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sábado, junho 10, 2006 

Alkatiri mandou matar opositores, acusam ex-guerrilheiros

Trinta homens, alguns deles antigos guerrilheiros das Falintil, armados e municiados com equipamento militar que dizem ter-lhes sido fornecido pelo antigo ministro do Interior, Rogério Lobato, acusam o primeiro-ministro timorense, Mari Alkatiri, de lhes ter encomendado a eliminação física dos seus opositores.
O comandante do grupo, Vicente “Railos” da Conceição, antigo guerrilheiro na região 4 (Bobonaro, Maliana, Ainaro, Liquiçá e Covalima), diz ter recebido instruções directamente do primeiro-ministro e secretário-geral da Fretilin, em 7 de Maio passado, para “neutralizar a tiro os peticionários [594 elementos que abandonaram as forças armadas em Fevereiro passado, queixando-se de discriminação étnica]” e eliminar “até aos último”, os líderes dos partidos da oposição timorense.

Os seus dois adjuntos, Mateus dos Santos Pereira, “Maurakat”, e Leandro “Grey Harana” Lobato afirmam ter participado no mesmo encontro e recebido as mesmas instruções, enquanto membros de um denominado “Grupo Secreto de Segurança da Fretilin”.

As acusações do comandante Railos foram feitas, ontem ao fim do dia (início da tarde em Portugal), perante um pequeno grupo de repórteres internacionais, entre os quais se encontravam os enviados do PÚBLICO e do Expresso, nos jardins de uma casa do antigo Governador e actual presidente do PSD, Mário Carrascalão, situada no alto do monte Nunuturi, a cerca de meia centena de quilómetros de Díli.

Mari Alkatiri desmentiu as acusações, feitas horas antes através de uma emissão do canal australiano ABC e do jornal The Australian (ver caixa). Fonte do seu gabinete disse, porém, ao dois enviados portugueses, que pretendiam confrontá-lo com datas e nomes apontados, que o chefe do governo timorense não se mostrava disponível para comentar o assunto.

Railós disse ter avisado, anteontem, Carrascalão, por telefone, de que se encontrava na sua propriedade, por “razões de segurança” e que ali iria permanecer ainda por mais duas ou três noites. A casa – onde, tudo indica, o grupo armado não chegou a entrar, ocupando apenas o alpendre e os jardins – integra a fazenda Algarve, uma propriedade da família Carrascalão, que ali cultiva café, entre outros produtos. “Não temos qualquer relação política com o senhor Carrascalão”, sublinhou.

O grupo apresenta-se fardado e armado, mas não integra, aparentemente, qualquer militar profissional ou polícia. Os seus trinta elementos – a que um dos apoiantes chamou, ironicamente, “a milícia de Alkatiri” – dizem ter recebido um total de 18 armas AK 33 e de seis mil cartuchos, além de outros equipamentos e apoio logístico, que inclui dois jipes, através do comandante da Unidade de Patrulha de Fronteira, António da Costa.

Homens empunhando armas automáticas deram ordem para parar aos dois carros em que os repórteres se deslocavam, só abrindo os portões de acesso à casa, erguida numa colina com uma deslumbrante paisagem de verde a perder-se até ao mar, quando o guia se identificou.

Railós declarou-se pronto a comparecer em tribunal para reafirmar as acusações contra Mari Alkatiri e Rogério Lobato, justificando a sua denúncia com o facto de os timorenses estarem a sofrer “demasiado”. Apontou Xanana Gusmão como “a única pessoa que pode resolver a crise” que Timor-Leste enfrenta, mas desmentiu uma informação, recolhida momentos antes pelos repórteres junto de apoiantes, segundo a qual se encontrou já, por diversas vezes, com o presidente timorense. Desmentiu igualmente qualquer ligação com outros grupos armados que contestam Mari Alkatiri: “podemos estar juntos, mas as situações do major Alfredo e dos peticionários são diferentes”.

Railós e os seus dois adjuntos responderam às perguntas dos repórteres de pé no jardim de entrada da casa de Mário Carrascalão, protegidos por homens armados e rodeados de cerca de uma centena de civis, alguns dos quais se enrolavam em mantas, para se protegerem do frio da montanha.

“Missão abortada”, comentou, sorridente, no final, o tradutor da conferência de imprensa, Benedito Freitas, 32 anos, referindo-se à recusa dos trinta homens em executarem as alegadas ordens de Alkatiri e de Lobato. “A Fretilin é um partido histórico e nós apoiamo-lo. Mas somos contra o regime de Mari Alkatiri”, disse na despedida – já a noite caíra há muito - o comandante Railós, cujas palavras foram sublinhadas por palmas e vivas a Xanana, ao povo de Timor-Leste e à Igreja católica, bem como por um sonoro “Abaixo Mari Alkatiri”


Alkatiri mudo, Horta incrédulo, Carrascalão surpreendido

O primeiro-ministro Mari Alkatiri não se disponibilizou para ser confrontado com as acusações de Railós e dos seus adjuntos ao pequeno grupo de repórteres que ontem se deslocou, a meio da tarde, às posições ocupadas pelo grupo no monte Nunuturi, na região de Liquiçá. Apesar de várias tentativas, também não foi possível recolher a reacção do ex-ministro e actual vice-presidente da Fretilin, Rogério Lobato.
Horas antes da deslocação do PÚBLICO à montanha, porém, Mari Alkatiri desmentira veementemente as alegações do ex-comandante guerrilheiro. “Estão a tentar demonizar a minha imagem”, disse ao canal australiano ABC, que emitiu, quinta-feira à noite, as primeiras declarações de Railos. Em declarações proferidas em tétum, mais tarde, na televisão timorense, voltou a pôr em causa a veracidade das acusações, argumentando que pediu auxílio à comunidade internacional para a contenção da violência no país e que tomou a iniciativa de propor uma investigação de carácter também internacional aos factos ocorridos e sobre os quais se têm multiplicado acusações contra a sua pessoa.
Ouvido também antes de Railos repetir as suas acusações perante o PÚBLICO, o ministro timorense da Defesa e dos Negócios Estrangeiros, José Ramos-Horta, mostrou-se “incrédulo” perante estas alegações, que no entanto, disse, devem ser investigadas.
Mário Carrascalão confirmou ter sido avisado, por telefone, de que a sua casa fora ocupada, mas disse que Railós lhe garantiu que não entraria nela, desligando de imediato, sem lhe ter sequer transmitido a informação de que tencionava permanecer no local mais algumas noites. “Acho muito estranho que tenham escolhido um sítio pertencente a uma pessoa que é contra o chefe deles”, disse ao PÚBLICO, comentando a presença numa propriedade sua de um grupo de homens armados que continuam a afirmar-se da Fretilin, embora em dissidência com o seu secretário-geral.
Adelino Gomes, em Nunuturi, Liquiçá. Texto publicado na edição do PÚBLICO de 10-6-2006.

NOTA: O PÚBLICO recebeu uma rectificação: a propriedade referida no texto como Fazenda Algarve, chama-se, de facto, Fazenda Abrantes, também ela propriedade de Mário Carrascalão.