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segunda-feira, novembro 06, 2006 

Um novo jardim?

Sou do tempo em que não havia energia eléctrica na cidade. Em que era preciso ligar por um telefone à manivela ao Sr. Salvador telefonista e pedir-lhe que estabelecesse uma qualquer ligação telefónica ou para saber quem estava a ganhar no campo de jogos situado um bom bocado mais acima da estação dos correios. Mas nós acreditávamos nos dotes de adivinhação do Sr. Salvador que dizia soltando sonora gargalhada com um ar de quem sabia tudo “O Benfica está a ganhar!”. Ou então, num tom mais sério, “O Benfica está a perder…”
Sou do tempo em que Díli era uma cidadezinha bonita, arrumada, com as ruas arborizadas, bem delineadas. Era poeirenta - só havia pouco mais de três quilómetros de estrada asfaltada! -, mas penso que ninguém se lembrará negativamente desse pequeno e menos bom pormenor, até porque também não havia assim tantos carros!
Naqueles tempos, uma vez por ano, a cidade animava-se com as festas do Dez do Junho, o dia da Raça do tempo de Salazar e de Caetano, quando cada concelho administrativo expunha as suas mais valias artísticas e económicas .
Nos tempos de hoje, não há nem mostra de arte nem do nosso desenvolvimento económico - ou não haverá desenvolvimento nenhum? - e Díli é uma cidade feita de remendos, sem qualquer plano urbanístico, com casas coladas umas às outras, outras tantas casas ocupadas e mal cuidadas, lixo, muito lixo nas bermas das ruas esburacadas e mercados que nascem como cogumelos onde haja sombra de uma árvore, para além dos esgotos a céu aberto que desaguam nas praias da capital, assim contribuindo para a degradação do “environamento” do país.
Ainda se vêem sinais da destruição de 1999 e a estes, nós, os timorenses, já bem dentro do tempo da nossa independência, em 2006, fizemos o favor de contribuir com algo de verdadeiramente nosso, dando azo a que nos achem tão bons destruidores quanto os “outros”, os ocupantes, adicionando mais uns quantos edifícios que queimámos por divertimento, por vingança, por selvajaria.
Ainda me lembro das acácias vermelhas no jardim defronte do Palácio do Governo, dos gondoeiros enormes, majestosos, junto à marginal. Em dias de festa ou não, era no jardim defronte do Palácio que jovens e menos jovens marcavam encontro para conversar, para ver as modas de então ou até mesmo e só para apreciar a paisagem.
Já li e ouvi alguns argumentos a favor e outros tantos contra as obras que se desenrolam no espaço que foi o do mal redesenhado jardim do tempo indonésio e pouco cuidado dos nossos dias de independência.
É claro que todos sabemos que há muitas outras prioridades no país, que há campos de deslocados nos quais as condições são pouco menos que miseráveis, etc, etc, etc.
Mas também sabemos que não devemos necessariamente cultivar o miserabilismo apenas e só porque receamos ter de assumir que também temos direito ao belo e ao bonito!
Um espaço bem concebido, ajardinado e necessariamente bem cuidado, tornará bem mais aprazível a zona dianteira do palácio em substituição da área estanque, cheia de grandes blocos de cimento a delimitar o território que foi o parque automóvel circunscrito a titulares de cargos públicos!
Não compreendo em que há-de a reconstrução do jardim prejudicar o desenvolvimento do país. Gosto do esforço do embelezamento da cidade, gosto que haja espaços abertos de lazer, plantio de árvores e de flores. Talvez porque quero acreditar que esse pode ser um ponto de partida para que retomemos o gosto pela limpeza da cidade com o retorno obrigatório de porcos e cabritos aos currais de onde não deveriam sair…

Obrigado Angela.
Pois sempre nos vai pondo em dia do que se passa nesse belo País, apesar de todas as contrariedades que por aí acontecem.

ola angela. diak kalae
Que bonita era essa parte fronteira ao palacio,recordo perfeitamente na entrada principal tinah uma guarda composta por 2 timorenses vestidos com os trajes tradicionais de timor,e empunhavam as espadas, a estrada passava a escassos metros do palacio.Sou do tempo de teledone de manivela hahahah, quando cheguei a timor no ano de 1964 já havia iluminação publica o alcatrão esse eram os tais 3 kilometros mais ou menos.Que bom que sabe ler o que Angela escreve,è o passado estar no presente,as ruas eram de terra ate era bom hahahah nas minhas passeatas de bicicleta percorria muitas ruas, não esqueço as grandes arvores na marginal frente ao sporting.para matar saudades agora vejo timor no Google earth onde verifico que a cidade de Dili tem muita casa, Mas Basar tete esta praticamente na mesma e ossu tambem mais ou menos como era, liquiçá lá vejo o campo de futebol como era antigamente no memo local.Passo horas a ver timor no google earth vejo a rotunda de comoro mas não consigo descobrir e malinamoco hahahah. a radio tambem me lembro tinha 2 periodos de emissão à noite era sempre discos pedidos hahahaho director da estação de radio era o senhor JAIME NEVES que tambem fazia a trnsmissão de relatos de futebol .que bom é recordar. adeus ate amanhã luis na costa da caparica

Vamos lembrar o passado para compreendermos o presente


No livro de José Ramos Horta “Amanhã em Díli”, nas páginas 257 e 278, o actual Primeiro Ministro conta:
“Em 1978, fui acusado de «capitulacionismo» por rejeitar o slogan de «negociações, nunca!», então muito em voga entre os elementos radicais da FRETILIN, aliás a «verdadeira linha patriótica» ou a «linha correcta»; de «traição», por advogar (como o fiz em 1974-1975) a reconciliação com a UDT; de «colaboração com a CIA», por procurar apoio dos EUA, etc. A perseguição que me foi movida chegava a tentativas de assassinato. O Rogério Lobato chegou mesmo a contactar a IRA e a ETA militar para me crivar de balas em Lisboa ou em Paris. No entanto, as ditas organizações recusavam levar a cabo tal acção ignóbil. Outros elementos perseguidos eram o Alkatiri e o Roque Rodrigues, estes apenas porque não davam cobertura às prepotências do Rogério Lobato e porque, de uma maneira geral, concordavam com a minha actuação e me apoiavam.
Assim, em Outubro de 1978, com as acusações de traição e capitulacionismo pesando sobre mim, fui retirado bruscamente da ONU – e abusivamente detido durante vários meses em Maputo, tendo aí sofrido humilhações e ameaças de morte às mãos do Rogério Lobato, então «ministro de defesa» da FRETILIN.
Necessário será esclarecer que tudo isso se passava sem o conhecimento das autoridades moçambicanas. Aliás, se não fosse a sua intervenção posterior, a FRETILIN ter-se-ia desintegrado completamente. Eu teria abandonado a organização se não fosse a intervenção das autoridades moçambicanas que, com sobriedade e maturidade – e revelando uma extraordinária dedicação e compreensão da luta do povo maubere – souberam fazer compreender a todos a imperiosa necessidade de nos mantermos unidos, mesmo que fosse só em aparência. Se não fosse essa atitude tão nobre dos moçambicanos, eu teria dado à sola, refugiando-me na embaixada britânica ou americana, as quais estavam de sobreaviso quanto a um eventual pedido meu de asilo político. Eu estava apreensivo quanto à atitude dos dirigentes da FRELIMO. Eu era (e sou) declaradamente social democrata. Logo, pensava, a FRELIMO tomaria o partido dos ditos radicais, dos verdadeiros revolucionários, o Abílio Araújo, mentor ideológico do Rogério Lobato. Já me via a trabalhar, a sol e chuva, num «campo de reeducação».
A minha ausência de Nova Iorque causou estranheza e preocupação entre os inúmeros conhecidos e amigos os quais alertaram o MNE moçambicano. Foi a intervenção da FRELIMO que me absolveu da «traição» e me salvou a vida pois o cabecilha do grupo, Rogério Lobato, havia decidido que eu devia ser liquidado. O Leonel Andrade, destacado elemento da Resistência, também social democrata, foi agradido à catanada na cara que quase o mandou desta para melhor.
Nesse ano, com a minha brusca saída da ONU, sofremos a maior derrota de sempre. Nesse ano, 1978, perdemos 10 votos em relação ao ano anterior. No ano seguinte, regressei à ONU com o incansável Roque, e mergulhámos numa luta deseperada para travar a erosão do apoio à nossa luta. (...)
Faço referência às querelas antigas não para as ressuscitar, mas apenas para ser verdadeiro com a própria história. Foram acontecimentos tristes da história da Resistência. E não guardo rancor em relação àqueles que movidos por uma ideologia absurda ou pobreza intelectual para discernir entre senso comum e estupidez causaram tanto mal à nossa luta – e me fizeram passar alguns dos momentos mais humilhantes da minha vida.”

Comentário: O Rogério Lobato continua igualzinho e por isso é que Timor está metido nesta embrulhada toda, o Abílio Araújo continua a trabalhar na sombra mas agora deixou de ser revolucionário e é pago directamente pelo Badan Intelijen Strategis, o Alkatiri continua a ser inteligente e por isso é que se demitiu para não agravar a situação, o Roque Rodrigues continua um trabalhador incansável, a Ana Pessoa é testemunha de tudo isto, e o Zé Horta salvou o país da guerra nestes últimos meses.

Parabéns pelas suas crónicas.
São artigos sobre a terra e sobre as gentes.
…Por vezes estamos cansados de ler sobre tanta conspiração politica.
A escrita é elegante, viva e colorida, conseguindo, de acordo com o objecto, ora que o leitor seja transposto no tempo até Timor antes revolução de 1974, ora que perceba o pulsar da sociedade actual.
De outra sorte, permite perceber a razão pela qual Timor prendeu …e prende, o coração dos que demandam essa terra.
Espero poder continuar a ter o privilégio de as ler.
Luís Mota Carmo

"Por vezes, apenas nos resta rir... para não chorar. Esta é a visão de um malai sobre a situasaun em Timor Leste, e no mundo, através dos seus desenhos, cartoons e algumas palavras..."

Convidam-se V. Exªs a visitar http://timorcartoon.blogspot.com

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