quinta-feira, setembro 20, 2007 

Ensinar português em Timor II

«Posso ter a minha opinião sobre muitos temas, sobre a maneira de organizar a luta; de organizar um partido; uma opinião que se formou em mim, por exemplo, na Europa, na Ásia, ou ainda em outros países da África, a partir de livros, de documentos, de encontros que me influenciaram. Não posso porém pretender organizar um partido, organizar a luta, a partir das minhas ideias. Devo fazê-lo a partir da realidade concreta do país.»

Amílcar Cabral (citado no livro “Cartas à Guiné-Bissau – Registo de uma experiência em processo”, de Paulo Freire, [p. 9])


O ensino do português em Timor andaria melhor se fosse organizado ouvindo as opiniões de quem está no terreno e conhece a situação real do país, mas muitas vezes os apelos e sugestões dos professores que lá labutam há muitos anos caem nos ouvidos moucos de técnicos de gabinete agarrados em Lisboa às rotinas que criaram noutras eras e noutros cenários (como p.ex. Angola e Moçambique, que são contextos muito distintos) e mais preocupados com o protagonismo das suas instituições do que com o futuro dos timorenses. As declarações do Secretário de Estado dos Negócios Estrangeiros e da Cooperação, João Gomes Cravinho, que esteve recentemente em Timor em contactos com o actual Governo do país, parecem indicar que as autoridades portuguesas estão empenhadas em que isso mude. O governante referiu-se nomeadamente, de acordo com os jornais, à necessidade de os professores aprenderem tétum, o que parece demonstrar intenção de promover a aquisição de competências específicas para o labor docente destes e para uma melhor integração na sociedade timorense.

Um dos maiores obstáculos à eficácia dos esforços de ensino da língua portuguesa em Timor tem sido o paroquialismo das instituições envolvidas, o arreigado hábito lusitano de “cada um puxar a brasa para a sua sardinha”. Quando cheguei a Timor há seis anos, ao serviço de uma instituição lusa para dar aulas na universidade nacional pública, o “rival” era o Ministério da Educação português, que tinha uma centena e meia de docentes no terreno e se tinha disponibilizado para ceder alguns para darem aulas aos universitários. O Instituto Camões (ICA) é que em Portugal tem a responsabilidade de promover o português no ensino superior no estrangeiro, pelo que houve que recrutar rapidamente aqui um grupo de professores para irem dar aulas para a UNTL, a recibos verdes. Pouco depois o “adversário” passou a ser a Fundação das Universidades Portuguesas (FUP), que arrancou com um conjunto de cursos superiores leccionados por docentes idos de universidades daqui, por períodos de dois meses, incluindo um curso de formação de professores de português. Como o Instituto Camões também apoiava um curso com os mesmos objectivos, passaram a existir ao mesmo tempo, na mesma faculdade, dois cursos superiores apoiados por Portugal e leccionados por portugueses para formar docentes timorenses de português, que funcionavam em portas contíguas, mas de costas voltadas. Esta caricata situação só terminou alguns anos mais tarde quando alguém no Governo, em Lisboa, decidiu que só haveria financiamento para um curso e que as instituições tinham que se entender umas com as outras. A coordenação científica do novo curso foi entregue à professora Mariette Bolina da FUP, que trouxe uma inovadora e bem-vinda postura dialogante para as reuniões, e que conseguiu uma coisa nova importante: exames de selecção de candidatos que permitem excluir os piores, mas mantendo a possibilidade de os jovens que não dominam ainda o português poderem frequentar um ano propedêutico, onde adquirem as bases que lhes permitirão depois passar nas provas para ingresso na licenciatura. Actualmente as cadeiras de língua portuguesa do curso são leccionadas por docentes do ICA, e as restantes (linguísticas, literaturas, didácticas,...) por professores da FUP. Ah!, e entretanto ao longo destes anos, deixou de haver “veto” sobre a presença de docentes do Ministério da Educação português a ensinar na universidade. Agora há finalmente uma boa cooperação entre as instituições, mas muita energia foi inutilmente desperdiçada antes de se chegar a este ponto.

Situação actual da língua portuguesa e do seu ensino

Em Timor a situação real da língua portuguesa é bastante melhor do que dizem os australianos e pior do que gostam de pensar os portugueses (a wikipédia em português diz que 25% da população fala a língua! hahaha!). Todos os timorenses têm pelo menos algum grau de conhecimento passivo do idioma da lusofonia devido à grande quantidade de empréstimos lexicais do português que entraram para o tétum e para as outras línguas timorenses através dos séculos, mas há uma diferença entre compreender vagamente o assunto de um discurso e ser capaz de ler um livro. É um facto que se fala agora muito mais português do que quando lá cheguei, mas oito anos depois da saída dos indonésios os sucessos estão muito aquém do que seria de esperar tendo em conta o investimento que foi feito. Como diz Flávia Ba no editorial de um Várzea de Letras recente, há uma realidade nova que é o “o aparecimento de jovens que falam a língua portuguesa e que a aprenderam já depois do fim da ocupação indonésia” e “uma geração nova nas escolas primárias timorenses que, principalmente na montanha, não fala já fluentemente a língua dos ocupantes”, uma vez que “no interior do país há muitas crianças que fizeram toda a escola primária em tétum e português e que da língua da integrasi e da otonomi não sabem mais do que algumas palavras”. Porém, esses jovens são em percentagem ainda muito reduzida (boa parte deles alunos nos cursos da FUP e do ICA na UNTL). Poderiam ser mais se não tivesse havido durante bastante tempo nos cursos de formação de professores uma aposta clara (e a meu ver inadequada) num público-alvo de velhos lusófilos. Muitos destes timorenses mais idosos são pessoas extraordinárias (mesmo que o aproveitamento de alguns nas diferentes disciplinas deixe frequentemente bastante a desejar) que mantiveram a língua portuguesa viva em Timor apesar de todas as pressões dos indonésios. Bastantes deles têm até um certo prestígio nas suas comunidades por serem os que sabem português, e sentem-se particularmente embaraçados quando ao voltarem à escola como alunos depois de trinta anos ou mais acabam por não conseguir passar de ano, porque não basta falar razoavelmente um idioma para tirar um curso superior. Talvez a solução fosse preparar cursos especiais de reciclagem para estes aprendentes, com objectivos distintos dos outros. Parece-me que se deveria olhar seriamente para as estatísticas do corpo discente dos diversos projectos de formação de professores que Portugal patrocina, uma grande percentagem dos formandos estará reformada daqui por cinco anos. Todos os graduados até agora como professores nos dois cursos abertos em 2001 pelo ICA e pela FUP são, com uma única excepção, pessoas de idade madura, todos já falavam português antes de entrarem para a UNTL, e a grande maioria já dava aulas desse idioma antes de iniciar esta formação académica. Serão agora talvez melhores docentes, e fizeram um percurso de valorização pessoal importante, pelo que merecem ser elogiados. Mas em relação ao problema global de escassez de professores a sua graduação não resolveu muita coisa. Não seria boa ideia apostar preferencialmente na formação de jovens, mesmo que entrem para os cursos sem saber nada de português? O currículo teria que ser adequado para esse público. Um aluno em Portugal pode entrar para um curso superior que forma professores de italiano, por exemplo, sem saber nada desse idioma; a ideia é que o aprenda durante o curso.

Elites culturais, cena literária, livros e bibliotecas
Os graduados que mencionei fazem parte de uma elite cultural e intelectual leste-timorense, a mesma a que pertence grande parte dos principais líderes políticos actuais, uma geração de quadros cuja formação de base é lusófona. O curso não foi desperdiçado neles, já que vários estão na linha da frente do combate pelo português, acumulando empregos e ajudando a formar novas fornadas de falantes. Mas há outra elite em Timor, que vêm da geração educada sob influência indonésia e que vai controlar as rédeas do país a curto-prazo, à medida que forem desaparecendo de cena os líderes históricos. Alguns portugueses não confiam neles, acham que eles estão só à espera de uma oportunidade para tirar o estatuto oficial à língua portuguesa. Alguns líderes timorenses da velha-guarda também não os apreciam muito, o ex-Primeiro Ministro Mari Alkatiri referia-se a eles nos jornais como “sarjana super-mi”. O super-mi é uma massa instantânea indonésia a que basta juntar água quente, é muito barato e também se consome imenso em Timor, portanto a expressão pode traduzir-se mais ou menos por “licenciados massa instantânea”. Os adversários de Mari Alkatiri retorquiam que o ensino universitário em Moçambique – onde ele se formou – também não prima pela excelência. De qualquer maneira, a razão porque ele lhes chamava isso tem a ver com a má qualidade e corrupção que existe nas universidades indonésias, onde esses quadros se formaram. Mas nem tudo é mau no ensino superior indonésio, também aí há gente bem formada, e existem instituições onde muitos docentes têm doutoramentos feitos em algumas das melhores universidades dos Estados Unidos, Austrália ou União Europeia. E há a vivência académica fora das aulas, que teve um papel importante na formação política e pessoal de muitos jovens quadros timorenses. Recordemos que esses eram os tempos da militância em organizações como a Renetil e a Impettu, e de concertação de estratégias com o movimento indonésio pró-democracia que veio a varrer o país, e principalmente as universidades, numa mobilização sem precedentes contra o regime de Suharto.

Contrariamente ao que alguns portugueses pensam, a Indonésia não é um deserto cultural. Antes tem uma cena artística e literária pujante, onde coexistem colectivos e grupos literários alternativos que organizam sessões públicas de declamação de poesia e leitura de contos ou representação de peças teatrais com cadeias de edição, distribuição e venda de livros que cobrem o país, como a Gramedia (do tipo FNAC). Ofereci a amigos em Timor vários exemplares da tradução indonésia de “O Nome da Rosa” de Umberto Eco, que de resto são vendidos a um preço bastante inferior ao da edição portuguesa. Também ofereci dois exemplares da tradução indonésia do “The Da Vinci Code”. Escritores indonésios como Ayu Utami chegam a vender mais de 100.000 exemplares de um livro. Alguns jovens timorenses que estudavam na Indonésia durante a ocupação moviam-se nesses meios de activistas políticos apreciadores e produtores de literatura alternativa, e viveram nesse país o equivalente do que foi a experiência da geração da Casa dos Estudantes do Império para os movimentos independentistas dos PALOP. Alguns vieram a congregar-se em Díli em organizações como o Sahe Institute for Liberation, a Yayasan HAK, a (entretanto extinta) revista Talitakum, e o partido PD. O Instituto Sahe publicou em língua indonésia alguma literatura política ligada aos países lusófonos, nomeadamente uma tradução de uma obra de Samora Machel sobre poder popular e uma outra de um livro de Ronald H. Chilcote sobre Amílcar Cabral. Na mega-Feira do Livro que o Instituto Camões organizou em Díli em 2003, que foi um enorme sucesso, encontrei um destes jovens activistas à procura de livros. Trazia na mão para comprar um exemplar do “Creole” (tradução inglesa do “Nação Crioula” de José Eduardo Agualusa) e um do “The first global village – How Portugal changed the world” de Martin Page. O moço não falava português e por isso o evento tinha pouco para lhe oferecer. Parece-me que os esforços portugueses na área da educação lusófona e da cultura se têm concentrado principalmente na terceira idade e, a um nível diferente, nas crianças. Esta geração foi bastante esquecida, e é bom lembrar que eles serão os próximos líderes de Timor.

Havia estudantes timorenses na Indonésia que faziam de vez em quando coisas como dizer orações em português um ao outro em ritmo de conversa para fazer crer aos colegas indonésios que dominavam a língua. O objectivo era marcar a diferença cultural. Vários tentavam aprender alguns rudimentos de português com recurso a velhos catecismos ou qualquer outro texto a que deitassem as mãos. Esses jovens davam uma grande importância simbólica à língua de Xanana e dos seus comunicados. Hoje em dia muitos são adultos com menos disponibilidade do que nos tempos da mocidade, sem tempo para frequentar assiduamente e com aproveitamento os cursos de língua portuguesa que aparecem, e consomem principalmente produtos culturais indonésios, porque a lusofonia não coloca à sua disposição produtos culturais oriundos da CPLP em formato que possa ser consumido por eles. Falo de filmes e telenovelas legendados em tétum (ou mesmo em indonésio, formalmente destinados à divulgação no país vizinho mas disponibilizados também em Timor), de literatura lusófona traduzida… Por isso compram parabólicas para ver os canais indonésios, e a elite lê livros de autores de língua inglesa, espanhola, etc… traduzidos para indonésio. Os filhos e sobrinhos deles andam na escola primária, onde muitos já não aprendem indonésio, e falam mais português do que eles, mas quando chegam a casa toda a família se senta a ver a telenovela venezuelana dobrada em língua indonésia.
De vez em quando o programa da RTP Internacional “Timor Contacto” mostrava umas reportagens sobre peças de teatro em português organizadas por portugueses ou brasileiros em Timor, e era deprimente ver como o público era quase inteiramente constituído por malais, com uma ou outra entidade timorense a marcar presença. Eram literalmente “para malai ver”. E nos eventos organizados por timorenses em tétum também era raro aparecer público português. Uma excepção a isto era o jornal literário “Várzea de Letras”, que publicava textos originais em português e tétum e traduções de excertos de obras lusófonas para tétum. Foi fundado por Sóstenes Rego como um jornal de parede para publicar trabalhos dos seus alunos na UNTL, e depois deu um passo em frente sob a orientação de Flávia Ba e, com patrocínio do Instituto Camões, passou a ser publicado em papel como jornal literário do Departamento de Língua Portuguesa da UNTL. Sinto-me orgulhoso de ter contribuído também com textos para o “Várzea” enquanto por lá andei. Creio que a Flávia Ba está de partida, espero que isso não signifique a morte do projecto. Quando estava prestes a vir para Portugal fui contactado por um investigador galego que queria saber mais sobre a cena literária local, sugeri-lhe que conversasse com o poeta timorense Abé Barreto, que frequentemente está ligado à organização de eventos como noites de declamação de poesia, e com a Mara do Instituto Camões, uma das poucas pessoas da comunidade portuguesa que frequenta habitualmente estes meios.

Faltam livros em Timor. Livros em português são necessários e úteis, mas é preciso também um investimento sério na publicação de livros em tétum. Urge um Plano Nacional de Leitura para Timor, bilingue, com uma forte componente em tétum, com livros escolhidos por quem tem experiência no terreno, com base não nas leituras preferidas dos organizadores mas sim naquilo que os aprendentes são capazes de ler. E faz muita falta uma biblioteca em Díli. Uma biblioteca de qualidade, não os muitos quase depósitos de livros que por lá há. Numa área de poucas centenas de metros quadrados no centro da capital timorense há duas bibliotecas do Instituto Camões, uma mediateca do BNU/CGD, a biblioteca da Faculdade de Ciências da Educação da UNTL com livros oferecidos por Portugal (e que passa uma boa parte do tempo fechada)… porém nenhuma delas tem bibliotecários. Há vários funcionários zelosos, que têm normalmente outras responsabilidades na área da gestão e contabilidade, mas seria desejável formação específica de biblioteconomia. A pessoa que na prática toma conta da biblioteca pode ter sido contratada, por exemplo, para fazer limpezas e falar muito pouco português, apesar de noventa e nove por cento dos livros estarem nesse idioma. Quando um utente entra na biblioteca não há um apoio adequado para o orientar (e note-se que a maior parte dos utilizadores não tem experiência prévia nenhuma a lidar com livros e bibliotecas). A minha sugestão? Fechar estas bibliotecas todas (estão a três minutos a pé umas das outras!) e concentrar todo o acervo numa única grande biblioteca da Cooperação portuguesa, num edifício suficientemente grande, transferindo para lá os funcionários administrativos, de limpeza, motoristas, etc… Depois contratar bibliotecários ou dar formação adequada a alguns dos que já existem. Dado que mexer em livros é uma vocação, que não nasce de repente só porque há uma vaga para trabalhar numa biblioteca, poderia ser feita a selecção de candidatos entre os finalistas dos cursos que a FUP, Ministério da Educação português e ICA mantém em Timor, e poderia preparar-se um curso intensivo de biblioteconomia de um semestre a ser leccionado pela BAD (Associação Portuguesa de Bibliotecários, Arquivistas e Documentalistas) ou pela própria FUP (muitas universidades portuguesas têm hoje cursos de biblioteconomia). Depois era só dar-lhes um salário suficientemente atractivo para eles não terem que acumular empregos e para não irem rapidamente trabalhar para alguma outra instituição.

Falar com todos ou só com alguns?

Procuro habitualmente falar português com os meus alunos, mesmo fora das aulas (há alguns que são excepção a isto porque nos tornámos amigos antes de eles aprenderem português e agora é estranho mudar da língua doméstica para um idioma mais formal – uma questão de hábito), porém nas aulas de iniciação à língua portuguesa repetia as explicações em tétum e quando eles me abordavam nos corredores com alguma dúvida esclarecia-os nessa língua quando o português impedia a comunicação. Acontecia-me com alguma frequência haver estudantes que me vinham pedir que lhes explicasse em tétum alguma coisa que um colega meu tinha acabado de leccionar em português noutra disciplina e que eles não tinham compreendido. Falo em tétum com os taxistas, e com as tias que vendem no bazar, e com as empregadas de mesa (a não ser que eles tomem a iniciativa de usar o português) – o que me evita muitos mal-entendidos. As moças que trabalham nos restaurantes são um dos grupos de jovens que mais rapidamente aprendem a desenrascar-se na língua de Camões (só são ultrapassadas pelos putos que vendem CDs e isqueiros nas ruas), por necessidade, porque uma percentagem grande da clientela é constituída por gente lusófona. A aprendizagem do português é necessária para a estabilidade no emprego, ou para poder mudar para um estabelecimento com mais nível, e com melhor salário. Assim, é perfeitamente correcto que os portugueses se dirijam a elas neste idioma. Menos correcta é a atitude intolerante e mesquinha a que infelizmente se assiste de vez em quando nos restaurantes de Díli quando algum “cooperante” pouco disposto a cooperar provoca cenas constrangedoras repreendendo alarvemente em voz alta as empregadas por não compreenderem um pedido, esquecendo-se de que não está num restaurante chique de Cascais (ou quiçá de Freixo de Espada à Cinta) e de que o português que as raparigas sabem tem vindo a ser aprendido numa de formação contínua “on the job”, como agora se diz. Invariavelmente a moça acaba por se retirar resmungando entre dentes palavrões em tétum contra a arrogância do malai. Nos Correios de Díli falo normalmente português porque há lá umas senhoras simpáticas que dominam a língua, mas uma vez em que lá estava entrou um americano do “Peace Corps” a falar tétum pelos cotovelos e a senhora que me estava a atender começou a dizer que todos os malais aprendiam a língua nacional timorense menos os portugueses, de forma que continuei a conversa em tétum para lhe mostrar que há excepções. Mas na vez seguinte que lá fui continuei a usar o português, claro. Como falo bem tétum e não tenho aspecto de australiano nem faço os “r” esquisitos da pronúncia deles, os timorenses costumam perguntar-me se sou brasileiro – não estão habituados a que os cooperantes portugueses aprendam a língua daqueles com quem cooperam…

Os professores portugueses, principalmente os que labutam nos distritos fora da capital, devem ser louvados pelo seu sacrifício e esforço. Trabalham frequentemente em lugares de difícil acesso, a muitas horas de viagem da capital, fazem muitos quilómetros por más estradas para cobrir as diversas escolas da sua zona de actuação, não têm acesso fácil a bibliografia adequada… Além de tudo isso, quando a situação se torna mais complicada, como aquando dos confrontos do ano passado, não reagem com pânico histérico e não fazem evacuações relâmpago, como fizeram os australianos e os americanos. Os timorenses em geral gostam deles. Para melhorar mais ainda o seu desempenho, creio que será útil dar-lhes as condições para que aprendam tétum e incentivá-los a que o façam. Não apenas porque isso tem reflexos nas competências profissionais específicas para o exercício da sua função em Timor (ainda que haja às vezes uma tendência para o ensino do português no estrangeiro privilegiar o professor-turista em vez do professor-especialista, o volume de investimento em Timor justifica que as coisas sejam feitas com uma abordagem diferente), mas também porque isso os tornará pessoas mais felizes. Muitos dos docentes portugueses são jovens e é normal que gostem de fazer amigos entre pessoas da mesma faixa etária, ora, se não souberem tétum não poderão facilmente socializar de forma normal com timorenses que tenham menos de cinquenta anos. Saber tétum promove uma melhor integração. E ninguém gosta de viver sozinho numa ilha. Um professor de línguas, como um tradutor, é um construtor de pontes entre culturas.

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sexta-feira, junho 29, 2007 

Ensinar português em Timor

Kata berimbuhan adalah kata yang telah mengalami proses pengimbuhan (afiksasi). Imbuhan atau afiks adalah morfem terikat yang digunakan dalam bentuk dasar untuk menghasilkan suatu kata. Hasil dari proses pengimbuhan itulah yang kemudian disebut kata berimbuhan.
Menurut bentuknya, imbuhan dikelompokkan sebagai berikut.
1. Awalan atau prefiks, misalnya me(N)-, ber-, di-, ter-, se-, per-, ke-.
2. Sisipan atau infiks, misalnya –el, -em, dan –er. Contoh pemakaian: geletar, gemetar, gerigi
3. Akhiran atau sufiks, misalnya –kan, -i, -an, dan –nya. Contoh pemakaian: turunkan, uraian, jalani, akhirnya
4. Awalan-akhiran atau konfiks, misalnya ke-an, pe(N)-an, per-an, ber-an, se-nya. Contoh pemakaian: keadilan, penyamaan, perhatian, bersamaan, semaunya.


Isto é um excerto de um manual de escola secundária da disciplina de língua indonésia (*), e explica algumas noções muito básicas sobre afixos desta língua. E então? O caríssimo leitor compreendeu? Pois... mas em Timor espera-se que os aprendentes timorenses adquiram proficiência na língua portuguesa com materiais preparados apenas em português. Vejo que o caro leitor - que é um indivíduo perspicaz - está já pronto para objectar dizendo que os timores falam tétum, uma língua que tem uma percentagem enorme de léxico proveniente da língua em que Luís Cardoso e Fernando Sylvan escreveram as suas obras. Tem toda a razão. Vamos então aprender tétum usando apenas explicações em tétum:

Ora, parese katak verbu lia-tetun nian simples no ‘mamar’ liu verbu lia-portugés no lia-inglés ninian, maibé bainhira ita liu ba feisaun seluk sistema verbál nian, mak aspetu, ita haree kedas katak dalen austronéziku sira (tetun no malaiu) maka kompleksu ka ‘toos’, enkuantu dalen europeu sira simples ka ‘mamar’.
Tempu ne’e feisaun gramatikál ida-ne’ebé hatán ba lia-husun ‘bainhira?’. Dalen austronéziku sira (hodi haleno makdalek sira-nia kultura) ladún importa kona-ba tempu, ne’ebé importante tebetebes fali ba malae-Europa sira. Dalen austronéziku sira hali’is liu ba aspetu, ida-ne’ebé hatán ba lia-husun ‘hotu ka seidauk?’.
Hodi hanoin kona-ba hahalok ida hotu ka seidauk, makdalek tetun baibain husu an se hahalok ne’e karik
(1) sei la’o hela lailais/maka’as nune’e uza matadak
gresivu daudaun
(2) sei la’o hela neineik nune’e uza matadak
estativu hela
(3) sei la’o hela, la’ós prontu atu hotu nune’e uza matadak
prospetivu sei
(4) hotu tiha ona nune’e uza matadak
perfetivu tiha
(5) hahú ona nune’e uza matadak
insetivu ona
(6) hahú ona no mós hotu ona nune’e uza matadak (katetek) perfeitu tiha ona
(7) foin hahú nune’e uza matadak
resentivu foin
(8) atu hahú de’it nune’e uza matadak
aprosimativu ba
(9) prontu ona atu hahú nune’e uza matadak
iminentivu atu” (**)

Como vê o tétum tem de facto muito vocabulário oriundo do português, mas ainda assim seria mais fácil para o aprendente lusófono se estas explicações sobre o sistema de tempo-modo-aspecto do idioma estivessem em língua portuguesa. (Para os que se interessam realmente pelo tema é oportuno lembrar que as explicações incluídas no “Guia de Conversação Português-Tétum” de Luís Costa, pág. 27-29 – que repetem mais ou menos o que diz Basílio de Sá (***) em 1961 – estão gramaticalmente incorrectas, devido fundamentalmente a uma simplificação excessiva e errónea e à tentativa de espremer à força o tétum para dentro da gramática do português.)

Há teorias que defendem o ensino da língua segunda e da língua estrangeira usando apenas a língua alvo, mas a validade disso na prática depende de muitas circunstâncias. Qualquer pessoa percebe que faz todo o sentido ensinar espanhol a portugueses falando apenas em castelhano, ou que um aluno português de nível universitário a viver em imersão linguística num país escandinavo pode frequentar com proveito aulas do idioma nacional leccionadas apenas nessa língua. Mas agora imagine que está num ambiente onde se fala a sua língua materna e a aprender em contexto escolar japonês, chinês, basco, umbundo, indonésio ou tétum, e o professor ensina utilizando exclusivamente esse idioma. Passará meses de frustração sem compreender quase nada do que está a ser dito, sentir-se-á desmotivado, talvez desista do curso e quando um amigo lhe perguntar o que já sabe dizer na língua que estudou poderá ter que confessar que só aprendeu as saudações básicas. Pense então no aprendente timorense, que tem que lutar também com outros condicionalismos como a situação socio-económica do país e a falta de conhecimentos metalinguísticos básicos não adquiridos devido ao péssimo sistema de ensino existente.
Os materiais para o ensino de português em Timor-Leste têm sido habitualmente elaborados (ou adaptados de outros já existentes) em gabinetes em Portugal por pessoas que não conhecem as línguas relevantes no país. Ter o tétum em conta ao escrever um livro de PL2/PLE (português língua segunda/língua estrangeira) não significa meramente mandar traduzir para essa língua as instruções do género “Preencha os espaços em branco”. Também não significa agarrar num livro usado em Lisboa para ensinar estrangeiros e mudar apenas as Elisabeth para Marias Imaculadas e a Rua Augusta para Colmera. Contextualizar o ensino da língua inclui ter em atenção que um falante de inglês usa o verbo “to be” onde um português usará “ser” ou “estar”, e que portanto haverá que dar uma atenção especial aos diferentes usos destes dois verbos. Para um falante de castelhano já só será importante explicar algumas poucas diferenças entre os “ser” e “estar” deles e os nossos. Em tétum não há verbo “ser”. Há docentes em Timor que ensinam os alunos a memorizar transcrições fonéticas do português europeu padrão como aprenderam na Faculdade, esquecendo que os alunos não têm acesso fácil a falantes desse dialecto, e que os timorenses que falam fluentemente a língua portuguesa usam regras fonológicas diferentes.

Por outro lado existem os “nativistas” que pensam que contextualização de materiais didácticos para as escolas de Timor significa que os livros não podem mencionar nada que seja exterior à realidade do aluno timorense típico. Vivem angustiados com a possibilidade de alguém lhes chamar neo-colonialistas. Exaltam-se se vêem uma ficha sobre transportes que mencione o comboio, porque não há comboios no país. Pois eu espero vir a criar os meus filhos em Timor e quero que eles saibam o que são comboios. Também não há naves espaciais em Portugal e quando eu era pequeno aprendi o que eram. Os livros escolares coloniais onde só apareciam maçãs e pêras, e nada de bananas, mangas e papaias, eram ridículos. Mas querer aprisionar as crianças nos limites da sua aldeia em vez de lhe dar também algumas janelas para ver o mundo também é digno de comiseração.

Uma outra lacuna grave do ponto de vista estratégico é a não instrumentalização da língua indonésia. Não me perceba mal, caro leitor, eu também sou dos que consideram o indonésio uma ameaça latente contra a especificidade cultural timorense, e acho que é da maior importância a disponibilização de apoios para o desenvolvimento do tétum. Mas às vezes é útil usar as armas do adversário (as Falintil usavam armas americanas capturadas ou compradas aos militares ocupantes, não iam combatê-los com surik – espada tradicional – em nome da pureza cultural). Justificava-se a produção de materiais para o ensino do português a jovens adultos utilizando a língua indonésia, que é aquela em que a maior parte desses alunos fizeram o seu percurso escolar e cuja gramática estudaram. Seria fácil evitar leituras políticas inapropriadas elaborando esses materiais tendo como público-alvo directo e declarado os próprios indonésios, já que o Instituto Camões tem um leitorado em Jacarta, e disponibilizando depois em Timor uma grande parte da tiragem. Nas pequenas livrarias improvisadas em cima de uma lona no chão ou de uma mesinha na beira das estradas em Díli (os locais em que normalmente os timorenses compram livros) é mais fácil encontrar manuais de espanhol do que de português, e estes têm procura pelos muitos candidatos a uma bolsa de estudos para Cuba.




Há uns anos uma instituição portuguesa envolvida no ensino de português em Timor orgulhava-se de disponibilizar glossários técnicos em português e tétum que consistiam em duas colunas com os termos numa e noutra língua. Na realidade a utilidade de tais listas de palavras é muito reduzida já que boa parte dos termos técnicos do tétum disponibilizados são propostas novas de um cultor da língua, que os falantes não apenas ainda não utilizam como precisam até de explicações adicionais para compreender. Esse caminho é interessante para o desenvolvimento do tétum, o que é útil, mas pouco produtivo para outro objectivo, o da divulgação da língua portuguesa no momento imediato. Os falantes jovens que usam ainda empréstimos lexicais do indonésio para o vocabulário técnico ao falarem em tétum achariam mais útil um glossário de indonésio-português. Assim poderiam saber que “pengacara” corresponde a “advogado”, em vez terem uma lista a informar que “tét–advogadu = port–advogado”. Se o jovem timorense que está a procurar a palavra não conhecia o vocábulo “advogado”, mas apenas “pengacara”, o glossário é completamente inútil para elucidá-lo. O professor português que está a dar uma aula apoiado em tais materiais procurará inutilmente termos cujo significado em língua portuguesa os alunos solicitam, coisas como: hukuman mati, hukum adat, hakim, kesaksian, olah raga, piala dunia, tinju, catur, wasit, pemenang, (sekolah) swasta, TK (lê-se “te ka”), pariwisata, kwitansi, sejarah, arsitek... Se houvesse glossários técnicos indonésio-português disponíveis o professor poderia dar as respostas: pena de morte, direito consuetudinário, juiz, testemunho, desporto, campeonato do mundo, boxe/pugilismo, xadrez, árbitro, vencedor, (escola) privada, escola pré-primária, turismo, recibo, história, arquitecto. O Instituto Nacional de Linguística (INL) está atento à necessidade de substituir os empréstimos lexicais do indonésio que ainda vão aparecendo nas conversas e textos em tétum e por isso publicou o muito útil “Disionáriu Malaiu-Tetun” (2002), de Geoffrey Hull e Toni Pollard, patrocinado pela Finlândia. Os autores também prepararam um Dicionário Malaio-Português, que está pronto há muito tempo, mas que nenhuma instituição portuguesa se disponibilizou para publicar. Pode ser que qualquer dia a Finlândia resolva investir na divulgação da língua portuguesa e então o dicionário possa ser publicado...



Devia haver comunicação entre os representantes do Instituto Camões em Jacarta e em Díli, isso traria proveito para ambas as partes. Instituições portuguesas como a Gulbenkian dão bolsas de estudo a estudantes timorenses que frequentam universidades indonésias, talvez fosse possível chegar a algum tipo de acordo entre esta fundação, o Instituto Camões (do MNE) e o Governo timorense, de forma a que a atribuição da bolsa tivesse associada a exigência de frequência de aulas de português com aproveitamento para os alunos que estão em Jacarta, onde o IC tem um leitorado. Aliás, isso deveria até ser alargado a pelo menos mais uma cidade, Yogyakarta, onde há uma enorme concentração de estudantes de Timor-Leste, eventualmente com a colocação de mais um leitor ou assistente português. A França não tem laços históricos relevantes com a Indonésia, ao contrário de Portugal, mas o Centro Cultural francês em Yogyakarta é mais bem equipado e mais activo do que o Centro Cultural português em Díli!! E o que vai salvando a honra do convento aqui é o empenho da Mara, dinâmica jovem responsável por ir fazendo omeletes quase sem ovos... Mesmo iniciativas meritórias levadas a cabo pelos portugueses em Jacarta, como a publicação de uma tradução para indonésio do livro de António Pinto da França “Portuguese Influence in Indonesia” [Pengaruh Portugis di Indonesia (2000)], não têm eco em Díli. Deveriam ter sido distribuídos, ou pelo menos disponibilizados para venda, muitos exemplares dessa tradução em Timor, em vez disso apareceu só meia dúzia de exemplares, vendidos apenas numa ONG de jovens timorenses que tinham estudado na Indonésia, agora já extinta. A revista indonésia de literatura “Prosa” (193 págs) publicou em 2002 a tradução de uma extensa entrevista de Katherine Vaz a José Saramago, além do texto em indonésio do primeiro capítulo do “Ensaio sobre a Cegueira”. Não existe nenhum exemplar nas bibliotecas que os portugueses mantém em Timor, apesar de terem sido então alertados.





Muitos portugueses em Timor, incluindo alguns professores, têm uma visão eurocêntrica da realidade linguística local e agem como se a língua portuguesa fosse a panaceia universal capaz de resolver todas as dificuldades do país. Nem lhes passa pela cabeça que a vida quotidiana das pessoas se centre em problemas mais prementes do que a língua, e vêem como uma ofensa pessoal a decisão de algum timorense de aprender inglês para ver se arranja emprego. Dizem orgulhosamente que não lhes apetece perder tempo a estudar tétum porque é uma língua que não serve para nada e que estão em Timor é para ensinar português. Gostava de os ver na França a tratar com essa sobranceria os franceses e a sua língua. Os australianos, que são mais práticos nestas coisas, aprendem geralmente tétum, que para eles é de mais difícil aprendizagem do que para nós por causa da quantidade de empréstimos do português que nós já conhecemos previamente e eles têm que decorar pela primeira vez. Desta forma eles conseguem conversar com toda a gente, com destaque para os jovens, enquanto os portugueses se entretêm a falar sozinhos ou com os velhos que lhes dizem o que eles querem ouvir.



A produção portuguesa sobre línguas de Timor é escassa e ainda não se libertou de alguns complexos hoje anacrónicos. Mesmo o “Dicionário de Tétum-Português” (2000) de Luís Costa, timorense residente em Portugal, é um dicionário para malai ver, não tem os timorenses como público alvo (além de não usar a ortografia oficial do tétum, mas isso é outra história...). Bastante diferente é a filosofia que tem presidido à elaboração de gramáticas, prontuários, livros de exercícios, etc, do INL. Veja-se o impressionante dicionário monolingue de tétum, “Disionáriu Nasionál ba Tetun Ofisiál” (2005), de 872 páginas, resultante de um trabalho de equipa de linguistas australianos e timorenses, e patrocinado pela União Europeia e por instituições austríacas. Há professores portugueses em Timor com uma atitude louvável, que tentam investigar e produzir alguma coisa fundamentada, principalmente para o ensino de PL2, mas não é fácil com os horários carregados que têm e com os condicionalismos que enfrentam. Deveria haver uma política determinada de produção de materiais didácticos, o que implicaria reduzir a carga horária dos envolvidos.





O tétum não está em concorrência com o português, mas pode roubar cada vez mais espaço de manobra ao indonésio na sociedade timorense. O português continuará a ser necessário para o futuro da nação, principalmente após a escolaridade básica. E claro que não há recursos disponíveis em tétum para formar um engenheiro ou um médico. Contudo, se alguém pensar em fazer um plano nacional de leitura para as escolas de Timor, isso só será minimamente credível actualmente se for com livros em tétum. Seria necessário mudar a mentalidade colonialista/colonizada no que se refere à forma como se olha para a língua nacional de Timor-Leste. Muitas percepções incorrectas devem-se apenas ao eurocentrismo. Uma vez, aquando da visita de um especialista em manuais escolares numa missão do Banco Mundial, houve uma reunião do tal senhor com um pequeno grupo de intelectuais timorenses, na qual também fui chamado a participar. A determinada altura defendi que o tétum deveria ser usado para fornecer explicações nos manuais de português e dei o exemplo de aulas de iniciação em que o professor malai tenta explicar a diferença entre “ser” e “estar” recorrendo a vocabulário e conceitos gramaticais complicados que o aprendente que não conhece os significados de “ser” e “estar” nunca compreenderá. Um amigo meu retorquiu que seria difícil explicar a diferença entre esses verbos por não existir uma tradução directa de “ser” em tétum, o que – acrescentou – trazia dificuldades acrescidas à teologia e ontologia. No livro de Susan Bassnett “Estudos de Tradução”, p.XXIV, podemos encontrar talvez uma resposta a esta última inquietação:

Lefevere explica-se bem quando enumera alguns absurdos da história cultural que derivam de uma concepção excessivamente estreita da tradução: «Dá que pensar (...) que o Aramaico que Jesus Cristo falava fosse destituído de verbos copulativos, especificamente do verbo ‘ser’, apesar de os teólogos se terem questionado durante séculos sobre o verdadeiro significado do ‘é’ que aparece, na tradução grega, em frases do tipo ‘este é o meu corpo’ e que tenham queimado, sempre que tiveram esse poder, aqueles que discordavam da sua reescrita.»

Numa outra ocasião explicava eu a dois colegas docentes universitários portugueses uma característica da variedade de português falada pelos timorenses que é influenciada pelas línguas autóctones: a resposta a perguntas na negativa. Se eu perguntar a um português “Não vais?” é de esperar que ele responda “Não” se não pretender ir, mas um timorense irá responder “Sim” na mesma situação. Se um lisboeta tiver um convidado de Timor e lhe perguntar “Não quer mais café?” e este disser “Sim” o português irá encher-lhe novamente a chávena e o timorense ficará muito surpreendido. A resposta do timorense é afinal mais lógica do que a nossa: “sim = é verdade que não vou”, “sim = é verdade que não quero mais café”. Isto também acontece no tétum. Os meus colegas achavam que isso era uma forma incorrecta de organizar o pensamento, um entrave ao raciocínio científico. Estive a tentar convencê-los com argumentos do relativismo cultural aplicado às línguas, mas entretanto descobri um de maior peso. É que o japonês também funciona como o português falado em Timor e o tétum, e não passa pela cabeça de ninguém imaginar que a língua japonesa seja um obstáculo ao raciocínio científico.

Noutra situação ainda, uma amiga a quem estava a dar aulas de tétum comparava a gramática deste idioma à da “novilíngua” de Orwell em “1984”. Mas afinal também o chinês, p.ex, tem adjectivos que são verbos, além de palavras novas formadas por composição do género de “ró-ahi” (‘barco-fogo’ = navio a vapor): em mandarim “canguru” é algo como ‘ratazana bolsa’, “girafa” é ‘veado pescoço comprido’, “telefone” é ‘palavras eléctricas’, “computador” é ‘cérebro eléctrico’, os termos habituais para “europeu” costumavam ser ‘diabo estrangeiro’ ou ocasionalmente ‘nariz grande’... Mas não esqueçamos que a China tem uma civilização milenar, que produz actualmente também tecnologia de ponta, e que há quem defenda que no final do século XV a China tinha escrito e reproduzido sozinha mais livros do que todos os restantes países do mundo em conjunto. Outros tentam tirar mérito ao tétum por ter muitos empréstimos lexicais do português. Respondo com o exemplo do inglês, cujo vocabulário é em cerca de cinquenta por cento proveniente do francês e do latim.

O português é na minha opinião essencial para um futuro harmonioso em Timor-Leste, mas é necessário reflectir sobre todas estas questões. Não chega ter boas intenções. Em ocasiões anteriores tenho manifestado a minha perplexidade por haver docentes portugueses que usavam o “Auto da Barca do Inferno” como obra de estudo nos cursos para ensinar a língua portuguesa a professores timorenses nos vários distritos. Houve quem discordasse de mim. Aos que gostam da ideia de ensinar português em Timor recorrendo a Gil Vicente, recomendo uma experiência iluminadora: vão aprender a falar inglês usando como texto base os “Canterbury Tales” de Geoffrey Chaucer, ou, melhor ainda, o “Beowulf”.

Uma parte enorme do corpo docente das escolas do país tem apenas qualificações mínimas. Muitos queixam-se de não compreender os livros que lhes dão para usar. Um livro para ser usado em aulas de português, ou leccionadas em português, com estas características deve ser acompanhado de um manual do professor que traga as lições planeadas até ao pormenor, antecipando as dúvidas do docente e explicando em tétum as respostas que ele deverá dar aos alunos. Os autores destes livros devem conhecer muito bem a realidade social, linguística, cultural e educativa do Timor dos dias de hoje. Mas como criticar é fácil, vou passar a tentar convencer alguém a dar-me as condições necessárias para produzir o tipo de materiais que me parece que fazem falta para complementar o que já há. Andemos, que é para a frente que é o caminho.

(*) NURDIN, Ade, MARYANI, Yani dan MUMU – Intisari Bahasa dan Sastra Indonesia: Ringkasan Materi Lengkap disertai Contoh Soal-Jawab dan Latihan UAN, Cet. II. Bandung, Pustaka Setia, 2004, p. 43

(**) Hull, Geoffrey Stephen e Correia, Adérito José Guterres – Kursu Gramátika Tetun – Ba Profesór, Tradutór, Jornalista no Estudante-Universidade Sira. Díli, Instituto Nacional de Linguística, 2005, p. 38 [trata-se de um livro sobre a gramática do tétum destinado a um público falante dessa língua]

(***) Sá, Artur Basílio de [ed. crítico] – Textos em Teto da Literatura Oral Timorense, vol.1, Lisboa, Junta de Investigação do Ultramar/ Centro de Estudos Políticos e Sociais, 1961, p. XXX-XXXI

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