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quinta-feira, julho 20, 2006 

A cabeça do crocodilo


Ali na ponta de Lorosa´e, bem na curva da ilha de Timor, fica Tutuala, um lugar lindíssimo a convidar ao sonho, à contemplação, à reflexão…
Perdida que por enquanto está a hipótese contemplativa da Natureza, sobra decididamente tempo para a premente interiorização de uma vida em paz. Só com paz poderemos gozar prazeres tão grandes quanto o de saborear as praias de Tutuala e do Jaco.
O caminho é péssimo. A cada momento, dá vontade de desistir, de voltar para trás. Só mesmo a certeza de que temos o paraíso à nossa espera nos leva teimosamente a seguir o trilho pedregoso e estreito.
Tutuala, onde estão as famosas pinturas rupestres, como qualquer canto de Timor que se preze, tem magia… Ali, faz todo o sentido falar-se de magia especial. Está-se no princípio da ilha, na cabeça do crocodilo…
No percurso para Tutuala, aqui e além, - com destaque para Mehara, que tanto tem em comum com o comandante guerrilheiro Konis Santana - vamos marcando encontro com as parcas casas de Lospalos que escaparam à sanha destruidora do ocupante. Mal conservadas, mantêm-se altaneiras em direcção ao céu, numa teimosa demonstração de particular identidade das gentes de Oriente.
Antes ainda de Tutuala, passa-se por Iralalara. De tempos a tempos, gradualmente, a pequena laguna, pouco mais que um charco, enche-se, espalha-se e transforma-se num mar imenso que se espraia no alto do planalto. Ali se anda então de barco, se pesca e, de acordo com a imaginação popular, se vêem crocodilos.
E, depois, por um estranho sortilégio da mãe natureza, devagar, devagarinho, as águas vão desaparecendo por entre as pedras porosas que, dizem os entendidos, forram o fundo da lagoa. E recomeça novo ciclo, nova vida…
Sem querer meter a foice em seara alheia – até porque tendo bem consciência da minha total ignorância no campo, prefiro falar da beleza bucólica do sítio – parece que é por isso, pelo ciclo rotativo do enche-vaza-enche, que se estuda a hipótese de se aproveitar as águas de Iralalara para uma grande barragem que geraria energia suficiente e alimentaria Timor e as ilhas vizinhas.
Quando a Ponta Leste parecia ainda mais fim-do-mundo, se Tutuala já era terra famosa, o ilhéu do Jaco foi sempre um verdadeiro santuário.
Naqueles tempos para que os visitantes pudessem pisar aquela terra sagrada sem provocar a ira dos deuses, obedecia-se a requisitos rigorosos. Falava-se com o velho chefe da aldeia que podia ser o lia na´in que tinha acesso espiritual ao Rai Nain. Mas, nunca, nunca se deveria retirar nenhuma matéria viva do local! Lembro-me bem que uma senhora apreciadora de conchas e pedras, passou uma manhã a recolher belos exemplares mas devolveu tudo à praia, por solicitação e ao som de prece do lia na´in do sítio…
Os tempos mudaram. A modernidade e a civilização impõem-se naturalmente, e não há quem ligue a crenças de gente simples. Já ninguém pede autorização ao velho chefe de aldeia que conferenciará espiritualmente com o Rai Nain que nos deixará visitar a ilhota…
Ao tornar-se destino privilegiado de forasteiros para um fim-de-semana de sonho, Tutuala e Jaco perderam muito da sua tranquilidade até que, um dia, o governo de Timor-Leste entendeu por bem limitar as idas ao ilhéu permitindo passeios mas proibindo dormidas no local sagrado.
E foi assim que procurou fazer-se de Tutuala e Jaco paisagem protegida.
Éramos muitos, um grupo de gente divertida, constituída por portugueses e por timorenses “de dentro e de fora”, de dupla e tripla nacionalidade, desejosa de sair de Díli. Fizemo-nos ao caminho munidos de tendas, de caixas frigoríficas bem atestadas de comida e de bebida e de garrafas-termos bem cheias de café que ajudavam a aguentar as oito horas de viagem cortada aqui e além por paragem retemperadora.
Mal se vislumbra a praia de Tutuala, esquecem-se repentinamente as dores no corpo. Do outro lado do canal, situa-se o ilhéu do Jaco.
Rezam as lendas que o Jaco já fez parte da ilha de Timor. Dela se apartou quando um dia a terra tremeu. E para asseverar a verdade desta versão, há quem chame a atenção para uma particularidade. No Jaco, como em Tutuala, existe um nome comum para dois lugares diferentes: Pitilete.
É impensável imaginar-se que alguém permaneça indiferente à beleza daquele local. Fica-se literalmente boquiaberto! É um paraíso! A orla da praia está debruada de arbustos do tipo de palmeiras; a montanha que desce íngreme até ao mar é de mata cerrada, fechada sobre si mesma, misteriosíssima. Mais além, umas grutas onde parece ter-se encaixado em tempos idos o ilhéu.
Depois dos usuais “é bonito, não é?, que belo!, que lindo!, fantástico!”, acampámos, cozinhámos e contratámos uns pescadores para nos grelharem os peixes da sua pescaria.
Noite enluarada e bem dormida, com o marulhar das ondas mesmo ao nosso lado, amanhecer límpido, dia luminoso, a convidar ao banho e ao passeio… com destino ao santuário, pois claro…
Confiantes, distribuímo-nos por três beiros superlotados e fizemo-nos ao mar levados na viagem de circum-Jaco por pescadores que não se fizeram rogados!
Em cada beiro, cantava-se e ria-se alto. Com tanta algazarra, tenho para mim que assustámos os pássaros, as cobras, os tubarões, os peixinhos multicores, se calhar também as pedrinhas da praia…
Enquanto o diabo esfregou um olho, ali onde se casam as ondas do Índico e do Pacífico, o mar que até parecia calmo, ficou tumultuoso, agitado, com ondas enormes, altas, a bater-nos violentamente no corpo. Os beiros baloiçavam como casquinhas de noz.
Reparámos que um dos dois pescadores procurava em vão retirar a água que teimava em alagar o nosso beiro. Sem perceber fataluko apenas percebemos pelo tom de voz que algo não estava bem… Seguimos o olhar. Um beiro estava a naufragar. Ninguém estava à espera disso; os passageiros do terceiro beiro julgaram tratar-se de brincadeira os gestos e os pedidos de “socorro, estamos a afundar-nos!”,ao que responderam com gestos mais largos e mais alarido. Em menos de um ai, este beiro também se afundou…
O mar onde alguém vira uma barbatana branca de tubarão cortando a água era de um azul bem escuro. Felizmente a terra estava bem próxima; não havia areal daquele lado, apenas penhascos e rochas…. Mas todos conseguiram pôr o pé em terra firme e, sem honra nem glória, silenciosos, cabisbaixos, foram rodeando o ilhéu até ao ponto onde o Jaco era de novo terra benquista!
E nós, no nosso beiro, perdemos o pio. Reflectindo naturalmente na nossa insensatez e pedindo a Deus que nos levasse a bom porto.
E o mar, inesperadamente, voltou a ficar bonançoso… Prosseguimos o resto da viagem em absoluto mutismo. Já tínhamos perdido a vontade de rir. Deixámos de saber cantar!

À bela prosa da Maria Ângela queria apenas acrescentar que embora a ansiedade fosse grande ao longo das intermináveis horas de caminhada, sempre com receio que a subida da maré nos impedisse de concluir a pé a frustada circum-navegação,esse naufrágio, a que todos sobrevivemos cansados e bem tostados,incólumes e joviais, foi uma aventura magnífica que alimentou inúmeros serões e iluminou o anedotário timorense. Que sauddaes!
Um beijo para a Maria Ângela

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