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quarta-feira, maio 31, 2006 

Lorosae/loromonu

Muito se tem falado sobre o facto de alguns dos confrontos em Timor terem por fundo divisões étnicas entre as gentes do Leste e do Oeste. Porém, muitas pessoas continuam sem perceber a questão e a lançar muita confusão. No dia 21 de Maio, na revista PÚBLICA, numa entrevista a Adelino Gomes, o professor Paulo Castro Seixas* explicou muito bem a questão. Aqui fica um excerto da referida entrevista:

P — Onde é que entram aqui as duas expressões que têm sido referidas nos últimos tempos a propósito da crise — firaku e kaladi?
R — Há inúmeras versões. Uma palavra fundamental em Timor, aliás, é “depende”. A versão mais repetida diz que foram termos criados pelos portugueses. Quando estes chegaram a Díli, apresentaram-se e as pessoas ficaram caladas. Quando foram à Ponta Leste da ilha e se apresentaram, as pessoas viraram-lhes as costas. Os primeiros ficaram “calados” — kaladi; os segundos, viraram-lhes o cu — firaku. O que interessa aqui não é a veracidade da história. Quando os timorenses contam esta história, associam automaticamente características físicas e psicológicas a cada um deles.
P — Quais?
R — Os firaku são mais emotivos, mais meliantes e mais negociantes e fisicamente mais altos; os kaladi são mais consensuais, mais trabalhadores, mais reservados e mais pequenos.
P — Há uma versão erudita desta história?
R — Que eu saiba não existe. A palavra firaku existe, em macassai. Quer dizer: amigos; nós, camaradas; os nossos. Seria muito estranho que uma expressão portuguesa “vira-cus” tivesse derivado, numa corruptela em tetum dando origem a uma palavra que existe em macassae. O que eu deduzo é que ela é anterior à expressão portughuesa.
P — E kaladi, também existe?
R — Não. Existe um grupo populacional — kaladis – donde talvez tenha derivado a palavra. As divisões culturais e a forma como os timorenses as gerem — através de mediações múltiplas — mostram que essas auto-denominações são transformadas em hetero-denominações em que o próprio sentido foi modificado. Por exemplo, os tetum de Viqueque passaram a chamar firaku aos macassai, mas firaku significava “gente da montanha”, “gente rude”. Esta forma de utilizar as línguas estrategicamente é muito timorense. Traduzir para outra língua determinadas designações com outros sentidos, umas vezes de forma irónica, outras agressiva é um jogo típico timorense. O que eu proponho como hipótese é que terão sido os próprios tétum (tetum vem de tetuk, “gente da planície”, que é lugar do comércio) quem usou, antes dos portugueses, esses termos para desqualificar as duas grandes etnias em Timor: os macassai (os tais firaku) e os mambai [os tais kaladi].
P — Qual o sentido da utilização dos termos lorosae/loromonu na actual crise?
R — Os termos firaku e kaladi adoptaram uma perspectiva sinedocal, ou seja, passaram a significar todos os do Leste e todos os do Oeste.
P — Evocando a velha tensão étnica?
R — Que tem dentro de si outras tensões. Na Ponta Leste, por exemplo, há alguma entre os macua e os fataluco…
P — que para alguns não são, no entanto, firaku…
R — Se perguntar a gente do Leste quem são os firaku podem responder-lhe duas coisas: que são essencialmente os de Baucau (os mais revoltosos, os mais emotivos) ou que são apenas os de Lautém. A versão mais corrente identifica-os com o Leste. A partir de Manatuto para leste, são Firaku; para oeste são Kaladi. Manatuto é “terra do meio”, mas se for alguma coisa é firaku.

*Paulo Castro Seixas, 39 anos, casado, dois filhos, dá aulas de Antropologia Urbana e Antropo-Sociologia da Saúde na Universidade Fernando Pessoa (Porto), onde é professor associado. Timor está no centro, porém, de uma intensa actividade de investigação, traduzida em textos académicos e três filmes, um dos quais — sobre um ritual de reconciliação num clã — apresentado no Festival de Teleciência.
Um projecto de análise da reconstrução de uma capital em situação pós-colonial, aprovado pela Fundação de Ciência e Tecnologia, permitiu-lhe deslocar-se cinco vezes, entre 2000 e 2004, a Díli, cidade onde fez a 1ª classe, acompanhando os pais desde Angola, onde nasceu. Este ano voltou de novo lá, em Fevereiro. Passara, entretanto, a pertencer aos Médicos do Mundo, de que é vice-presidente, neste momento.
É mestre em Sociologia, pelo ISCSP, e tem um doutoramento em Antropologia em Santiago de Compostela. A tese — “Paradigmas socio-espaciais e políticas da diferença. Ilhas e novos condomínios. Uma interpretação dialógica da cidade do Porto”, será publicada na editora Celta.

Não quero parecer demasiado exigente mas, apesar do interesse da origem das designações, não fiquei a saber muito mais. A questão é saber quem são estas pessoas. O que querem? Que razões ou sentimentos ou histórias opõem os vários grupos entre si?
Há por aí tentativas de respostas?

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