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terça-feira, junho 06, 2006 

As primeiras 24 horas do resto da missão da GNR

Domingo, fim da tarde e noite Os portões de entrada no Díli 2001 (Hotel and Service Apartments) fecham e assim vão ficar regularmente, a partir de agora, transformados em porta de armas do quartel do subagrupamento Bravo, da GNR, em missão em Timor-Leste. Chegados nessa manhã de Portugal, após mais de 30 horas de viagem aérea, e um não menos cansativo percurso, por 120 quilómetros de estradas esburacadas, entre Baucau e Díli, a companhia sob comando do capitão Gonçalo Carvalho afadiga-se nas tarefas de acomodação e adaptação às instalações hoteleiras, onde vai permanecer no início, pelo menos, desta missão. Não tarda que um homem surja junto ao portão de ferro e confronte a sentinela com um pedido de auxílio, pois a sua casa, não longe dali, foi incendiada por desconhecidos. O comandante ordena a saída imediata da unidade de operações especiais (12 homens). Chegada ao local, a patrulha identifica dois homens dentro da casa e detém um, que entrega a um juiz, conduzindo-o para o centro de detenção de Becora.
Segunda-feira, manhã. Da agenda consta, uma vez mais, a discussão diplomático-militar-policial sobre a entidade que há-de comandar a força da GNR. Portugal exige autonomia de comando operacional e ligação directa com as autoridades timorenses; a Austrália não se conforma, pois entende que deve haver um comando único das forças multinacionais estacionadas no país. Um telefonema de um membro do Governo alerta para um saque, em curso, em instalações do Estado. A GNR avança para a sua primeira acção à luz do dia timorense. Na estrada para o aeroporto, junto a Comoro, repórteres da RTP e do PÚBLICO vêem passar três pick-ups brancas da cooperação portuguesa, e lá dentro as fardas azul-escuro dos homens da GNR, pistolas-metralhadoras MP5 firmes no peito. Jovens rodeiam-nos, mal saltam das carrinhas, cada um tem uma informação a dar, a força da GNR chega a descer junto do rio, onde se encontram já blindados australianos, e a internar-se pelos caminhos entre palmeiras do bairro da margem direita, mas cedo desiste, regressando à cidade.
Tarde, 17h37 O prometido é devido: as três pick-ups transpõem a porta de armas e seguem, entre jipes das televisões, rádios e jornais portugueses, em direcção a Lecidere. Começa a primeira patrulha de reconhecimento e recolha de informações da GNR em território timorense: 12 homens, armados de espingardas automáticas G36, de MP5, com pistolas individuais presas à perna e com bastão. Uma irmã canossiana faz sinal ao carro do comando, por alturas da residência do bispo. O capitão Carvalho ouve-a, convida-a a entrar na carrinha, e arranca a toda a velocidade. No bairro Económico, o padre Henriques foi impedido de sair para celebrar a missa por três carros donde se gritava “mata! mata!”, conta a irmã Ermelinda, enquanto a patrulha aguarda resposta ao chamamento para o interior da residência. Três homens – um deles o padre supostamente barricado – aparecem ao portão. Os jovens que faziam ameaças já desapareceram. “Chegámos tarde”, lamenta a patrulha, arrancando pelas ruas apinhadas de lixo e de casas queimadas do bairro.
18h00 O cenário tornou-se já familiar a repórteres em serviço em Díli. Em vez de um, são agora quatro, porém, os armazéns estatais saqueados no bairro do Fomento. Três GNR avançam por um deles, onde se nota movimento de gente.
– Olha, percebes português?, pergunta um dos agentes. Perante o silêncio, repete a pergunta em tétum.
– Olha, nunca mais aqui venhas, despede-se o mesmo agente, depois de uma rápida revista ao homem.
18h30 Ouvem-se vivas a Portugal e à GNR. A patrulha internou-se no mercado de Comoro. Tendas destruídas ou queimadas, uma longa correnteza de bancas abandonadas, olhares inquietos dos raros frequentadores, perante a coluna que avança, decidida.
18h40 Uma coluna de fumo negro eleva-se por alturas da mesquita de Campo Alor. A mesma onde, logo após a independência, centenas de transmigrantes indonésios se concentraram durante meses, desafiando a capacidade de tolerância religiosa (realmente pouca ou nula) da população timorense. O comandante da patrulha australiana no local agradece mas diz que não precisa de auxílio. Há tempo ainda, porém, para ouvir – o crepitar da madeira em chamas como ruído de fundo – Agostinho da Silva, 57 anos, chefe de suco, a voz entaramelada pelo choro e pelo álcool, a pedir protecção e ajuda aos portugueses, a quem informa que também ele foi militar, nos anos 70. “Tem que nos dizer quem anda a fazer isto, para o podermos ajudar”, responde o capitão, ouvindo um atemorizado “mais tarde...” como resposta.
19 horas “Andámos a fazer reconhecimento de itinerários e recolha de informação. Faremos patrulhas destas 24 horas por dia. A Guarda tem condições para ganhar a confiança das pessoas”, diz o capitão na despedida. A noite já caiu. De regresso ao centro da cidade, cruzamo-nos com uma patrulha de australianos, que caminham a pé, pelas bermas da estrada, na direcção da Areia Branca. Como logo de manhã, em Comoro, e por todo o resto do dia, os homens da GNR começam a habituar-se a estes encontros, que, pelo seu ineditismo, a ninguém puderam passar despercebidos hoje, enchendo Díli de uma repentina azáfama policial-militar que a cidade não conhecia desde os tempos da Interfet. “Porquê? Não me compete a mim explicar”, respondeu, tentando esconder a ironia, o chefe da missão de avaliação da força, tenente-coronel Rodrigues, quando os repórteres insistiam, a meio da tarde, que dissesse se tamanha animação no centro da capital timorense teria alguma coisa a ver com a chegada, objecto de todas as conversas na cidade, da força da GNR. Adelino Gomes, em Díli (texto publicado na edição do dia 6 de Junho de 2006 do PÚBLICO)