« Página inicial | O DIA EM QUE XANANA CONTEVE A FÚRI A LOROMONU » | A manifestação de Díli » | Partilha » | As primeiras 24 horas do resto da missão da GNR » | Parlamento timorense reabre e aprova medidas de em... » | O sofrimento das crianças de Timor » | Mais tarde... » | A GNR já saiu à rua » | Morrerá a culpa solteira? » | Sinais de recuperação » 

quarta-feira, junho 07, 2006 

O Presidente em directo

O mote do contacto directo com os contestatários dera-o já Xanana Gusmão, ao sair do gabinete, atravessar o pátio e vir junto do portão da entrada principal do Palácio das Cinzas, receber o porta-voz, major Alves Tara.
No final do encontro, e para surpresa de todos, a começar pela segurança australiana, o Presidente acompanha o oficial rebelde, de novo, ao portão, e segue, num anel cada vez mais apertado de soldados, jornalistas e manifestantes até subir para o capot de um carro (por coincidência propriedade de Nito, seu filho), e dali até ao tejadilho, onde esperou, ao lado de Tara, que os organizadores lhe fizessem chegar o megafone através do qual encheram as ruas da capital de palavras de ordem anti-Alkatiri.
Xanana pede aos manifestantes que se calem. “Já li o documento [que Tara lhe entregou, dando um prazo de 48 horas para a demissão de Mari Alkatiri]. O conteúdo geral é para que haja justiça e paz. Aos jovens, que eu amo e respeito, peço que ouçam. Se puderam vir de Ermera até Díli, de certeza que viram casas queimadas, ouviram tiros, souberam que há refugiados por todos os lados. Sabem do sofrimento dos refugiados dos 13 distritos”.
Voltará, uma e outra vez, ao tema. Define, aliás, a fuga das famílias dos locais de habitação e respectivo cortejo de dificuldades, como a prioridade número um da crise “constitucional, política, económica, e de instabilidade” que o país atravessa. “Primeiro vamos tentar salvar Timor-Leste desta crise. O mais duro, o peso que está a obrigar o povo a fugir, a chorar, a refugiar-se – este é o maior sofrimento.”
Um manifestante ainda grita “Abaixo Alkatiri!”. Outro, “Demite o Governo”. Mas o discurso de Xanana já virou, literalmente, o carácter urgente, que parecia imparável, da contestação. “Parem com a violência! Parem com a queima de casas! Parem com os tiros! Já lá vão oito dias. Pensamos que hoje tudo está bem, mas amanhã acontecem mais tiros e mais casas são queimadas.”
Dirige-se, de novo, em especial, à juventude. “Dou-vos um grande abraço. Esta demonstração mostra que vocês estão preocupados com o futuro. Nós somos velhos. Vocês são o futuro desta nação. Não deixem que este povo volte a sofrer desta forma.” Texto de Adelino Gomes, em Díli, publicado na edição do PÚBLICO de 7 de Junho 2006