pequeno para quem sonha com voos à escala do Planeta. Quem, honestamente, agora lhes escuta com credibilidade os discursos de um demagogismo patético em que nem eles próprios acreditam?...

Muitas vezes (2002-2006) encontrámos esses políticos de Timor mundo fora em campanha de protagonismo e de auto-promoção no Estrangeiro, passeando com pertenções a Estadistas nos corredores da fama mundial, candidatos competitivos a marcar presença a qualquer preço, e a qualquer pretexto, nas manchetes dos Jornais e em outros Midia deste e daquele País onde pass(e)avam, sobrepondo eles as suas ambições e megalómanos projetos pessoais, aos interesses coletivos do bom Povo de Timor e do Estado de Direito, onde todos igualmente têm de respeitar a Lei e a Ordem e fazê-la cumprir.

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