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terça-feira, agosto 01, 2006 

Quando a esmola é grande...

Vim ao centro da cidade, a um Internet café.
Desde sábado que não tenho acesso à rede fixa e o resultado é estar há três dias sem poder aceder à INTERNET. Pensei que fosse simples avaria. Mas não, como em tudo o que agora acontece em Timor-Leste há que desconfiar e questionar sobre a razão das mais pequenas coisas. E foi assim que esta manhã soube que a avaria tinha mão humana. Alguém resolveu cortar cerca de 60 metros de cabo e fazer dele propriedade sua.
Os técnicos da Timor Telecom vão agora apresentar queixa à polícia australiana, - Meu Deus, que sinal mais evidente da nossa falta de soberania! - que elaborará um processo e cuidará que o novo cabo quando for colocado não tenha o mesmo destino que o outro. Portanto, pode bem acontecer que decidam recolocá-lo utilizando a via subterrânea, o que implica fazer buracos e despender muito mais tempo que o desejável…
Sem ser pessimista, atrevo-me a aventar que não haverá novo cabo senão daqui a uns dias. É que tenho o azar de não viver numa zona in da cidade, estou longe das embaixadas, do centro do Poder, da zona comercial. Aqui, do lado de cima do aeroporto, há poucos utentes do telefone fixo.
Vivo nos subúrbios de Díli, numa zona que, nos meus tempos de garota, pertencia ao concelho de Liquiçá e posto de Bazartete. Hoje, tem outro estatuto, faz parte da capital! O suco de Malinamoc,- com as suas aldeias do lado da montanha chamadas emblematicamente de 4 de Setembro, 30 de Agosto ou Terra Santa, assemelha-se, contudo, mais a uma grande aldeia.
Antes da crise aqui não havia a confusão de Díli; ontem e hoje mantém-se sem a sujidade e a poeira da capital que dista a 7 quilómetros daqui e da qual também se diferencia nas facilidades. Afinal, isto continua a ser um subúrbio! Igual, só mesmo nos problemas comuns a cada bairro da cidade de Díli, com os ajustes de contas por meio de catana, apedrejamentos e rama-Ambon(1) e nos campos de refugiados que ilustram bem o ódio novo que tomou conta de Timor-Leste entre os naturais de Leste e Oeste, a versão portuguesa para as quase proibidas palavras e por isso mesmo ditas em surdina Lorosae, Loromonu.
Continuamos sob o signo da divisão. E como se não chegassem os problemas entre os bandidos bons e maus (conforme o ponto de vista de cada lado), temos agora uma novíssima modalidade que merecia reflexão mais profunda sobre os seus contornos. Tem isto a ver com a detenção do major Alfredo Reinado pela GNR.
Diz-se à boca pequena, em murmúrio de quem conta um segredo recontado a centenas de pessoas pedindo segredo - e como é, aliás, usual na capital da crise -, que os australianos armaram a trama e os portugueses caíram ingenuamente; foram ao encontro das armas que o major havia trazido de Maubisse de onde descera bem acompanhado pelos australianos. Daí resultou alguma má vontade dos adeptos de Reinado contra os bravos da GNR e, como asneira puxa asneira, houve até quem alvitrasse a sua saída de cena. Verdadeiramente intrigante é que os acompanhantes não tivessem dado pelo transporte das armas. Se vivêssemos ainda no tempo da ocupação, sempre se poderia dizer que era obra das lendárias fatu biru(2) que os guerrilheiros traziam consigo e os tornavam invisíveis em situações de aperto…
Sobre isto, quero crer que haverá aqui algum exagero. O mesmo não direi de uma real armação por parte dos nossos benevolentes e amigos vizinhos, quase de certeza interessados em transformar este “país pobre e pequeno mas potencialmente rico” cada vez mais dependente da sua boa vontade. A ajuda sempre prestada graciosa e generosamente, pelos nossos lindos olhos escuros e rasgados irá aumentando gradualmente, se tivermos em conta que a situação de crise constante na capital originará que, em cada dia que passa, as nossas necessidades de ajuda sejam maiores. Cada ajuda prestada fará de cada um de nós, um timorense grato. Muitos timorenses são um povo eternamente grato. Cúmplice da eternidade da nossa gratidão, só mesmo a nossa total dependência…
Continuo a não querer ser pessimista nem desconfiada. Mas em momentos como este, não me sai da cabeça aquele dito popular bem antigo e sempre tão cheio de verdade. É que quando a esmola é grande, o pobre desconfia!

(1) Rama-Ambon - azagaia em miniatura, com ponta embebida em veneno e trazida de Ambon/Molucas, Indonésia
(2) fatu biru – pedra azul

Será prazenteiro falar sobre atropelos de australianos - ditos militares estrangeiros...Pessoalmente não caio nessa! Abram a pestana e façam o mesmo. "QUANDO A ESMOLA É GRANDE O POBRE DESCONFIA"... Em Timor fui exactamente isso: um pobre desconfiado em 1969, militar mas nunca opressor - sim um amigo. Ainda hoje o sou por opção. Porque amo Timor, as mulheres de Timor que ainda hoje de mim se recordam... por amor, só por amor!
Será que são vivas? Pois queiram saber que são vivas no amor que lhes guardo. E os amigos? Onde está o Zeca Filipe, enfermeiro e da "emissora"? E os outros? São quase todos dessa ilha. E o "velho" Carrascalão? Ele foi para aì "desterrado"... já se esqueceram? Como o Mário Lopes...
Pois é. Afinal fui a Timor aprender coisas de "anarcosindicalistas" para lá desterrados e que até parece que nem sabem que os filhos/filhas reivindicam uma coisa: EU TENHO DIREITOS, TU TENS DIREITOS...

Quem vem a Timor nunca mais dele se esquece. O Mário bebeu água de coco? Diz a crença local que quem a bebe fica preso à terra. Magia, sabe?
Tenho pena que em reposta apenas possa falar-lhe da morte que levou todos os que refere explicitamente no seu comentário.
O meu pai, o "velho" anarco-sindicalista Carrascalão de quem fala faleceu há muito, em Lisboa, para onde teve de ir em 1975.
O Sr. Mário Lopes, são-tomense igualmente deportado político, faleceu aqui em Timor, não sei se na sua amada ilha de Ataúro.
O Zeca Filipe refugiou-se na Austrália onde viveu largos anos até morrer há dois anos, salvo erro.
Quanto aos direitos, estou de acordo, todos os temos. É como a liberdade, a de cada termina onde começa a do próximo. Pena é que em Timor-Leste tarde a percepção e o reconhecimento de que direitos e liberdade andam de mãos dadas, que somos todos timorenses, filhos de uma só nação. Nem todos são dilectos, mas a interiorização de que todos devemos ser dilectos, se já estava difícil, tornou-se ainda mais complicada com a malfadada descoberta de divisões geográficas do país feitas à última da hora em estanques divisões étnicas! Um dia vamos conseguir sê-lo, estou certa!

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