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quarta-feira, junho 07, 2006 

O DIA EM QUE XANANA CONTEVE A FÚRI A LOROMONU

“O Presidente disse para aguardarmos. Que vai fazer todo o possível para encontrar uma solução”, declara o homem franzino que os soldados do contingente malaio, encarregados da segurança da manifestação, quase arrastam pelo ar até à carrinha que o há-de levar de regresso à montanha.
Alves Tara, 48 anos, major das F-FDTL (Falintil-Forças de Defesa de Timor-Leste) veio esta terça-feira a Díli, à frente de uma coluna de meia centena de camiões carregados de gente oriunda dos distritos mais a oeste do país, ameaçar paralisar Timor-Leste, caso Xanana Gusmão não demita o primeiro-ministro Mari Alkatiri no prazo de 48 horas.
Tara, veterano da guerrilha anti-indonésia, abandonou a cadeia de comando das Forças Armadas a 3 de Maio, na sequência de confrontos sangrentos que envolveram militares fiéis ao general Matan Ruak e um grupo de quase 600 peticionários. Estes, tinham deixado o Exército três meses antes, queixando-se de discriminação étnica.
“Agora os militares têm a farda suja. Só quando houver justiça é que voltarei a usar a farda”, acabou de dizer publicamente, através do mesmo megafone que o Presidente timorense usou, minutos atrás, para se dirigir aos manifestantes, que lograram chegar até aos portões do Palácio das Cinzas, após terem visto a sua iniciativa momentaneamente barrada, à entrada da capital, por viaturas blindadas do contingente estrangeiro chamado pela liderança timorense para restaurar a paz e a segurança.
Como tinham anunciado no dia anterior, num comício realizado em Gleno, a propósito da iniciativa de diálogo alargado que o actual ministro da Defesa, José Ramos-Horta, está a desenvolver entre os protagonistas militares da actual crise (ver caixa), os militares rebeldes mobilizaram cerca de dois milhares de pessoas da região mais ocidental de Timor-Leste e marcharam sobre Díli, em ruidosa e colorida manifestação – cerca de meia centena de veículos, entre camiões, microlettes, e carrinhas de caixa aberta, para além de dezenas de motocicletas.
“A chave para resolver a crise em Timor-Leste é Alkatiri. O povo de dez distritos exige a queda dele”, disse Tara ao PÚBLICO, logo pela manhã, quando a coluna ida de Ermera aguardava, em Tíbar, a dez quilómetros da capital, a junção com os manifestantes de Bobonaro, Maliana e Liquiçá. “Se [Alkatiri] não cair, o problema nunca mais se resolve e estas guerras não vão parar”.

Viva loromonu/abaixo lorosae
O Governo considera ilegal a manifestação. O Presidente, cujos poderes as medidas de emergência, recentemente decretadas, aumentaram substancialmente, inclina-se para a proibição. Um dispositivo militar malaio e australiano impede a progressão da marcha pouco antes de Taci-tolo.
A mediação de José Ramos-Horta ultrapassa o problema legal. Podem entrar em Díli, gritar palavras de ordem contra o primeiro-ministro diante do Palácio do Governo, mas não estacionarão ali, como pretendiam, nem abandonarão os veículos durante o tempo que levar o seu porta-voz – major Tara – para entregar a Xanana Gusmão um documento de duas páginas com a exigência da demissão de Alkatiri.
Canções do tempo da luta misturam-se com vivas a loromonu e gritos contra lorosae (os três distritos do Leste, apresentados como fornecedores da base étnica do actual pode militar) quando a coluna civil, escoltada por veículos militares, entra no bairro de Comoro, em direcção ao centro.
Aumenta o número de motorizadas e ouvem-se palmas de dezenas de pessoas diante do Palácio, onde há dias permanecem cartazes anti-Alkatiri, mas a manifestação não atrai multidões em nenhum dos bairros por onde passa, até ao Palácio das Cinzas.
Xanana vem ao portão receber Tara, a quem abraça, com um sorriso contido. O porta-voz dos manifestantes leva, dentro de um envelope, um documento que dá 48 horas ao presidente para dissolver o Parlamento e demitir Mari Alkatiri, devido à “acção criminosa” do Governo por este liderado.
O texto, escrito em tétum, pede a formação de um governo de transição e uma administração provisória que prepare eleições antecipadas “no prazo de seis meses”. Se Xanana não aceitar, um boicote a toda a administração pública e ao Parlamento será lançado a partir de quarta-feira, nos dez distritos cujo povo e juventude o subscritor do documento, Alves Tara, diz representar.

“Deixem-me trabalhar”
Pouco mais de meia-hora depois, o major rebelde abandona o palácio. Mas traz consigo o Presidente e o chefe da missão da ONU, Sukehiro Hasegawa. Ouvem-se palmas e vivas a Xanana, gritam-se palavras de ordem contra Alkatiri. Camisa aberta, mão esquerda no bolso, o Presidente olha detidamente os rostos que tem na sua frente, como se a querer estudá-los. “O povo não merece a situação que está a viver. Falo do sofrimento do povo [refugiado] no aeroporto, no [colégio] D. Bosco, em Fatumeta, nas canossianas”, diz, no estilo arrastado e cavo que a televisão popularizou.
As palmas e os vivas arrefecem na multidão, que segue agora as palavras do líder num silêncio só quebrado a espaços pelo barulho do helicóptero que descreve círculos em volta das zonas por onde os manifestantes se vão deslocando. “Deixem-me trabalhar”, diz. É preciso dar tempo ao tempo. E parar a violência. Por Timor-Leste, de Tutuala a Batugadé. “A vós, jovens, um grande abraço. Voltem como vieram. Demonstrem que são gente com cabeça e inteligência”.
Desce do automóvel, acompanhado de Hasegawa, e entra sem responder sequer com um monossílabo às perguntas dos repórteres. De pé, sobre a chapa amolgada do automóvel de Nito, cabe agora ao o major Tara desenvolver o antidiscurso do início da jornada de protesto. “Conseguimos o nosso objectivo, que era fazer a manifestação. (...) A juventude deve ter consciência política e parar com a violência. Organizarei uma manifestação que representará os 13 distritos, de Oecussi [enclave em Timor Ocidental] a Tutuala [no Leste de Timor Lorosae] e viremos a Díli pedir a demissão do primeiro-ministro”.
Tara revela ao PÚBLICO que Xanana lhe pediu um mês, antes de novas iniciativas. Um mês, isto é, o tempo de duração das medidas de emergência decretadas pelo Presidente e que este acredita hão-de salvar Timor da falência. Falta um quarto de hora para as 18h00 (9h45 em Portugal). Quando cruza a ponte de Comoro, no regresso à montanha, a voz que do carro de som alimentou todo o dia a fúria das gargantas propõe uma nova palavra de ordem: “Lorosae/Loromonu/ Todos juntos por Timor”. Texto de Adelino Gomes, em Díli, publicado na edição do PÚBLICO de 7 de Junho de 2006

Xanana sempre. Ele é o Último Grande Herói. O PR timorense é a chave para a solução, mas a fechadura terá de corresponder, pois apsear do esforço, vontade e poder de Xanana, a vontade de todos é muito, muito importante. Causa-me estranheza esta "nova" questão étnica, que me parece exacerbada apenas por e para esta crise. Vendo assim os alentejanos e nortnehos estariam sempre à pancada.

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