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quinta-feira, junho 08, 2006 

Entrevista com Gastão salsinha: "Se os veteranos continuarem no Exército, haverá mais problemas"

Recebe-nos na área de Gleno, numa casa fora das estradas principais, onde chegamos levados por um contacto que nos esperou, de telemóvel em punho, num cruzamento depois da ponte. Dez minutos depois, avistamos um grupo de homens, todos com ar de menos de 30 anos, em volta de um murete que rodeia uma árvore de grosso porte. Cadeiras de plástico, azuis, já se encontram dispostas em semicírculo, no pátio da casa, para a entrevista. Respostas breves, parte em tétum, parte em português, que percebe, mas no qual não consegue exprimir-se bem. Gastão Salsinha, 32 anos, casado, quatro filhos, tenente das F-FDTL, porta-voz de 594 militares (num total de cerca de 1400), que se queixam de discriminação étnica. Entrevista dada a 72 horas de um encontro com o ministro da Defesa, José Ramos-Horta, que precederá um diálogo alargado entre militares, políticos, Igreja católica e sociedade civil com vista à resolução da crise.
PÚBLICO – É o único [dos militares envolvidos no conflito que devasta Timor-Leste] que ainda não se encontrou com o ministro da Defesa. Quando o fará?
GASTÃO SALSINHA – No próximo sábado.
Qual a relação que há entre o senhor, com os seus homens, e os outros grupos, ligados ao majores Reinaldo, Tara, Tilman?
Nós, peticionários, não falamos da parte política. O caso do major Alfredo tem a ver com os disparos das FDTL sobre os manifestantes, em 28 de Abril. Se não tivesse acontecido aquilo, ele e os outros majores não teriam vindo juntar-se aos peticionários. Mas vamos tentar encontrar uma só solução.
Qual deve ser ela?
Uma reestruturação total das FDTL. Se os veteranos continuarem, haverá mais problemas. Continuamos a respeitá-los. Foi com eles que chegámos à independência. Mas eles não aceitam nenhuma ideia vinda de nós.
Não seria preferível juntar a experiência dos veteranos com a juventude dos mais novos?
Só aprendemos com os veteranos como cortar um pé de palapeira ou o melhor local para cavar uma fruta no mato. O ministro Ramos-Horta já prometeu ir arranjar soluções para os veteranos. O Exército deve continuar a existir com duas unidades: uma de engenharia, para desenvolver acções cívicas; a outra para missões de paz. Assim não haverá confusões.
Como é que vai ser feito o recrutamento, para evitar discriminações lorosae/loromonu?
Primeiro resolva-se o problema inicial. Depois veremos a forma de voltar a unir.
Mas o critério principal não deve ser o da capacidade dos candidatos?
Não só. Também por um perfil que assegure a unidade nacional.
E quanto ao futuro do actual comando – brigadeiro Taur, coronéis Lere, Falur?
Não podem continuar à frente das FDTL. O Governo devia colocá-los em função das respectivas capacidades.
No último mês, o Estado desmoronou-se. Pensou alguma vez que podiam perder a soberania?
Depois de o brigadeiro responder à nossa petição e decidir expulsar-nos, respondi que, se o Governo não resolvesse o problema, um dia haveriam de surgir coisas piores do que aquela. É muito triste, porque eles pensaram que éramos pequeninos e não inteligentes.
Há quem acuse alguns dos peticionários de falta de disciplina e que terão usado o argumento da discriminação como pretexto.
Acho que não é justo. Temos provas concretas da discriminação. Acções desse tipo surgiram ainda nós estávamos em Aileu (cerca de 2000). Muitos – entre eles o major Tara – podem dar disso testemunho. Fomos, entretanto, expulsos, mas não há qualquer base legal para isso.
Está optimista quanto à resolução do problema?
Estou. Tenho a certeza de que pode ser resolvido. Mas penso que só através do Presidente da República.
Também defende que o primeiro-ministro deve ser demitido?
Seria melhor ele demitir-se para alguém ir, por ele, resolver o problema.
Quanto tempo dá a Xanana para isso?
Está nas medidas de emergência: 30 dias.
Já teve contactos com a Comissão de Notáveis [nomeada pelo Presidente para resolver o problema dos peticionários]? Que resultados?
Encontrámo-nos com o seu porta-voz, o padre António. Fiz uma carta com seis propostas. Levaram-na, mas até hoje continuo sem resposta.
Esta crise está em vias de ser solucionada?
O único problema são as armas. Há civis armados que estão a recuar para as montanhas.
Armados por quem?
Pelo comité central da Fretilin. Temos indicações de que foram distribuídas armas a civis.
Deixaram de receber os vencimentos enquanto militares. Como sobrevivem?
É o povo que ajuda.
Há quem diga que Timor-Leste se tornou um Estado falhado. Com todos estes grupos, a guerra lorosae-loromonu, etc., será que ainda é possível uma solução?
O exemplo do Iraque, onde a situação é mais dura, mostra que há soluções. Nós temos cedido. Tudo aquilo que o Presidente Xanana e José Ramos-Horta disserem, este povo, de Manatuto até Oecussi, obedecerá. Mas duvido no que respeita à parte de Lorosae.
Há então um problema loromonu/lorosae, em Timor-Leste? Consiste em quê?
É um castigo de Deus.
Não pode ser um pouco mais concreto? Onde é que está, hoje, em Timor-Leste, essa diferença entre uns e outros?
Pergunto o que é que os governantes fizeram desde a independência. Pergunto por que é que o povo continua a sofrer.
Já começaram a arrecadar receitas do petróleo.
É verdade que temos riquezas, mas a realidade é que, desde Tutuala até ao Oecussi, o povo continua a sofrer e quem fica a saborear a riqueza é a cúpula. Já vamos em cinco anos de governo. As estradas que tinham buracos continuam a ter buracos. As casas queimadas continuam a ser queimadas. O Governo não fez nada de novo. A preocupação deste Governo é comprar armas para distribuir pelos seus militantes [da Fretilin].
São constantes os elogios do Banco Mundial à gestão do Governo. Timor independente tem sido apresentado internacionalmente como um caso de sucesso.
São análises feitas só em Díli. A vida no interior não condiz.
Insistimos na questão lorosae-loromonu. Há dois Timores?
Timor é só um. Resolvido o caso da discriminação [contra os militares loromunu], acaba o problema. Adelino Gomes, em Díli. Texto publicado na edição do PÚBLICO de 8-6-2006

É com enorme mágoa que vejo o retorno de Timor Leste a uma situação que tão arduamente foi combatida, por timorenses em particular, e pelo mundo em geral.
Contactei com o território através de um trabalho de investigação, felizmente já publicado e que versava sobre o papel de Portugal no período de transição. Por então, fiquei profundamente apaixonado por um recém nascido país que, nos seus habitantes e no seu singular modo de vida, expressava verdadeira coragem, sentida em cada recanto do território.
Foi com lágrimas que falei com crianças no sopé do Tata-mai-Lau, crianças que tentavam falar o português com verdadeiro sentido do querer aprender a língua portuguesa. Foi com genuino deslumbre que calcorriei aquele país, sentindo-me sempre, e estranhamente, em casa. Ao assistir, em Portugal, aos recentes acontecimentos em Timor LoroSae, reparo agora que o país está longe de estar pacificado. A construção de uma nação independente não se faz em 5 anos. Atendendo à história de Timor, creio que nem 50 chegarão. Mas um Estado, de pleno direito democrático, escolheu o seu percurso.
Contudo, as infra-estruturas de base, e aqui refiro-me a uma educação cívica, não existem. Em Timor, também se verifica um notório desenquadramento dos locais com uma lógica de vivência coerente. Neste momento, tal nem sequer é possível. Acredito que o disse Adelino Gomes (a quem aproveito para mandar um caloroso abraço), ou seja, uma aliação entre a experiência dos antigos militares com a dinâmica da juventude, poderá constituir um percurso benéfico. Mas tal ainda não é possível. Muitas coisas ainda não são possíveis. Não creio que a culpa resida somente em Alkatiri. O eterno papel apaziguador de Xanana não é, de todo, eterno. Timor Leste está em contra-relógio para granjear os seus meios de auto-suficiência. A comunidade internacional auxilia com meios militares para almejar a uma pacificação territorial, mas a paz não é, somente, territorial. Tem que provir, antes de mais, do espirito.
Julgo que o papel dos jovens, aqueles que recebem a sua instrução fora das fronteiras timorenses, tem que ser relevado. O embaixador de Timor na Indonésia aponta a falta de educação cívica como o grande busilis desta questão. Somente após uma geração, talvez duas, se irão apagar, completamente, as marcas de 25 anos de ocupação forasteira. Por agora, Timor enfrenta somente um desafio, entre muitos outros vindouros. Em jeito metafórico, o país é jovem...a sua maturidade ainda irá demorar.

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