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domingo, março 04, 2007 

O rei bicéfalo

Criam-se mitos. Destroem-se mitos. De um momento para o outro e de acordo com os interesses circunstanciais dos autores da criação e da destruição.
Usam-se pessoas. Atribui-se-lhes uma importância fictícia.
Não se cuida de saber o alcance de uma ou outra atitude. O que importa é satisfazer o apetite do momento. Tapa-se o sol com a peneira e pensa-se que todos são cegos. Todos passam a ver o país com os olhos deles, dos reis, de quem manda. Porque em terra de cegos, quem tem olho é rei…
E foi assim que Reinado passou do anonimato à fama.
E foi assim que o povo descontente se virou para um desconhecido como se ele fosse o salvador da Pátria.
Mas, também porque quem ainda se sente como herói sobre os tempos e as circunstâncias tenha sentido em perigo a sua condição de herói, destrói-se um mito. E o encolher de ombros traduzirá a displicência e a facilidade com que moldam os interesses do país. Porque amanhã será um novo dia e haverá tempo para a criação de novo mito, mais um ídolo, como os outros, de pés de barro!
Agora, vamos a ver como vão reagir os timorenses perante o ataque dos australianos a Same que originou já a morte de timorenses.
Vamos a ver como reagirá a população perante aqueles que participaram na criação do mito enquanto lhes deu jeito, o guardaram e o protegeram. Como, aliás, o rei bicéfalo o fizera…
E quando os internacionais, entre os quais os australianos, saírem de Timor-Leste, contentes por terem feito deste país uma terra pacífica à custa da morte de timorenses que reagiram de acordo com as regras ditadas pelo rei bicéfalo em terra de cegos, teremos uma terra vazia, pedras e paus.
E talvez aqueles que tanto criticaram outros de apelar à intervenção estrangeira em tempos idos – os de 1975 – deles, dos auto-denominados interventores-fazedores da paz, fazendo (ainda que involuntariamente) os novos senhores de Timor, talvez aqueles que agora apelaram à violenta intervenção australiana consigam o dom de mandar na terra deserta, nas pedras e nos paus.
E talvez chegue então a altura de deles se dizer que não passam de uns paus mandados dos estrangeiros; porque ausentes da vida estarão os outros paus mandados em que nos transformaram. E não haverá paus mandados nem cegos em quem os heróis, os reis tornados paus possam mandar…

Há herois falsos e verdadeiros! Uns devido à sua maneabilidade política e com alguns dotes de oradores conseguem atingir os fins ambiciosos de se colocarem no cume do Poder.
Envaidecem-se e souberam criar círculos à sua volta que os apoiaram e adoraram.
Frequentaram salões iluminados por candelabros de cristal fino. Voltaram famosos e ouviram o som das cornetas em sua honra.
Acreditaram neles, enquanto se movimentaram e propagandearam a missão a que se empenharam levar a cabo.
Mas quando as obras dos herois terminaram em nada, o pedestal onde foram colocados esbarrondou-se, como barro amassado espalhando-se pelo solo onde aqueles que os elegeram, como herois, no caminhar pisam essa mistura, já inerte e não tarda a ficar ressequida de tanto ser calcada.
Os mitos de ocasião, raramente, perduram e os verdadeiros mitos levam séculos a criar.

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