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quinta-feira, março 01, 2007 

Paus e pedras em vez de pessoas

A aldeia onde moro tem um nome muito sugestivo de que gosto muito. É a Aldeia 30 de Agosto, alusiva ao referendo de 1999, que confina com a de 4 de Setembro que marca o dia em que foram conhecidos os resultados desse referendo e o início da violência praticado por militares indonésios.
Um pouco mais longe, temos a do Gólgota (a que os meus conterrâneos chamam Golgóta) e a de Santa Maria. São nomes com um significado muito particular.
Na Aldeia 30 de Agosto, o ambiente até era bom. As pessoas faziam a sua vida. Havia uma rotina própria dos sítios onde a tranquilidade faz parte da vida.
Quando ainda havia calma e eu saía pelas 6h30 para o meu passeio matinal, já havia movimento na rua, com os pais de filhinho ao colo a apanhar o ar fresco da manhã e o jovem vendedor de pão na sua biclicleta pregando “pão, pãão, pãããão...” em cantilena a par dos trinados dos pássaros e da alegre vozearia dos miúdos que iam para a escola e cumprimentavam cada transeunte com um sonoro e sorridente bom dia!
Nunca mais saí cedo. Acabaram-se os passeios matinais. Ainda oiço pássaros mas, das crianças que vão à escola (ainda que em menor número), se alguma coisa se ouve é o silêncio a acompanhar o passo rápido (que a ocasião faz o ladrão, o problema surge do nada e é preciso andar depressinha...). Nem sequer existem as bancas improvisadas à porta da escola com frituras várias que faziam a delícia dos miúdos do D. Bosco que, em fila, se muniam de saborosa guloseiema por 10, 15, 25 cêntimos...
Outros tempos, constato tristemente!
Uma vez mais, Comoro foi palco de violência. Não no campo de refugiados do aeroporto, mas a uns metros de distância do campo pelado junto da Igreja de D. Bosco, na Aldeia 30 de Agosto.
O quiosque ao pé do cruzamento é o ponto de encontro da gente do bairro, em particular dos jovens daquela zona do bairro. Guitarra e alguns risos de vez em quando, muita conversa, sempre. Até que alguém deve ter perdido a cabeça ou se exaltou a ponto de ferir o amigo das tertúlias de berma de estrada com uma catanada.
A rua encheu-se de mirones, como é normal nestas ocasiões e a polícia internacional apareceu em número razoável.
Esperei um bom bocado até que a via ficasse desimpedida e fiz-me à estrada. A meio caminho, cruzei-me com duas carrinhas da GNR. Não sei se se dirigiam para aquele sítio.
Recordei as palavras da C., moradora no Bairro Pité, quando me contou que no bairro dela o amigo de infância de um lado da rua espreitava a primeira oportunidade para apedrejar o amigo de infância do outro lado da rua...
Ou o exemplo de F., sobre os confrontos de Santa Cruz entre vizinhos e compadres...
Ontem, na televisão, alguém se referia a outrem como o “inimigo”.
Outra triste constatação. Os nossos inimigos somos nós próprios...
Está a desaparecer tudo quanto tinha algum valor em Timor-Leste ao mesmo tempo que nasce uma nova cultura de violência que transforma tudo e todos em inimigos. Somos gente de um mesmo país, somos todos timorenses mas o ódio que anda à solta nas ruas vai fazer de nós um povo em extinção!
As palavras são como as cerejas; e as recordações também.
A propósito da desertificação humana de Timor-Leste causada pela violência, lembro-me das palavras do Bispo Ximenes Belo proferidas no aeroporto de Lisboa quando chegou ido de Díli, se a memória não me falha, em Setembro de 1999: quando Xanana Gusmão chegar a Timor vai encontrar paus e pedras em vez de pessoas.
Triste é a constatação de que, nesse ano, a desertificação era provocada pela Indonésia. Enquanto que agora...

Ah grande Angela:

So queria dizer que infelizmente quando Xanana chegou a Timor, tornou-se numa pedra e num PAU, PAU-MANDADO!
Chico Fininho

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